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| Alterações na fala e na deglutição podem ser sintomas da miastenia gravis. Canva |
Característica intermitente da doença pode fazer com que manifestações como visão dupla e queda das pálpebras sejam ignoradas
O caso do
jornalista Alex Escobar, que descobriu ter miastenia gravis após apresentar
dificuldade para falar durante uma transmissão ao vivo, chamou atenção para uma
doença autoimune rara que pode apresentar sinais variados e, em alguns casos,
passar despercebida durante algum tempo.
De acordo com o neurologista do Hospital Universitário da Universidade Federal
de Sergipe (HU-UFS), da HU Brasil, Thiago Nascimento, a miastenia gravis
interfere na comunicação entre os nervos e os músculos e pode provocar
diferentes graus de fraqueza muscular. Entre os sintomas, os oculares estão
entre as manifestações mais frequentes e costumam aparecer no início da doença.
Segundo o neurologista, a queda das pálpebras (ptose) é um dos sinais que mais
chamam atenção. A ptose pode começar de forma discreta e aumentar ao longo do
dia, principalmente quando o paciente está mais cansado. A visão dupla também
pode aparecer de maneira intermitente, alternando períodos de melhora e piora.
A doença também pode provocar dificuldade para mastigar, falar ou engolir. A
voz pode ficar mais anasalada e o paciente pode perceber que atividades como
conversar ou realizar as refeições se tornam mais cansativas, principalmente no
final do dia.
O especialista
acrescenta que outro possível sinal é a fraqueza muscular nos braços e nas
pernas. Atividades cotidianas, como levantar de uma cadeira ou do vaso
sanitário, pentear os cabelos, escovar os dentes ou manter os braços elevados,
podem se tornar mais difíceis. Ele também ressalta que “fraqueza muscular e
fadiga não são necessariamente a mesma coisa. A fraqueza associada à miastenia
pode se intensificar com a realização de atividades e ao longo do dia, enquanto
a fadiga é uma sensação mais geral de indisposição e pode estar presente em
diferentes doenças”.
Diagnóstico
A investigação começa pela avaliação dos sintomas e do histórico do paciente.
Entre os exames utilizados estão testes sanguíneos para identificar anticorpos
relacionados à doença e a eletroneuromiografia, exame neurofisiológico que
avalia o funcionamento dos nervos e músculos.
O especialista
explica que nem todos os pacientes apresentam o mesmo perfil de anticorpos e
que a investigação pode incluir outros exames para diferenciar a miastenia de
outras doenças neurológicas.
Por apresentar
manifestações que podem variar ao longo do tempo, o acompanhamento médico é
importante mesmo quando os sintomas não estão presentes de forma contínua.
Por que o diagnóstico pode demorar?
A característica intermitente dos sintomas é um dos fatores que podem
contribuir para o atraso no diagnóstico. O paciente pode apresentar determinada
manifestação em um dia e perceber melhora no seguinte, o que pode fazer com que
o problema seja considerado passageiro. Também pode ocorrer confusão inicial
com questões emocionais ou psicológicas.
“Às vezes o
sintoma ocular pode passar despercebido, pelo fato de ser um sintoma
intermitente, ou seja, o paciente tem um dia, no outro dia já está normal,
tendo idas e vindas de sintomas. Por isso, a persistência ou recorrência de
sintomas como queda das pálpebras, visão dupla e fraqueza muscular deve ser
comunicada ao profissional de saúde”, afirma o neurologista.
Miastenia e o timo
A investigação de alterações no timo faz parte da avaliação de pacientes com
miastenia gravis. Segundo o neurologista, existe uma associação entre a doença
e alterações nessa glândula, que podem incluir aumento do timo e, em uma
parcela menor dos casos, a presença de um tumor, chamado timoma.
O médico ressalta
que ter uma alteração no timo não significa necessariamente ter um tumor. Em
alguns casos, conforme as características do paciente e a avaliação médica,
pode ser indicada a timectomia, cirurgia para retirada do timo, que também pode
contribuir para o controle da doença.
Tratamento
A miastenia gravis não possui tratamento curativo, mas pode ser controlada. O objetivo
do acompanhamento é reduzir os sintomas, evitar agravamentos e permitir que o
paciente mantenha sua qualidade de vida. O tratamento pode envolver
medicamentos para melhorar os sintomas e outras terapias destinadas ao controle
da resposta imunológica.
