Entre os cânceres mais comuns em adolescentes, linfomas exigem atenção
No Dia Mundial de Conscientização sobre
Linfomas, especialistas destacam as particularidades da doença entre crianças e
adolescentes e explicam por que identificar o tipo e o subtipo é fundamental
para definir o tratamento.
A adolescência é um período marcado por mudanças no corpo, na
rotina e na maneira de se relacionar com o mundo. É também uma fase com
particularidades quando o assunto é câncer. No dia 15 de setembro, o Dia
Mundial de Conscientização sobre Linfomas chama a atenção para um grupo de
doenças que também está entre as neoplasias mais frequentes na população
infantojuvenil. A data integra um mês dedicado à conscientização sobre esses
cânceres no Brasil, com a campanha Setembro Dourado.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que o Brasil registre
7.560 novos casos de câncer infantojuvenil por ano entre 2026 e 2028,
considerando a população de zero a 19 anos. A ocorrência dos diferentes tipos
de linfoma, entretanto, muda conforme a idade. Os linfomas não Hodgkin, grupo
que reúne diferentes neoplasias originadas nos linfócitos, são os mais
incidentes entre os linfomas na infância. Já o linfoma de Hodgkin ganha
destaque na adolescência: segundo o INCA, é mais comum, entre outros grupos, em
adolescentes e adultos jovens de 15 a 29 anos.
Mas receber o diagnóstico de linfoma é apenas parte da resposta.
Existem diferentes tipos e subtipos da doença, com comportamentos, prognósticos
e tratamentos próprios.
“Identificar exatamente qual linfoma está presente é decisivo,
porque estamos falando de doenças com comportamentos biológicos diferentes e
que podem exigir estratégias terapêuticas também muito distintas”, explica o
Dr. Pedro Henrique Pinto, médico patologista responsável técnico do Hospital da
Criança de Brasília José Alencar e membro da Sociedade Brasileira de Patologia
(SBP).
Essa diversidade também é destacada pela Associação Brasileira de
Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH). Para o Dr. Guilherme
Duffles, hematologista, especialista em onco-hematologia e coordenador do
Comitê de Linfomas da ABHH, a definição precisa do tipo e do subtipo da doença
é uma etapa fundamental para a escolha da estratégia terapêutica.
“Existem diferentes subtipos, com características próprias, e essa
diferenciação é fundamental para entender o comportamento da doença e definir o
melhor tratamento para cada paciente”, explica Duffles. A classificação
precisa, que pode envolver a análise das características das células e exames
complementares, é especialmente importante porque diferentes linfomas podem
exigir abordagens terapêuticas completamente distintas.
Antes mesmo de chegar a esse diagnóstico, alguns sinais podem indicar a necessidade de investigação. Os linfomas costumam se manifestar pelo aumento persistente dos linfonodos (popularmente conhecidos como “ínguas”), especialmente quando indolores. Febre sem causa definida, perda de peso, suor noturno e massa abdominal também podem ocorrer. Dependendo da região acometida, podem surgir ainda tosse persistente ou falta de ar. Esses sinais também estão presentes em outras condições e não significam necessariamente câncer, mas sua persistência deve motivar avaliação médica.
Diferentes linfomas, diferentes tratamentos - Falar em “linfoma” significa reunir doenças bastante
diferentes. Entre crianças e adolescentes estão, por exemplo, o linfoma de
Burkitt, o linfoma linfoblástico e o linfoma difuso de grandes células B, além
do linfoma de Hodgkin. Essa distinção tem consequências práticas: o Burkitt, de
crescimento rápido, exige quimioterapia intensiva e de curta duração, enquanto
o linfoma linfoblástico pode demandar um regime semelhante ao utilizado para
tratar determinadas leucemias. Outros tipos seguem protocolos próprios.
É nessa diferenciação que o patologista assume papel central. A
partir da análise da biópsia do linfonodo ou de outro tecido acometido, o
especialista avalia as características das células e reúne outras informações
necessárias para determinar com precisão o tipo e o subtipo da doença.
“A partir da biópsia, utilizamos a avaliação microscópica e
técnicas como a imuno-histoquímica, que identifica proteínas específicas em
amostras de tecido, para dar nome e sobrenome ao linfoma. Essa classificação é
fundamental porque cada subtipo possui tratamento e prognóstico diferentes”,
explica a Dra. Cristiane Bedran Milito, médica patologista e hematopatologista,
professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), presidente da
Associação Estadual de Patologia do Rio de Janeiro (APERJ) e membro da SBP.
Diagnóstico também orienta o tratamento - Além de determinar qual doença está
presente, exames complementares podem identificar características das células
tumorais que, em determinados casos, ajudam a selecionar terapias específicas.
“Por meio da imuno-histoquímica e dos estudos moleculares, podemos
identificar características que orientam o acesso a determinadas opções de
tratamento, inclusive imunoterapias. A definição feita pelo patologista é o
ponto de partida para a conduta oncológica”, explica o Dr. Pedro.
Para crianças e adolescentes, essa precisão ganha importância
adicional. O objetivo é escolher uma estratégia capaz de combater a doença e,
ao mesmo tempo, considerar as repercussões do tratamento em um organismo ainda
em desenvolvimento.
Quando o câncer atravessa a adolescência - Para um adolescente, receber um
diagnóstico de câncer significa lidar com a doença justamente em uma fase
marcada pela busca de autonomia, pela escola, pelos amigos e pela construção de
projetos para o futuro. Por isso, o cuidado precisa olhar não apenas para o
tratamento do tumor, mas também para as mudanças que ele provoca na vida do
paciente e de sua família.
“O impacto emocional é enorme e precisa ser enfrentado com apoio
psicológico, social e educacional”, ressalta a Dra. Mariana Michalowski,
presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE) e
professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Buscamos
manter a criança próxima da escola e das atividades lúdicas, preservando a
normalidade possível durante o tratamento.”
No Dia Mundial de Conscientização sobre Linfomas e ao longo do
Setembro Dourado, colocar crianças e, especialmente, adolescentes no centro
dessa discussão ajuda a chamar atenção para uma população com particularidades
próprias, tanto na ocorrência das diferentes neoplasias quanto na experiência
de atravessar o diagnóstico e o tratamento em uma fase de tantas
transformações. Para os especialistas, tão importante quanto oferecer o
tratamento adequado é cuidar da criança ou do adolescente que existe para além
da doença.
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