Modelo
computacional prevê o caminho da radiação luminosa no corpo para adequar
terapias não invasivas à anatomia de cada paciente
Terapia baseada em luz aplicada em pulmão para transplante; no tratamento
de pneumonia, o mesmo tipo de fonte emissora de luz pode ser utilizado
(imagem: Cristina Kurachi)
Pesquisadores
da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradores internacionais criaram um
modelo computacional capaz de gerar um “gêmeo digital” do tórax humano com o
objetivo de personalizar o tratamento de doenças respiratórias usando um tipo
especial de luz. A nova tecnologia, descrita em artigo publicado ontem (10/08) na PNAS,
a revista da Academia de Ciências dos Estados Unidos, usa exames de tomografia
para prever o caminho que a radiação luminosa fará por dentro do corpo,
permitindo calcular a dose exata necessária para combater infecções e
inflamações diretamente nos pulmões, apenas iluminando a pessoa pelo lado de
fora.
Terapias baseadas em luz vêm
sendo empregadas para tratar inflamações ou infecções em diferentes órgãos. As
principais abordagens são a terapia fotodinâmica, na qual a luz ativa uma
substância fotossensível que, na presença de oxigênio, gera espécies reativas
capazes de destruir microrganismos; e a fotobiomodulação, que utiliza luz de
baixa intensidade para modular processos celulares e respostas inflamatórias.
No caso dos pulmões, porém, o uso dessas técnicas enfrenta uma grande
dificuldade: para alcançar o órgão de forma não invasiva, a luz aplicada
externamente precisa atravessar pele, gordura, músculos, ossos e outros tecidos
do tórax, sofrendo absorção e espalhamento ao longo do percurso.
Assim, a mesma quantidade de
luz aplicada sobre o tórax de duas pessoas pode produzir efeitos muito
diferentes no interior de seus pulmões. Para contornar esse obstáculo, os
autores combinaram imagens de tomografia computadorizada, reconstruções
anatômicas tridimensionais e simulações computacionais, aceleradas por
processamento de alto desempenho, criando assim o “gêmeo digital” do tórax de
cada paciente. A partir dessas informações, torna-se possível estimar quanto da
luz aplicada à superfície do corpo alcançará diferentes regiões dos pulmões,
onde é absorvida, e qual configuração de iluminação seria mais adequada para
cada anatomia e cada condição patológica.
“Como nossa estratégia utiliza
iluminação externa, precisamos saber quanta luz chega ao pulmão e se ela chega
em dose suficiente para ativar o fármaco da terapia fotodinâmica ou para
induzir a resposta biológica na fotobiomodulação”, diz a professora do
Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) Cristina Kurachi, que coordenou o estudo ao
lado de Vanderlei Bagnato,
também do IFSC-USP. Participaram ainda pesquisadores do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina da USP (HC-FM-USP), da Texas A&M University, nos
Estados Unidos, e da Victoria University of Wellington, na Nova Zelândia.
Como ressalta Bagnato, o pulmão
é um alvo particularmente difícil para terapias baseadas em luz. Uma
alternativa seria conduzir a luz até o órgão por broncoscopia – técnica que
utiliza um tubo fino com uma câmera (broncoscópio) inserido pelo nariz ou pela
boca –, mas o procedimento é invasivo e pode inclusive agravar a condição do
paciente.
“A iluminação externa é muito
mais simples. Porém, além da absorção e do espalhamento que a radiação luminosa
sofre no percurso até o órgão, o próprio pulmão não constitui um meio
homogêneo. Ar, tecido pulmonar, vasos sanguíneos e regiões alteradas por inflamação
ou colapso apresentam propriedades ópticas diferentes. Pneumonia focal
[concentrada em uma região específica], pneumonia difusa [em diversas regiões
de ambos os pulmões] e COVID-19, por exemplo, modificam de maneiras distintas a
distribuição e a densidade dos tecidos pulmonares”, explica Bagnato.