Conforme Thiago
Nascimento, medicamentos utilizados há mais tempo continuam tendo papel
importante no tratamento, enquanto novas opções terapêuticas ampliaram as
possibilidades para determinados perfis de pacientes.
“Entre os
medicamentos utilizados está a piridostigmina, que atua na transmissão
neuromuscular e pode contribuir para a melhora dos sintomas. O tratamento
também pode incluir corticoides e outros medicamentos imunomoduladores,
conforme a avaliação médica”, pontua.
O uso prolongado
de corticoides, entretanto, exige acompanhamento devido aos possíveis efeitos
adversos. O especialista cita riscos como osteoporose, alterações da visão,
diabetes ou descompensação do diabetes e hipertensão.
As novas terapias
podem representar uma alternativa para determinados pacientes, especialmente
aqueles que não apresentam resposta suficiente aos tratamentos convencionais. O
acesso a esses medicamentos, porém, pode variar conforme o sistema de saúde, os
protocolos vigentes e a situação individual do paciente.
Acompanhamento e qualidade de vida
Para o neurologista, o diagnóstico e o acompanhamento regular são fundamentais
para controlar a doença e reduzir o risco de agravamento.
“Toda doença
imunológica, eu gosto sempre de falar que é imprevisível, mas não é para
desesperar o paciente. Pelo contrário, é para falar para ele ter o
acompanhamento, porque o acompanhamento é fundamental”, afirma.
O tratamento não
se limita ao controle da fraqueza muscular. Dependendo das necessidades de cada
paciente, pode envolver diferentes profissionais e cuidados relacionados à
saúde física e emocional.
O objetivo é
reduzir os sintomas e permitir que a pessoa retome atividades que fazem parte
da rotina, como caminhar, praticar atividade física, participar de encontros
sociais e se alimentar adequadamente.
“Além desses
tratamentos medicamentosos, é importante o tratamento psicológico, porque pode
acontecer uma depressão, uma ansiedade associada, o tratamento respiratório.
Então existe uma equipe multi que precisa trabalhar junto além de todo o
tratamento específico da doença”, enfatiza.
Quando
procurar atendimento de emergência?
Um dos quadros
mais graves associados à miastenia gravis é a crise miastênica, que ocorre
quando a fraqueza muscular se intensifica e pode comprometer a respiração.
Dificuldade
importante para respirar ou engolir, fraqueza intensa na região do pescoço,
dificuldade para falar, cansaço acentuado e prostração são sinais que exigem
atendimento médico imediato. “O paciente não deve esperar, deve ir para a
emergência”, orienta o neurologista.
A crise miastênica
pode exigir internação e tratamento hospitalar. Por isso, pacientes que já
possuem diagnóstico de miastenia e apresentam piora importante dos sintomas
devem procurar atendimento sem esperar que o quadro regrida espontaneamente.
Onde buscar atendimento
A orientação para quem apresenta sintomas sugestivos de miastenia é procurar
avaliação médica, preferencialmente com neurologista. No Sistema Único de Saúde
(SUS), o caminho para atendimento especializado pode variar de acordo com os
fluxos de cada estado e município.
Segundo Thiago
Nascimento, no HU-UFS/HU Brasil há o Ambulatório de Neuroimunologia que
acompanha pacientes com miastenia gravis e outras doenças neurológicas como
esclerose múltipla. O acesso ao serviço ocorre por encaminhamento da Unidade
Básica de Saúde, conforme o fluxo de regulação local.
O especialista
ressalta que os fluxos podem ser diferentes entre os estados, mas os hospitais
universitários podem ser uma alternativa para o acompanhamento especializado de
pacientes encaminhados pela rede pública.
“A miastenia é
doença rara, mas já tem muito tempo que foi descoberta. Apesar da mortalidade
ser mais baixa, mas existe. Por isso, é uma doença que temos que ter atenção
para os sintomas e cuidar dela para poder dar uma qualidade de vida ao
paciente, com menor dose de corticoide, com menor número de sintomas e menor
carga de medicação”, finaliza.
HU
Brasil

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