Pesquisadores
avaliaram 21 modelos de linguagem, como GPT e Gemini, e descobriram que todos
alteram seu discurso para concordar com o viés do usuário, podendo funcionar
como câmaras de eco
Enquanto não existem soluções técnicas consolidadas, uma medida
prática é o próprio usuário solicitar respostas mais equilibradas, diz pesquisador
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Pesquisadores da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp) avaliaram o posicionamento ideológico de grandes
modelos de linguagem – sistemas de inteligência artificial treinados para
compreender e gerar textos em linguagem humana – e constataram que, quando são
informados do posicionamento político do usuário, todos possuem a tendência de
reproduzir sua visão política. Segundo eles, esse comportamento pode aprofundar
o cenário de polarização política no país.
A influência política dessas
ferramentas não precisa se dar diretamente, por meio da sugestão de voto em
determinados candidatos. Zanoni Dias, professor titular do Instituto de
Computação (IC-Unicamp), destaca que, ao responder sobre assuntos controversos
– como segurança pública, bem-estar social, economia e meio ambiente –, os
modelos podem adotar enquadramentos alinhados ao posicionamento político do
usuário.
Para entender como essas
ferramentas se posicionam e como podem influenciar o debate político
brasileiro, os cientistas avaliaram 21 modelos de linguagem em três condições:
sem informação sobre o posicionamento do usuário, com um usuário alinhado à
esquerda e com um usuário alinhado à direita. Entre os sistemas avaliados
estavam modelos das famílias GPT, Grok, Llama, Gemini e Gemma. Os resultados
mostraram que todos alteraram, em diferentes graus, suas respostas na direção
do alinhamento político do usuário.
O estudo foi financiado pela
FAPESP e publicado em maio
na revista Scientific Reports.
Camaleões
ideológicos
No cenário em que não havia
informação sobre o posicionamento político do usuário, 20 dos 21 modelos
apresentaram, na escala utilizada pelos pesquisadores, uma posição à esquerda
do ponto médio, embora alguns estivessem muito próximos dele. A única exceção
foi o Grok 4.1, que apresentou posição inicial à direita.
Quando o posicionamento político
do usuário é informado, todos os modelos mudam suas respostas para se adequar a
ele, comportamento descrito pelos pesquisadores como o de um camaleão. No
entanto, alguns modelos variam suas respostas mais do que outros, o que
permitiu aos cientistas criar o chameleon index (índice
camaleão). O Meta Llama 3.1 8B apresentou o menor índice, ou seja, foi o modelo
que menos alterou suas respostas para se adequar à visão do usuário. Já o Gemma
3 27B, da Google, e o GPT-5 nano, da OpenAI, apresentaram os índices mais altos
e, portanto, as maiores mudanças de posicionamento. As respostas não são
factualmente inverídicas, mas são enviesadas no ponto de vista político,
omitindo fatos e opiniões que possam conflitar com aquele ponto de vista de
preferência do usuário.
Os pesquisadores temem que esse
comportamento mutante crie câmaras de eco que reforcem as crenças prévias dos
usuários e reduzam sua exposição a contrapontos que lhes permitam questionar
sua visão de mundo. “É um efeito semelhante ao que a gente percebe em redes
sociais. Se você está no Facebook ou no Instagram, você só vê mensagens que
concordam com você. Quando curte uma postagem de alguém, o algoritmo começa a
te mostrar mais daquilo. Você não consegue ver o que o resto das pessoas está
dizendo e pode bater no peito e falar: ‘Olha, todo mundo concorda comigo’,
porque só é exibido esse tipo de informação. Os modelos de linguagem podem
acabar produzindo um efeito semelhante”, compara Dias.
A mudança de postura não
ocorreu de maneira homogênea em todos os assuntos avaliados. Em temas como
segurança pública e economia, a diferença entre as respostas dadas a usuários
de esquerda e de direita foi maior. Já em questões relacionadas a corrupção,
justiça e instituições democráticas, as respostas foram mais homogêneas.