É justamente essa complexidade
que torna inadequada, em princípio, a ideia de aplicar a todos os pacientes uma
mesma potência de luz, durante o mesmo tempo e na mesma posição.
“Nossa solução foi utilizar imagens
de pacientes, incorporando a anatomia dos tecidos e suas diferentes espessuras,
e criar o ‘gêmeo digital’. Nele incluímos as propriedades ópticas dos tecidos,
isto é, quanto da luz é absorvido e quanto é espalhado, para tentar predizer a
quantidade que efetivamente chega ao pulmão e, assim, resultar na
individualização da dosimetria e em uma resposta terapêutica mais efetiva”,
explica Kurachi.
O primeiro passo consiste em
transformar as imagens obtidas por tomografia computadorizada em um modelo
tridimensional do paciente. Os volumes de tomografia são segmentados; isto é, o
computador identifica e separa as diversas estruturas anatômicas. No estudo,
foram representados 12 tipos de tecido ou estruturas: pele, gordura subcutânea,
músculos, ossos, coração, fígado, estômago, rins e, nos pulmões, tecido
normalmente aerado, regiões colapsadas, infiltrados e vasos sanguíneos.
Essa anatomia é depois dividida
em pequenos elementos volumétricos, os voxels – equivalentes tridimensionais
dos pixels de uma imagem digital. No modelo utilizado, cada voxel mediu 0,1
centímetro de lado. O resultado é uma representação computacional detalhada da
caixa torácica. A cada tecido são então atribuídos parâmetros ópticos, especialmente
os coeficientes de absorção e espalhamento da luz em diferentes comprimentos de
onda.
“Com todos esses dados
incorporados ao modelo, entra em cena a simulação de Monte Carlo. Em vez de
tentar encontrar uma única solução analítica para a propagação da luz em uma
anatomia extremamente heterogênea, a simulação calcula o destino de milhões de
fótons à medida que eles avançam, são espalhados ou absorvidos pelos diferentes
tecidos”, informa Bagnato.
Vale lembrar que a simulação de
Monte Carlo é um método computacional que utiliza amostragens aleatórias repetidas
para obter soluções numéricas de problemas complexos, especialmente aqueles que
envolvem muitas variáveis e comportamentos probabilísticos.
“A partir do comportamento
coletivo dos fótons, o sistema constrói mapas tridimensionais da distribuição
da luz e da energia absorvida no organismo. No estudo, a plataforma foi
alimentada com tomografias de pessoas com diferentes condições pulmonares. O
grupo incluiu quatro indivíduos do HC-FM-USP: um indivíduo-controle sem doença
pulmonar e três pacientes, respectivamente com pneumonia bacteriana
predominantemente focal, pneumonia bacteriana difusa e pneumonia viral causada
pela COVID-19. Outros dois voluntários participaram de medições ópticas
utilizadas para a validação experimental do modelo. As imagens de tomografia
foram utilizadas para construir o ‘gêmeo digital’ e medidas da distribuição da
luz foram obtidas nos voluntários, possibilitando observar a performance do
modelo”, descreve Kurachi.
As reconstruções mostraram de
forma muito clara quanto as doenças alteram o órgão. No paciente saudável usado
como referência, cerca de 91% do órgão era composto por tecido normal, capaz de
se encher de ar e realizar a respiração. Já no paciente com a pneumonia focal,
a área saudável caiu para 58,9%, enquanto no caso da pneumonia difusa a redução
foi ainda maior, chegando a apenas 54,1%. O paciente com COVID-19 também
apresentou uma perda significativa, mantendo cerca de 69,9% do pulmão
preservado. Todo esse espaço útil que foi perdido acabou sendo tomado por
acúmulo de inflamação, por áreas “murchas” (colapsadas), que não conseguem mais
fazer a troca gasosa, e por um aumento nos vasos sanguíneos. Essa grande
mudança física torna o órgão mais denso, alterando a interação com a luz.
