Em alusão à campanha Julho Verde, especialista explica quando é
necessário procurar ajuda
Segundo a International Agency for Research on Cancer
(IARC) e a World Health Organization (WHO), os cânceres de cabeça e
pescoço continuam entre os tumores cuja incidência preocupa globalmente. O
grupo engloba tumores que podem surgir na boca, garganta, laringe, nariz,
glândulas salivares e tireoide. Entre os principais fatores associados ao
aumento da doença, estão a persistência do tabagismo e do consumo excessivo de
álcool; o crescimento dos tumores relacionados ao HPV, especialmente os de
orofaringe, que têm acometido adultos cada vez mais jovens, além do
envelhecimento da população.
No Brasil, o cenário também exige atenção. Dados do Instituto
Nacional de Câncer (INCA) apontam que o país registra cerca de 39,5 mil novos
casos de cânceres de cabeça e pescoço por ano. Apesar dos avanços no
tratamento, o diagnóstico ainda costuma ocorrer tardiamente, com
aproximadamente oito em cada dez pacientes descobrindo a doença em estágio
avançado. Entre os casos analisados pelo estudo do Instituto, 78,2% foram
diagnosticados nos estágios III ou IV.
Para o Dr. Alexandre Martins, médico otorrinolaringologista e
professor na Afya Centro Universitário Itaperuna, um dos principais desafios é
justamente o fato de que muitos pacientes demoram a procurar atendimento por
acreditarem que os sintomas são passageiros.
"Rouquidão que passa de duas semanas nunca deve ser encarada
como algo sem importância. É o sintoma que mais vejo sendo ignorado no
consultório. Junto dela, outros sinais merecem atenção, como dor de garganta
persistente, dificuldade para engolir, ferida na boca que não cicatriza e
caroço no pescoço que não dói. Justamente por não causar dor, esse nódulo
costuma passar despercebido. Minha regra é direta: sintoma que insiste por mais
de duas semanas merece uma consulta", alerta.
O especialista explica que o câncer de cabeça e pescoço não corresponde
a uma única doença, mas sim a um conjunto de tumores que afetam diferentes
regiões do organismo. "Historicamente, a maior parte desses cânceres
surgiu após anos de agressão provocada pelo cigarro e pelo álcool. Mas hoje
observamos um novo perfil de pacientes, com crescimento dos tumores de
orofaringe relacionados ao HPV, atingindo pessoas mais jovens e, muitas vezes,
sem histórico de tabagismo", destaca.
Embora a confirmação do diagnóstico dependa de exames específicos,
a investigação costuma começar de forma simples e pode ser realizada ainda no
consultório médico. "O exame clínico, associado à palpação do pescoço e à
nasofibrolaringoscopia, permite identificar alterações suspeitas em poucos
minutos e sem dor. Quando necessário, a biópsia confirma o diagnóstico,
enquanto exames de imagem ajudam a avaliar a extensão da doença", explica
o médico.
Segundo o Dr. Alexandre, identificar o tumor precocemente faz toda
a diferença no prognóstico do paciente. "O diagnóstico precoce compra
tempo. Quando o câncer de cabeça e pescoço é descoberto nas fases iniciais, as
chances de cura podem chegar a 90%. Já nos casos avançados, o tratamento
costuma ser mais agressivo e o prognóstico piora consideravelmente."
Prevenção
ainda é a principal aliada
O especialista da Afya reforça que grande parte dos casos pode ser
evitada com mudanças de hábitos. Abandonar o cigarro continua sendo a medida
mais importante para reduzir o risco da doença, seguido da redução do consumo
de bebidas alcoólicas. Quando esses dois fatores estão associados, o perigo é
ainda maior. "Se existisse um único conselho, seria: não fume. O tabagismo
é o fator de risco mais determinante para esse grupo de cânceres. O álcool em
excesso vem logo atrás, e a combinação dos dois multiplica o risco, não apenas
soma", afirma o otorrinolaringologista.
Além disso, manter uma boa higiene bucal, adotar uma alimentação
rica em frutas e vegetais, utilizar proteção labial contra a exposição solar e
manter a vacinação contra o HPV em dia são medidas que contribuem para a prevenção.
Para o docente, porém, existe um comportamento que pode salvar
vidas: não ignorar os sinais do próprio corpo. "O hábito que mais protege,
na prática, é não empurrar com a barriga um sintoma que insiste em ficar.
Quanto mais cedo o paciente procura avaliação médica, maiores são as
possibilidades de um tratamento menos agressivo e de uma cura
bem-sucedida", conclui.
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