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| depositphotosSiberianArt Ilustração de tomografia computadorizada de pulmão |
O Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) escolhe o acesso como tema central de suas ações no Agosto Branco 2026 e reúne evidências científicas produzidas ao longo de quase uma década que mostram como desigualdades na prevenção, no diagnóstico e no tratamento ainda comprometem a sobrevida dos brasileiros com câncer de pulmão
O acesso à prevenção,
rastreamento, diagnóstico precoce, testes moleculares, cirurgia, radioterapia e
terapias sistêmicas é o tema central das ações promovidas pelo Grupo
Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) durante o Agosto
Branco 2026, campanha nacional de conscientização sobre o
câncer de pulmão. Neste ano, a entidade escolheu discutir como as desigualdades
existentes ao longo de toda a jornada do paciente continuam sendo um dos
principais obstáculos para reduzir a mortalidade pela doença no Brasil, apesar
dos avanços científicos registrados nas últimas décadas.
O tema ganha relevância diante da dimensão
epidemiológica da doença. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer
(INCA) para o triênio 2026-2028, o Brasil deverá registrar cerca de 35.380
novos casos de câncer de pulmão por ano. A doença é o terceiro
tipo de câncer mais frequente entre os homens e o quarto
entre as mulheres. Dados do Sistema de Informações sobre
Mortalidade (SIM) mostram que, somente em 2025, o câncer de pulmão foi responsável
por 32.113 mortes no país. No mundo, permanece como a
principal causa de morte por câncer, com aproximadamente 1,8 milhão
de óbitos anuais.
Embora o tabagismo continue sendo o principal fator
de risco, reduzir a mortalidade hoje depende de muito mais do que combater o
consumo de cigarros. O avanço da oncologia transformou profundamente a forma de
diagnosticar e tratar o câncer de pulmão, tornando indispensáveis o
rastreamento de pessoas de alto risco, o diagnóstico oportuno, a realização de
testes moleculares capazes de identificar alterações genéticas específicas do
tumor, o encaminhamento rápido para equipes especializadas e o acesso às
diferentes modalidades terapêuticas disponíveis, como cirurgia, radioterapia,
quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo.
Ao mesmo tempo, um conjunto de estudos publicados
por pesquisadores brasileiros ao longo dos últimos anos demonstra que esses
avanços ainda chegam de forma desigual aos pacientes. As barreiras aparecem
desde o acesso à informação e ao diagnóstico precoce até a realização de exames
moleculares, a incorporação de novas tecnologias e a disponibilidade dos
tratamentos mais adequados, especialmente para os usuários do Sistema Único de
Saúde (SUS).
De acordo com o oncologista clínico Vladmir
Cordeiro de Lima, presidente do Grupo Brasileiro de Oncologia
Torácica (GBOT), discutir acesso significa olhar para toda a trajetória do
paciente, e não apenas para a disponibilidade de medicamentos. "A
discussão sobre acesso abrange toda a jornada do paciente. Ela começa pela
educação da população e dos médicos, passa pela prevenção e pelo rastreamento,
pelo diagnóstico precoce e correto, até a definição do tratamento mais adequado
para cada pessoa. Quando qualquer uma dessas etapas falha, o resultado é
comprometido”, afirma.
Acesso à informação: tabagismo
e muito além dele
Embora o controle do tabagismo continue sendo a
medida mais importante para prevenir a doença, especialistas destacam que o
conhecimento científico acumulado nas últimas décadas ampliou significativamente
a compreensão sobre os fatores capazes de influenciar a mortalidade. Além de
fortalecer as políticas de controle do tabaco, é necessário ampliar a
informação sobre outros fatores de risco, como a exposição ocupacional a
agentes carcinogênicos, a poluição atmosférica, o radônio e a fumaça
proveniente da queima de combustíveis utilizados no preparo de alimentos.
Ainda segundo o GBOT, é fundamental garantir que
pessoas com maior risco de desenvolver a doença tenham acesso a programas
estruturados de rastreamento e que pacientes com suspeita clínica consigam
realizar rapidamente exames de imagem, obter confirmação diagnóstica e serem
encaminhados para centros especializados. Esse cenário ganha ainda mais
importância porque o câncer de pulmão costuma permanecer silencioso em suas
fases iniciais.
Em muitos casos, sintomas como tosse persistente,
falta de ar, dor no peito, rouquidão ou perda de peso inexplicada surgem apenas
quando a doença já está localmente avançada ou metastática, reduzindo as
possibilidades de tratamento com intenção curativa. Por isso, ampliar o acesso
ao diagnóstico precoce representa uma das estratégias de maior potencial para
reduzir a mortalidade decorrente da doença.