A posição
da fonte luminosa faz diferença
Foram avaliados inicialmente
diferentes comprimentos de onda e quatro configurações para posicionar as
fontes de luz ao redor do tórax. Um resultado se destacou: a luz de 808
nanômetros, situada no infravermelho próximo e, portanto, invisível ao olho
humano, apresentou a maior deposição de energia nos pulmões em todas as
configurações testadas.
A posição das fontes mostrou-se
igualmente decisiva. A configuração que combinava incidência nas regiões
lateral e dorsal do tórax proporcionou a distribuição mais uniforme e a maior
deposição de energia nos pulmões. Já a iluminação exclusivamente frontal teve
desempenho inferior, principalmente por causa da atenuação provocada pelas
costelas e, na região anterior do tórax, pelo tecido adiposo das mamas.
“Se o paciente tem uma
pneumonia inicial, localizada em uma região do pulmão, para que iluminar todo o
pulmão ou os dois pulmões? Se a pneumonia é severa e difusa, a situação é
outra. Com as características da fonte de luz, do paciente e da própria doença,
podemos definir quais placas precisam ser ligadas e como deve ser feita a
iluminação. Deixamos de simplesmente iluminar sem saber exatamente o resultado
para individualizar o planejamento”, sublinha Kurachi.
No conjunto das simulações, a
configuração multiangular – que consiste em posicionar as fontes de luz ao
redor do paciente para iluminar o tórax a partir de várias direções ao mesmo
tempo, combinando as partes da frente, de trás e as laterais do corpo – testada
em 808 nanômetros produziu a distribuição considerada mais uniforme e eficiente
entre as alternativas avaliadas.
A anatomia de cada paciente não
foi a única responsável pelas diferenças observadas nas simulações. A própria
doença altera a estrutura dos pulmões e, com isso, a maneira como os tecidos
interagem com a luz e a quantidade de energia luminosa que absorvem. É essa
parcela absorvida pelo tecido que os pesquisadores denominam “deposição de
energia”.
Nas simulações, as regiões
pulmonares colapsadas – nas quais os alvéolos perdem ar e o tecido se torna mais
denso – apresentaram proporcionalmente a maior deposição de energia, entre
aproximadamente 3% e 4,5%. No parênquima pulmonar (região formada por milhões
de alvéolos e onde ocorre de fato a troca gasosa) normalmente aerado, esse
valor ficou em torno de 1% a 2%, enquanto as regiões infiltradas pela
inflamação apresentaram valores intermediários. Isso ocorre porque as
alterações na densidade e na composição dos tecidos modificam suas propriedades
de absorção e espalhamento da luz. “Considerando o tratamento pelas técnicas
fotônicas, esse comportamento é positivo, já que desejamos a maior deposição e
absorção de energia justamente nas regiões onde a doença está estabelecida,
preservando os tecidos normais dos pulmões”, pontua Kurachi.
Essas diferenças produziram
padrões característicos para cada quadro clínico. Na pneumonia focal, a maior
deposição de energia concentrou-se nas áreas afetadas, formando zonas bem delimitadas
em relação ao tecido saudável. Na pneumonia difusa, distribuiu-se de maneira
mais homogênea por extensas regiões do pulmão. E, na COVID-19, apareceu um
padrão bilateral e periférico, correspondente à distribuição das opacidades
observadas nas tomografias.
“Esse trabalho procura
justamente evitar que o planejamento da iluminação do paciente seja feito ‘no
escuro’: isto é, colocar a luz em determinado lugar sem saber quanto
efetivamente chegará ao alvo. A proposta é individualizar o planejamento com base
nas características do paciente e da doença instalada”, resume Kurachi.
Quanto de
luz realmente chega aos pulmões
Os cálculos mostraram que
apenas uma pequena fração da luz aplicada sobre a pele consegue chegar aos
pulmões. Na configuração que apresentou os melhores resultados, com luz
infravermelha de 808 nanômetros e irradiância de 100 miliwatts por centímetro
quadrado (mW/cm²) na pele, a irradiância média calculada no pulmão saudável foi
de apenas 0,0234 mW/cm². Nos pulmões doentes, foi ainda menor: 0,0166 mW/cm² na
pneumonia focal, 0,0120 mW/cm² na pneumonia difusa e 0,0113 mW/cm² na COVID-19.
