Quando um idoso inicia (ou já está em) tratamento oncológico, é comum que toda a atenção se concentre no tumor. Isso ocorre em um contexto em que a maioria dos casos de câncer está concentrada na população acima dos 60 anos, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Mas, na prática, o sucesso do tratamento e a recuperação dependem também de fatores que vão além do câncer, como nutrição, força muscular, risco de quedas, cognição, humor, sono, controle de sintomas e autonomia.
É por isso que o olhar da geriatria pode fazer diferença: ao identificar vulnerabilidades cedo, é possível ajustar o plano de cuidado, prevenir complicações e manter o idoso mais funcional ao longo do processo.
A síndrome da fragilidade, caracterizada por perda de força, resistência e função, já afeta uma parcela significativa dos idosos, estimada entre 10% e 20%, e pode se intensificar durante o tratamento oncológico. Dados publicados no Journal of Gerontology indicam que essa condição está associada a maior risco de complicações, hospitalizações e perda de autonomia.
“Em muitos casos, o que derruba o idoso não é apenas o câncer, mas o conjunto: tratamento, outras doenças, muitos remédios, perda de apetite, desidratação e redução de movimento. Quando a família aprende a reconhecer sinais de fragilização precocemente e leva isso para a consulta, conseguimos agir antes que o quadro complique”, explica a médica geriatra Dra. Paola Teruya.
A recomendação é observar mudanças fora do padrão do idoso, especialmente quando são persistentes, aparecem em conjunto e começam a interferir no dia a dia.
Sinais físicos e funcionais
- Perda de apetite e emagrecimento visível;
- Cansaço fora do habitual, fraqueza e dificuldade de levantar da cadeira;
- Caminhar mais devagar, insegurança para subir escadas, precisar de
apoio;
- Quedas, tropeços, tonturas ou medo de cair;
- Passar
muito tempo deitado/sentado, com redução de
atividades simples.
Sinais cognitivos e emocionais
- Confusão, desorientação, sonolência excessiva
- Mudança abrupta de humor (apatia, irritabilidade, choro fácil)
- Isolamento, desânimo, perda de interesse pelo que gostava
- Aumento de ansiedade e medo do tratamento, com sofrimento intenso
Sinais de perda de autonomia
- Dificuldade
para organizar e tomar remédios corretamente
- Precisar
de ajuda para banho, alimentação, banheiro
ou tarefas básicas
- “Não dá mais para ficar sozinho” por segurança
“Às vezes a família acha que é ‘normal da idade’ ou ‘efeito
inevitável do tratamento’, e perde o timing de intervir. O recado é: mudança
importante e persistente merece conversa com a equipe”, reforça a geriatra.
Além do tratamento oncológico, a família pode organizar um plano de
cuidado com metas realistas para manter segurança e autonomia.
Dra. Paola Teruya - Geriatria e oncogeriatria. Médica formada pela FCMS/UNILUS, com residência em Clínica Médica no Hospital Sírio-Libanês e especialização em Geriatria pela USP. Possui fellowship em Oncogeriatria pelo ICESP-HC/FMUSP e título pela SBGG.
@drapaolateruya
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