Especialista alerta que o verdadeiro impacto do excesso de telas está no cansaço visual, no ressecamento dos olhos e no aumento da miopia infantil
Quem
nunca ouviu que usar celular no escuro "estraga a visão" ou que as
lentes com filtro de luz azul são indispensáveis para proteger os olhos? Apesar
de amplamente difundidas, essas afirmações não encontram respaldo nas
evidências científicas atuais.
Segundo
o oftalmologista Dr. Rodrigo Carvalho, da clínica Alpha Oftalmologia Avançada,
boa parte das preocupações relacionadas à luz azul emitida por celulares,
computadores e tablets surgiu a partir de estudos laboratoriais realizados em
condições muito diferentes da exposição cotidiana.
"O
debate sobre a luz azul acabou desviando a atenção do que realmente
importa", enfatiza o médico. "Hoje sabemos que o maior impacto do uso
excessivo de telas está relacionado ao cansaço visual, ao ressecamento dos
olhos, às alterações do sono quando usamos dispositivos próximo ao horário de
dormir e, nas crianças, ao aumento da miopia associado ao excesso de atividades
de perto e à pouca exposição à luz natural", observa.
A
luz azul faz parte da luz visível e está presente naturalmente na luz solar,
principal fonte de exposição. Embora também seja emitida por celulares,
computadores, tablets, televisores e lâmpadas de LED, a intensidade proveniente
desses equipamentos é muito inferior à recebida durante atividades ao ar livre.
Dr.
Rodrigo ressalta que, até o momento, não existem evidências científicas
consistentes de que a luz azul emitida pelas telas provoque danos permanentes à
retina, aumente o risco de cegueira ou cause doenças como degeneração macular e
catarata.
"Grande parte das preocupações surgiu de experimentos que utilizaram intensidades de luz muito superiores às encontradas no uso normal de dispositivos eletrônicos. Esses resultados não podem ser extrapolados diretamente para a vida real", afirma.ro azul não é proteção obrigatória
Outra crença bastante comum envolve os óculos com filtro de luz azul. Comercializados como uma forma de proteger os olhos, eles não demonstraram eficácia na prevenção de doenças oculares.
O Dr. Rodrigo esclarece que a literatura científica mostra que algumas pessoas podem perceber uma sensação subjetiva de conforto durante longos períodos em frente ao computador: “Mas isso é diferente de afirmar que o filtro protege a retina ou previne doenças. Essa associação não está comprovada".
Se
a luz azul não representa o principal risco, o comportamento diante dos
dispositivos merece atenção. O médico salienta que durante atividades
prolongadas em frente ao computador ou celular, a frequência das piscadas
diminui cerca de 50%, favorecendo a evaporação da lágrima e provocando sintomas
como olhos secos, ardor, vermelhidão, visão embaçada temporária, dor de cabeça
e sensação de peso nos olhos. Além disso, manter o foco continuamente em
objetos próximos exige esforço constante da musculatura ocular.
Para
reduzir esses sintomas, o oftalmologista recomenda medidas simples e
respaldadas pela ciência, como realizar pausas frequentes — seguindo a regra
20-20-20 (a cada 20 minutos, olhar por 20 segundos para um objeto a
aproximadamente seis metros de distância (ou seja, 20 pés) —, lembrar de piscar
conscientemente, manter boa iluminação no ambiente, ajustar ergonomicamente a
estação de trabalho e utilizar a correção adequada dos óculos quando
necessária. "Essas medidas possuem muito mais respaldo científico do que o
uso rotineiro dos filtros de luz azul", argumenta.
Crianças merecem atenção especial
O
oftalmologista destaca que o grupo que mais preocupa atualmente são as crianças
e adolescentes. Diferentemente do que muitos imaginam, o maior fator associado
ao aumento da miopia não é a luz azul, mas o excesso de atividades de perto
combinado à redução do tempo ao ar livre.
Por
isso, os pais devem estimular pausas durante o uso das telas, limitar o tempo
de exposição conforme a idade, incentivar brincadeiras em ambientes externos e
garantir boa iluminação durante as atividades.
Atente-se aos sinais
Embora
o desconforto visual provocado pelas telas costume melhorar com descanso,
alguns sinais exigem avaliação médica.
Dr.
Rodrigo Carvalho salienta que sintomas persistentes, queda da visão, dor ocular
intensa, visão dupla, flashes luminosos, aumento importante de moscas volantes,
vermelhidão contínua e dores de cabeça frequentes associadas ao esforço visual
podem indicar doenças que não têm relação direta com o uso de dispositivos
eletrônicos.
"A
tecnologia faz parte da nossa rotina e não precisa ser encarada como inimiga. A
mensagem mais importante é utilizá-la com equilíbrio, adotar hábitos saudáveis
e manter consultas oftalmológicas periódicas. É isso que realmente contribui
para preservar a saúde ocular", conclui.
Rodrigo T. de Campos Carvalho (CRM-SP107.838, RQE 37070) - médico formado pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp, com residência em Oftalmologia pela Unicamp. Possui título de especialista pelo CNRM/MEC e pela Associação Médica Brasileira/Conselho Brasileiro de Oftalmologia, além de especialização em cirurgia refrativa pela USP. Atua há mais de duas décadas na área, com experiência clínica e cirúrgica, e é proprietário da Alpha Oftalmologia Avançada, em Campinas. Também desenvolve doutorado na área de cirurgia refrativa pela USP.
Alpha Oftalmologia Avançada
@dr_rodrigotccarvalho e site
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