Inteligência artificial, mudanças climáticas, desinformação e violência contra a mulher estão entre assuntos que podem servir de base para a prova; para Diego Turato, o importante é ampliar o repertório e desenvolver capacidade de argumentação
A
menos de três meses do primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem) 2026, a redação começa a ganhar ainda mais espaço na rotina de
preparação dos estudantes. Inteligência artificial, proteção de crianças e
adolescentes no ambiente digital, mudanças climáticas, inclusão, desinformação,
violência contra a mulher e misoginia estão entre os assuntos que podem servir
de ponto de partida para a prova deste ano.
Professor,
historiador e escritor santista Diego Turato, coordenador do cursinho
preparatório para o Enem da E.E. Primo Ferreira, em Santos (SP), avalia que a
proximidade do exame é um bom momento para ampliar o contato com temas sociais
contemporâneos, mas alerta que a preparação não deve se transformar em uma
tentativa de prever qual será a proposta escolhida pelo Inep.
“Não
existe fórmula para adivinhar o tema da redação. O melhor caminho é compreender
as grandes discussões da sociedade brasileira e aprender a relacioná-las com
conhecimentos históricos, sociais e culturais. Quando o estudante constrói
repertório, consegue argumentar mesmo diante de um assunto que não estava entre
suas apostas”, afirma Turato.
Entre
os temas que estão no radar dos educadores está a relação de crianças e
adolescentes com as redes sociais e outras plataformas digitais. A discussão
permite abordar questões como exposição a conteúdos inadequados, cyberbullying,
uso excessivo das plataformas, proteção de dados e as responsabilidades de
famílias, escolas, Estado e empresas de tecnologia.
Outro
assunto com potencial para diferentes recortes é a inteligência artificial.
Presente cada vez mais no cotidiano, a tecnologia abre espaço para debates
relacionados à educação, ao mercado de trabalho, à produção de conteúdos
falsos, aos vieses dos algoritmos, à proteção de dados e à desinformação.
“A
inteligência artificial é um ótimo exemplo de tema que não deve ser estudado apenas
pelo aspecto tecnológico. Ela envolve educação, ética, trabalho, desigualdade,
informação e cidadania. É justamente essa capacidade de enxergar diferentes
dimensões de um problema que ajuda na construção de uma redação consistente”,
explica Turato.
As
questões ambientais também permanecem entre os assuntos relevantes. Eventos
climáticos extremos, desmatamento, adaptação das cidades, prevenção de
desastres e os impactos dessas ocorrências sobre as populações mais vulneráveis
possibilitam discussões sobre políticas públicas, planejamento urbano,
responsabilidade coletiva e justiça climática.
A
lista de possibilidades inclui ainda a inclusão de pessoas neurodivergentes, os
impactos da poluição por microplásticos sobre a biodiversidade e a saúde
humana, a importância social do esporte e a confiança na ciência e nas
instituições de saúde diante da disseminação de informações falsas.
Para
Turato, acompanhar o noticiário é uma das formas mais eficientes de preparação
nesta reta final. Mas o estudante deve ir além da simples memorização de dados
e exemplos.
“Repertório
não é decorar uma frase famosa para encaixar na redação. É conseguir
compreender um problema, estabelecer relações e defender uma ideia de maneira
coerente. Notícias, livros, filmes, acontecimentos históricos e conhecimentos
adquiridos em outras disciplinas podem fornecer elementos para essa
construção”, afirma.
Tema
inesperado não precisa ser motivo de pânico
A
própria trajetória da redação do Enem demonstra a variedade de assuntos que
podem ser abordados. Nos últimos anos, os candidatos já tiveram de escrever
sobre a valorização da herança africana no Brasil, a invisibilidade do trabalho
de cuidado realizado pelas mulheres, a valorização de comunidades e povos
tradicionais e, em 2025, as perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade
brasileira.
Por
isso, segundo o professor, trabalhar diferentes propostas antes da prova também
é uma maneira de desenvolver flexibilidade argumentativa.
“O
estudante que treina apenas dois ou três temas considerados favoritos corre o
risco de chegar à prova inseguro se encontrar algo diferente. Quem aprende a
interpretar a proposta, organizar uma tese, selecionar argumentos e utilizar
seu repertório tem muito mais condições de enfrentar qualquer tema”, explica.
Na reta
final, a recomendação é combinar a leitura de assuntos atuais com a prática da
escrita. Produzir redações sobre diferentes questões sociais ajuda a
identificar dificuldades, testar repertórios e aprimorar a organização das
ideias.
“O
objetivo não deve ser acertar antecipadamente qual será a pergunta do Enem. A
melhor preparação é chegar à prova sabendo o que fazer diante da pergunta que
vier”, conclui Turato.
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