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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Estamos usando a IA para ganhar tempo ou apenas para trabalhar mais?

A tecnologia pode ajudar a entregar mais, mas só transforma o trabalho quando nos ajuda a pensar, decidir e nos relacionar melhor

 

A inteligência artificial já está ajudando empresas a ganhar velocidade, reduzir tarefas operacionais e produzir mais. E é natural que parte desse ganho se transforme em novas metas, projetos e oportunidades de crescimento. O ponto não é questionar isso. A pergunta é se estamos usando a eficiência apenas para aumentar o volume ou também para melhorar a forma como pensamos, decidimos e trabalhamos juntos. Se a tecnologia pode liberar as pessoas para um trabalho mais estratégico, por que tantas equipes ainda encontram tão pouco espaço para conversar, pensar juntas e construir confiança?

Competências como escuta, empatia, influência, negociação e gestão de conflitos não se constroem apenas em treinamentos. Elas se desenvolvem nas conversas do dia a dia. Uma conversa individual feita às pressas, um feedback delicado reduzido a uma mensagem ou uma decisão difícil comunicada sem contexto podem até parecer mais eficientes no curto prazo. Mas, com o tempo, enfraquecem a confiança. Existe uma incoerência quando a empresa afirma que as pessoas estão no centro, mas organiza o trabalho de um jeito que quase não deixa espaço para relações de qualidade.

Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% dos conjuntos de habilidades utilizados hoje pelos trabalhadores devem mudar ou se tornar desatualizados até 2030. O mesmo relatório mantém liderança e influência social entre as competências mais valorizadas e coloca empatia e escuta ativa entre as dez habilidades centrais. Isso mostra que tecnologia e capacidade humana não estão em lados opostos. À medida que parte do trabalho técnico muda ou é automatizada, saber analisar, conversar, influenciar e tomar boas decisões ganha ainda mais peso.

Por isso, a pergunta que eu faria às lideranças não é apenas quanto tempo a IA economizou, mas o que conseguimos fazer melhor a partir desse ganho. Se uma ferramenta reduz em duas horas a elaboração de um relatório, é natural que esse tempo seja usado em novas entregas. Mas ele também pode ajudar o profissional a analisar melhor o negócio, conversar com o cliente, revisar uma decisão ou desenvolver alguém da equipe. A transformação acontece quando a tecnologia não só aumenta o volume, mas melhora a qualidade do que entregamos.

Para o RH, o desafio não é apenas oferecer treinamentos sobre ferramentas de inteligência artificial ou ensinar uma sequência de comandos. É desenvolver pensamento crítico para que as pessoas entendam o que a tecnologia faz, onde ela ajuda, onde pode errar e como usá-la para melhorar o próprio trabalho. Também é preciso olhar para a forma como o trabalho está organizado, para as metas, para os rituais de gestão e para o espaço que os líderes realmente têm para liderar. Se um gestor nunca encontra tempo para conversar, dar feedback, desenvolver pessoas ou conduzir conflitos, talvez o problema não esteja apenas na habilidade dele. Pode estar também no modelo de trabalho que a própria organização criou.

Essa necessidade de combinar eficiência, consciência e qualidade das relações ganhou ainda mais força para mim durante as gravações de “O Despertar do Líder”, doc-reality da Band. Ao longo de uma jornada de 105 quilômetros, percebi que, quando o cansaço aumenta e o controle diminui, não é a velocidade individual que sustenta o grupo. É a capacidade de perceber o outro, pedir ajuda, ajustar o passo e entender que ninguém atravessa uma jornada assim sozinho. No trabalho, muitas vezes esquecemos disso: equipes não são apenas um conjunto de entregas. São relações de confiança das quais o resultado também depende.

Não precisamos escolher entre produtividade e conexão. A tecnologia pode ajudar as empresas a entregar mais e, ao mesmo tempo, melhorar a forma como o trabalho acontece. As organizações mais preparadas para o próximo ciclo serão aquelas que usarem a inteligência artificial para reduzir tarefas de baixo valor, abrir espaço para novas entregas e melhorar decisões, conversas e relações. No fim, produtividade não é apenas fazer mais em menos tempo. É gerar mais valor sem enfraquecer as pessoas e as relações que tornam esse resultado possível.

 

Daniele Matos - fundadora e CEO da RHLovers, escola dedicada ao desenvolvimento de profissionais e lideranças que já formou mais de 3 mil pessoas. Especialista em liderança e desenvolvimento humano, atua há mais de 15 anos ajudando profissionais e organizações a ampliarem sua consciência, seu posicionamento e sua capacidade de decisão. É mentora e palestrante em temas relacionados a liderança, RH, carreira e futuro do trabalho. Em 2026, integra o elenco do doc-reality “O Despertar do Líder”, exibido pela Band, em uma jornada que conecta liderança, autoconhecimento e tomada de decisão em situações de pressão e incerteza.

 

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