Em uma aplicação clínica, essas condições resultam na necessidade de longos
tempos de iluminação, mas intervalos entre 40 e 80 minutos são suficientes para
atingir as doses de energia empregadas para a fotobiomodulação e a terapia
fotodinâmica.
Isso acontece porque grande
parte da luz é absorvida ou desviada pelos tecidos que encontra pelo caminho. E
a quantidade que chega ao pulmão varia de uma pessoa para outra e também entre
diferentes regiões do próprio órgão, dependendo de fatores como a espessura da parede
torácica, a geometria dos pulmões e as alterações provocadas pela doença.
“É justamente aí que o gêmeo
digital pode fazer a diferença. Podemos usar tudo o que somos capazes de
observar no paciente para planejar aquilo que não conseguimos observar diretamente.
O objetivo é chegar o mais próximo possível da distribuição de luz necessária e
tornar o tratamento mais preciso”, enfatiza Bagnato.
A sequência imaginada pelos
pesquisadores para uma aplicação futura é bastante precisa. Primeiro, uma
tomografia ou ressonância magnética de alta resolução produziria a anatomia
tridimensional do paciente. Regiões sadias e doentes seriam identificadas. Em
seguida, o modelo receberia as propriedades ópticas correspondentes aos
diferentes tecidos.
Simulações computacionais
calculariam então a propagação da luz no interior daquele tórax específico. O
médico poderia testar virtualmente diferentes comprimentos de onda, intensidades
e posições das fontes antes de realizar o procedimento real e escolher a
configuração mais adequada. O “gêmeo digital” funcionária, dessa forma, como
uma espécie de campo de ensaio computacional para o tratamento.
É preciso ressaltar, porém, que
o modelo ainda não está pronto para uso clínico. As propriedades ópticas
atribuídas aos diferentes tecidos foram obtidas principalmente da literatura e
não reproduzem todas as variações individuais. Além disso, embora os resultados
das simulações sejam compatíveis com medições experimentais, ainda será
necessária uma validação mais rigorosa da quantidade de luz que efetivamente
chega ao interior dos pulmões.
O avanço em direção à aplicação
clínica, no entanto, já começou. “Estamos fazendo o estudo in vivo em
ovelhas nos Estados Unidos. A ovelha é um animal que apresenta pneumonia
semelhante à humana, inclusive causada pela mesma bactéria. É uma etapa de
preparação para chegarmos ao ser humano”, conta Bagnato.
Os próximos passos incluem
novas validações experimentais e clínicas e, futuramente, a medição da dose de
luz em tempo real. O objetivo é chegar a tratamentos personalizados, nos quais
seja possível determinar não apenas quanto de luz aplicar sobre a pele, mas
quanto deve efetivamente chegar à região do pulmão que se pretende tratar.
Para Bagnato, porém, a
sofisticação tecnológica precisa vir acompanhada de outra preocupação. “Somos
cientistas comprometidos com a relevância da pesquisa. Queremos resolver
problemas, mas trabalhamos também com responsabilidade social. Não queremos
criar uma tecnologia de custo proibitivo, que não possa ser levada ao Sistema
Único de Saúde [SUS] ou utilizada amplamente. Um bom tratamento precisa ser
acessível à população. A realidade econômica precisa ser contemplada pelo que
estamos desenvolvendo”, afirma.
O estudo recebeu financiamento
da FAPESP por meio do Centro de Pesquisa em Óptica e
Fotônica (CEPOF) e do Projeto
Temático “Tecnologias Fotônicas Avançadas
para as Ciências da Vida”, ambos coordenados por Bagnato.
O artigo Anatomy-resolved
digital twin framework for personalized light dosimetry in lung therapies pode
ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2612370123.
https://agencia.fapesp.br/gemeo-digital-do-torax-simula-aplicacao-de-luz-para-tratamento-de-pneumonias/58933

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