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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Câncer de cabeça e pescoço: 80% dos diagnósticos no Brasil ocorrem já em fase avançada; sintomas discretos atrasam procura por atendimento médico

Em alusão à campanha Julho Verde, especialista explica quando é necessário procurar ajuda


Segundo a International Agency for Research on Cancer (IARC) e a World Health Organization (WHO), os cânceres de cabeça e pescoço continuam entre os tumores cuja incidência preocupa globalmente. O grupo engloba tumores que podem surgir na boca, garganta, laringe, nariz, glândulas salivares e tireoide. Entre os principais fatores associados ao aumento da doença, estão a persistência do tabagismo e do consumo excessivo de álcool; o crescimento dos tumores relacionados ao HPV, especialmente os de orofaringe, que têm acometido adultos cada vez mais jovens, além do envelhecimento da população.

No Brasil, o cenário também exige atenção. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que o país registra cerca de 39,5 mil novos casos de cânceres de cabeça e pescoço por ano. Apesar dos avanços no tratamento, o diagnóstico ainda costuma ocorrer tardiamente, com aproximadamente oito em cada dez pacientes descobrindo a doença em estágio avançado. Entre os casos analisados pelo estudo do Instituto, 78,2% foram diagnosticados nos estágios III ou IV.

Para o Dr. Alexandre Martins, médico otorrinolaringologista e professor na Afya Centro Universitário Itaperuna, um dos principais desafios é justamente o fato de que muitos pacientes demoram a procurar atendimento por acreditarem que os sintomas são passageiros.

"Rouquidão que passa de duas semanas nunca deve ser encarada como algo sem importância. É o sintoma que mais vejo sendo ignorado no consultório. Junto dela, outros sinais merecem atenção, como dor de garganta persistente, dificuldade para engolir, ferida na boca que não cicatriza e caroço no pescoço que não dói. Justamente por não causar dor, esse nódulo costuma passar despercebido. Minha regra é direta: sintoma que insiste por mais de duas semanas merece uma consulta", alerta.

O especialista explica que o câncer de cabeça e pescoço não corresponde a uma única doença, mas sim a um conjunto de tumores que afetam diferentes regiões do organismo. "Historicamente, a maior parte desses cânceres surgiu após anos de agressão provocada pelo cigarro e pelo álcool. Mas hoje observamos um novo perfil de pacientes, com crescimento dos tumores de orofaringe relacionados ao HPV, atingindo pessoas mais jovens e, muitas vezes, sem histórico de tabagismo", destaca.

Embora a confirmação do diagnóstico dependa de exames específicos, a investigação costuma começar de forma simples e pode ser realizada ainda no consultório médico. "O exame clínico, associado à palpação do pescoço e à nasofibrolaringoscopia, permite identificar alterações suspeitas em poucos minutos e sem dor. Quando necessário, a biópsia confirma o diagnóstico, enquanto exames de imagem ajudam a avaliar a extensão da doença", explica o médico.

Segundo o Dr. Alexandre, identificar o tumor precocemente faz toda a diferença no prognóstico do paciente. "O diagnóstico precoce compra tempo. Quando o câncer de cabeça e pescoço é descoberto nas fases iniciais, as chances de cura podem chegar a 90%. Já nos casos avançados, o tratamento costuma ser mais agressivo e o prognóstico piora consideravelmente."


Prevenção ainda é a principal aliada

O especialista da Afya reforça que grande parte dos casos pode ser evitada com mudanças de hábitos. Abandonar o cigarro continua sendo a medida mais importante para reduzir o risco da doença, seguido da redução do consumo de bebidas alcoólicas. Quando esses dois fatores estão associados, o perigo é ainda maior. "Se existisse um único conselho, seria: não fume. O tabagismo é o fator de risco mais determinante para esse grupo de cânceres. O álcool em excesso vem logo atrás, e a combinação dos dois multiplica o risco, não apenas soma", afirma o otorrinolaringologista.

Além disso, manter uma boa higiene bucal, adotar uma alimentação rica em frutas e vegetais, utilizar proteção labial contra a exposição solar e manter a vacinação contra o HPV em dia são medidas que contribuem para a prevenção.

Para o docente, porém, existe um comportamento que pode salvar vidas: não ignorar os sinais do próprio corpo. "O hábito que mais protege, na prática, é não empurrar com a barriga um sintoma que insiste em ficar. Quanto mais cedo o paciente procura avaliação médica, maiores são as possibilidades de um tratamento menos agressivo e de uma cura bem-sucedida", conclui.

 

Afya
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