Segundo os pesquisadores, esse padrão pode estar relacionado às restrições e
aos mecanismos de segurança incorporados durante o treinamento e o alinhamento
dos modelos, já que as empresas desenvolvedoras costumam impor regras (guardrails)
para evitar que a IA dissemine desinformação ou discursos perigosos sobre o
sistema democrático.
Bajuladores
eletrônicos
A base do comportamento
camaleônico dos modelos de linguagem pode estar na sua tendência de bajular. Essa
é uma característica conhecida desse tipo de inteligência artificial que a leva
a concordar com o usuário em vários outros contextos além dos posicionamentos
políticos. O comportamento bajulador, por sua vez, pode estar relacionado à
forma como esses sistemas são ajustados. Técnicas como Reinforcement
Learning from Human Feedback (Aprendizado por Reforço a partir de
Feedback Humano) e Direct Preference Optimization (Otimização
Direta de Preferência) utilizam avaliações ou preferências humanas para favorecer
respostas consideradas mais adequadas.
“Em termos simplificados, os
modelos aprendem com comparações entre respostas consideradas melhores ou
piores por avaliadores humanos”, explica Anderson Luis Bento Soares,
mestrando no IC-Unicamp. Um possível efeito colateral desse processo é o modelo
aprender a priorizar a concordância ou a satisfação do usuário. “É difícil
separar o que é agradar e o que é dar uma resposta correta”, explica Dias.
Embora técnicas desse tipo
sejam comuns no desenvolvimento de modelos de linguagem, a magnitude do
comportamento camaleônico variou consideravelmente entre os sistemas avaliados.
A equipe da Unicamp chegou a testar uma hipótese para explicar essa diferença:
o tamanho dos modelos. No entanto, os resultados mostraram que esse fator,
sozinho, não é capaz de explicar as diferenças observadas. “Acreditamos que
sejam resultado de um conjunto de fatores; não há uma única causa que explique
por que alguns modelos são mais camaleônicos do que outros”, completa Soares.
Procurados para opinar sobre os
resultados do estudo, representantes da xAI, da Meta, do Google e da OpenAI não
se manifestaram até a publicação desta reportagem.
Sem
solução à vista
Apesar do diagnóstico do
problema, os pesquisadores não acreditam que ele vá ser resolvido em um futuro
próximo. Uma das razões é o fato de que o foco das empresas que produzem essas
ferramentas está na resolução de outros problemas. “Estamos percebendo que a
indústria dedica muito mais atenção à factualidade das respostas do que à sua
adaptação ao posicionamento do usuário. Essa segunda questão ainda não parece
estar entre as principais prioridades, por isso acredito que mudanças
significativas podem demorar”, prevê Dias.
Além disso, também existem
desafios tecnológicos a serem superados. As técnicas utilizadas para preparar
os modelos de linguagem para apresentar respostas factualmente corretas não
necessariamente funcionam para reduzir o comportamento bajulador. “Uma forma de
diminuir o chameleon index seria fazer o grounding,
ou seja, aterrar a resposta em algum dado factual. No entanto, isso é muito
sensível nesse caso, dado que nós estamos tratando de assuntos em que não há
consenso”, explica Soares.
Enquanto não existem soluções
técnicas consolidadas, uma medida prática é o próprio usuário solicitar
respostas mais equilibradas. “Ao usar esses modelos, a pessoa pode pedir
explicitamente que eles apresentem uma análise neutra, com os argumentos a
favor e contra a questão discutida”, recomenda Dias.
O estudo recebeu apoio da
FAPESP por meio de dois projetos (24/12936-5 e 23/12865-8).
O artigo LLMs are
ideological chameleons: personalized echo chambers in the Brazilian political
context pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-026-52105-6.
Sophia La Banca
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/inteligencia-artificial-atua-como-camaleao-ideologico-e-pode-aprofundar-polarizacao-politica-aponta-estudo/58953
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