Acesso ao rastreamento
Embora o diagnóstico precoce seja reconhecido como
uma das estratégias mais eficazes para reduzir a mortalidade por câncer de
pulmão, sua implementação ainda representa um desafio no Brasil. Nos últimos
anos, estudos internacionais demonstraram que o rastreamento com tomografia
computadorizada de baixa dose pode identificar tumores em fases iniciais em
pessoas com alto risco de desenvolver a doença, quando as possibilidades de
tratamento com intenção curativa são significativamente maiores.
De modo geral, são consideradas de alto risco
pessoas com idade entre 50 e 80 anos, que fumam atualmente ou deixaram de fumar
há menos de 15 anos e apresentam carga tabágica de pelo menos 20 maços-ano.
Essa medida corresponde, por exemplo, ao consumo de um maço de cigarros por dia
durante 20 anos ou de dois maços por dia durante dez anos.
A adoção do rastreamento organizado entrou na
agenda da saúde pública brasileira. Em julho deste ano, o Ministério da Saúde
anunciou um projeto-piloto para avaliar a implementação dessa estratégia no
Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa prevê a realização de tomografia
computadorizada de baixa dose em pessoas elegíveis e deverá subsidiar a
construção de uma política pública voltada à detecção precoce da doença.
O GBOT avalia que a medida representa um avanço
importante, mas precisa ser acompanhada pela organização de toda a linha de
cuidado. Segundo a entidade, detectar um tumor precocemente só produz impacto
na mortalidade quando o paciente consegue realizar rapidamente os exames
complementares, obter a confirmação diagnóstica e iniciar o tratamento em tempo
oportuno.
Acesso pós-diagnóstico
Os avanços científicos ampliaram significativamente
as possibilidades de tratamento do câncer de pulmão. Com a incorporação da
medicina de precisão, a escolha da terapia passou a considerar não apenas o
tipo histológico e o estágio da doença, mas também alterações moleculares
presentes no tumor, permitindo uma abordagem mais individualizada para parte
dos pacientes.
Essa estratégia, entretanto, depende do acesso aos
testes moleculares, responsáveis por identificar alterações em genes como EGFR, ALK,
ROS1, BRAF, RET, MET, KRAS e NTRK,
fundamentais para indicar terapias-alvo capazes de atuar especificamente sobre
essas alterações. Para muitos pacientes, esses tratamentos proporcionam maior
controle da doença, melhor qualidade de vida e aumento da sobrevida.
Na prática, diferentes estudos têm documentado
desigualdades no acesso aos testes moleculares e às terapias-alvo entre
pacientes atendidos pelo SUS e pela saúde suplementar. Estudo nacional publicado em junho no JCO Global Oncology revelou que 93,9%
dos médicos da saúde suplementar relataram ter acesso aos testes para
identificação da alteração no gene ALK, percentual que cai para 43,9%
entre os profissionais que atuam no SUS. Entre as principais barreiras estão a
limitação da infraestrutura diagnóstica, a dificuldade de reembolso e, muitas
vezes, a necessidade de iniciar rapidamente o tratamento antes da conclusão da
investigação molecular.
Outro estudo do mesmo grupo mostrou que essas dificuldades vão
além do gene ALK. Muitos oncologistas brasileiros ainda encontram
obstáculos para solicitar o perfil genômico amplo (Comprehensive Genomic
Profiling – CGP), exame que permite identificar simultaneamente
diversas alterações moleculares importantes para a definição do tratamento.
Alto custo, limitações de cobertura pelos sistemas de saúde, dificuldades logísticas
e quantidade insuficiente de material obtido nas biópsias estão entre os
principais entraves relatados.
As consequências dessas barreiras se refletem
diretamente na assistência aos pacientes. Em outro
estudo publicado este ano no JCO Global Oncology, pesquisadores do GBOT compararam o tratamento de pacientes com câncer
de pulmão de não pequenas células com alteração no gene ALK atendidos pelo SUS
e pela saúde suplementar. Enquanto 53,9% dos pacientes da saúde suplementar
receberam terapia-alvo como tratamento de primeira linha, esse percentual foi
de apenas 22,2% entre os usuários do SUS. As diferenças também se refletiram na
sobrevida: após três anos de acompanhamento, 87,2% dos pacientes da saúde
suplementar permaneciam vivos, contra 61,4% daqueles tratados no sistema
público. O estudo mostrou ainda que os usuários do SUS enfrentam intervalos
maiores entre o surgimento dos sintomas, o diagnóstico e o início do tratamento.
