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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Canetas emagrecedoras podem afetar a fertilidade? Especialista explica

Especialista da SBRA explica como a perda de peso pode influenciar a ovulação e alerta para os cuidados com as medicações antes da concepção e de tratamentos de reprodução assistida

 

As chamadas canetas emagrecedoras ganharam espaço na rotina de milhões de pessoas e, com a popularização desses medicamentos, uma nova questão passou a chamar a atenção de mulheres em idade reprodutiva: como conciliar a perda de peso com o desejo de engravidar? 

Segundo o Dr. Bruno Ramalho, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), a discussão sobre fertilidade não ficou em segundo plano. Ao contrário, ganhou relevância diante dos indícios de que a perda de peso promovida por esses medicamentos pode melhorar a função reprodutiva em algumas mulheres. 

No Brasil, as principais canetas emagrecedoras utilizadas para o controle do peso são liraglutida, semaglutida e tirzepatida. Em mulheres com obesidade, a redução de peso pode contribuir para melhorar alterações metabólicas e hormonais associadas à dificuldade para ovular. 

“A obesidade pode estar associada a distúrbios da fertilidade por vários mecanismos, entre os quais o estado inflamatório, a resistência à insulina, o aumento da fração livre da testosterona circulante e alterações no padrão de secreção do hormônio luteinizante (LH), responsável pelo amadurecimento dos folículos”, explica Bruno. Segundo ele, essas alterações podem levar a mulher a um estado em que a ovulação não acontece regularmente. 

Com a perda de peso, esse cenário pode mudar. A melhora dos padrões metabólicos e hormonais tende a favorecer a retomada dos ciclos ovulatórios e, potencialmente, aumentar as chances de gravidez, tanto espontânea quanto por reprodução assistida. 

A ciência também começa a investigar se as incretinas podem ter efeitos sobre os órgãos e células diretamente relacionados à reprodução. “O receptor de GLP-1 está presente em células dos ovários, nos óvulos e no endométrio, o que sugere que as incretinas podem ter efeitos positivos sobre o funcionamento desses tecidos e ajudar a reduzir processos de inflamação e estresse celular que podem afetar, por exemplo, a qualidade dos óvulos”, afirma o especialista.
 

O cuidado começa antes da gravidez 

Se a perda de peso pode favorecer a fertilidade, o uso das medicações precisa ser planejado quando existe intenção de engravidar. As canetas são contraindicadas durante a gestação e devem ser interrompidas antes da concepção planejada.

A orientação é que a suspensão ocorra de um a dois meses antes de tentar engravidar. Em caso de gravidez acidental durante o uso, a medicação deve ser suspensa imediatamente e a paciente deve buscar orientação médica. 

A recomendação está relacionada principalmente à falta de evidências que comprovem a segurança dessas substâncias durante a gestação. Embora estudos sobre exposições acidentais no primeiro trimestre não tenham identificado, até o momento, aumento do risco de grandes malformações, o número de casos ainda é pequeno. Além disso, estudos em animais apontaram efeitos adversos sobre o desenvolvimento embrionário e fetal.
 

Para quem vai fazer fertilização in vitro, atenção redobrada 

O planejamento também é importante para mulheres que pretendem realizar fertilização in vitro (FIV). Nesse caso, existe uma preocupação específica com a sedação utilizada durante a coleta dos óvulos. 

As canetas emagrecedoras retardam o esvaziamento do estômago e, por isso, podem aumentar o risco de aspiração do conteúdo gástrico durante a sedação. Por essa razão, o uso deve ser interrompido com antecedência antes da aspiração dos folículos, geralmente de duas a quatro semanas, conforme avaliação da equipe médica e do medicamento utilizado. 

Para Bruno, a decisão de usar uma incretina antes de um tratamento de fertilidade deve levar em conta não apenas o peso, mas também a idade da mulher e o tempo disponível para o planejamento reprodutivo. 

“Quando há obesidade e tempo para perder peso, o ideal é trabalhar o uso de uma incretina associado a um método contraceptivo não oral, acompanhando a perda ponderal e estabelecendo, de forma interdisciplinar, um ponto ótimo de interrupção para então dar andamento ao tratamento de reprodução assistida”, orienta. 

Já para mulheres em idade reprodutiva mais avançada, o cuidado é para que a busca pela perda de peso não acabe adiando um tratamento de fertilidade. “A mulher obesa pode se beneficiar da estratégia, mas com a cautela de não se adiar muito o início do tratamento de fertilidade, diante do possível impacto da idade sobre a quantidade e a qualidade dos gametas”, conclui.
 

Associação Brasileira de Reprodução Assistida - SBRA


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