Um estudo farmacoeconômico brasileiro, publicado em
2019, chegou à mesma conclusão sob outra perspectiva. A análise estimou que a
falta de acesso a inibidores de tirosina quinase para pacientes com alterações
no gene EGFR resulta em anos de vida potencialmente perdidos e apontou que
ampliar a oferta dessas terapias no SUS poderia trazer benefícios clínicos e
econômicos ao sistema de saúde.
Conforme explica a oncologista clínica Samira
Mascarenhas, primeira autora de um dos estudos e presidente
eleita do GBOT, garantir o acesso aos testes moleculares tornou-se uma etapa
indispensável da assistência ao paciente com câncer de pulmão. "Hoje,
conhecer o perfil molecular do tumor é parte fundamental do tratamento. Sem
esse diagnóstico, muitos pacientes deixam de receber terapias capazes de
proporcionar maior controle da doença, melhor qualidade de vida e aumento da
sobrevida", afirma.
As barreiras persistem em
diferentes fases da doença
As barreiras de acesso também se manifestam em
diferentes fases da doença. Um estudo brasileiro sobre o atraso no início do tratamento identificou intervalos importantes entre o aparecimento dos primeiros
sintomas, a confirmação do diagnóstico e o início da terapia, reforçando a
necessidade de reduzir o tempo de espera ao longo de toda a linha de cuidado.
Essas desigualdades também foram observadas em
pacientes com câncer de pulmão localmente avançado. Um estudo multicêntrico conduzido pelo GBOT e pelo LACOG mostrou que usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentam maior
demora para iniciar o tratamento e apresentam piores resultados quando
comparados aos pacientes da saúde suplementar. Segundo os autores, reduzir
essas diferenças representa uma oportunidade concreta para melhorar os
desfechos do tratamento no país.
As disparidades se repetem ainda entre pacientes
com metástases cerebrais. Um estudo
publicado no JCO Global Oncology verificou que
pacientes atendidos em instituições públicas chegavam ao diagnóstico com doença
mais avançada, apresentavam tumores maiores, realizavam menos exames de
ressonância magnética e tinham acesso mais limitado à radiocirurgia. Como
consequência, o tempo de vida após o diagnóstico foi, em média, cerca de duas
vezes menor entre os pacientes tratados no sistema público do que entre aqueles
atendidos na saúde suplementar.
Os resultados reforçam achados de outras pesquisas
nacionais que também identificaram atrasos entre o aparecimento dos primeiros
sintomas, a confirmação diagnóstica e o início do tratamento, indicando que
reduzir o tempo de espera continua sendo um dos principais desafios para
melhorar o prognóstico dos pacientes brasileiros.
Acesso à inovação
O desenvolvimento de terapias-alvo, imunoterápicos
e outras estratégias da medicina de precisão ampliou significativamente as
possibilidades de tratamento do câncer de pulmão. Entretanto, fazer com que
essas inovações cheguem aos pacientes continua sendo um desafio. Um estudo publicado no Journal of Cancer Policy em junho desse ano mostrou que, entre 2020 e 2024, a agência reguladora
norte-americana (FDA) aprovou 73 novos medicamentos oncológicos, enquanto a
Agência Europeia de Medicamentos (EMA) aprovou 56 e a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa), 18. A análise identificou ainda atraso mediano
de 353 dias nas aprovações brasileiras em relação ao FDA e de 336 dias em
relação à EMA.
As consequências desses atrasos podem ser
mensuradas. Um estudo brasileiro publicado em 2025 estimou que a indisponibilidade
do amivantamabe no SUS pode resultar em mortes
prematuras e perda de anos de vida entre pacientes com câncer de pulmão
elegíveis ao tratamento, evidenciando o impacto que a demora na incorporação de
novas tecnologias pode ter sobre a população. Outro estudo brasileiro sobre o financiamento do tratamento do câncer de
pulmão no SUS mostrou que os valores reembolsados pelo sistema
público para o tratamento da doença avançada não acompanham os custos reais da
assistência. Segundo os autores, essa defasagem compromete a incorporação de
novas tecnologias e representa mais uma barreira para ampliar o acesso dos
pacientes às terapias inovadoras.
Já a análise dos desafios para a implementação da
medicina de precisão no SUS, publicada em 2025, concluiu que superar essas
desigualdades requer mais do que apenas a aprovação de novos medicamentos. Os
autores defendem o fortalecimento da infraestrutura de diagnóstico molecular, a
ampliação da disponibilidade de laboratórios especializados, a organização dos
fluxos assistenciais e a aceleração da incorporação de tecnologias ao sistema
público.
https://www.gbot.med.br/
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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