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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Pesquisadores da FMUSP validam teste rápido de baixo custo que identifica "superbactérias" em poucas horas e otimiza isolamento em UTIs

Conjunto de estudos demonstra como inovação reduz tempo de diagnóstico laboratorial em até 60 horas


Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) desenvolveram e validaram uma estratégia inovadora e de baixo custo capaz de detectar a presença de "superbactérias" no intestino de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).

A abordagem utiliza um teste rápido semelhante aos testes de farmácia (como os de Covid-19 ou gravidez), chamado teste imunocromatográfico (ICT). Os resultados mostram que a nova técnica consegue identificar os pacientes carregando esses microrganismos em apenas seis horas, reduzindo o tempo de diagnóstico tradicional em até 60 horas e gerando grande economia aos cofres públicos. 


Superbactérias

As chamadas Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos (ERC) são classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das ameaças globais mais críticas à saúde humana. Trata-se de bactérias intestinais comuns que desenvolveram resistência aos antibióticos mais potentes do mercado (os carbapenêmicos), principalmente pela produção de enzimas destruidoras de remédios (as carbapenemases). No Brasil, infecções generalizadas (sepse) causadas por ERC chegam a registrar uma taxa de mortalidade de até 63,8%.

Muitos pacientes carregam essas bactérias no intestino sem apresentar nenhum sintoma – o que a medicina chama de "colonização". No entanto, eles podem transmiti-las silenciosamente para outros pacientes vulneráveis dentro do ambiente hospitalar ou desenvolver infecções graves posteriormente. Por isso, os hospitais realizam exames de triagem na admissão das UTIs.


Método convencional

O grande problema atual é que o método convencional, baseado no cultivo das bactérias em laboratório (cultura), demora de dois a três dias para liberar o resultado. Enquanto esperam, os pacientes precisam ficar em isolamento preventivo individual, utilizando aventais e luvas descartáveis para evitar o contágio. Isso gera um desperdício massivo de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), sobrecarrega as equipes de enfermagem e estressa o paciente isolado sem real necessidade. Testes genéticos moleculares (como o PCR) são rápidos e precisos, mas são caros e exigem equipamentos complexos, o que os torna inviáveis para a maioria dos hospitais públicos.

Para resolver esse impasse, o grupo de pesquisadores validou e aplicou uma rotina na qual a amostra do paciente (coletada via swab retal) é colocada em um caldo nutritivo por apenas seis horas e depois aplicada diretamente no teste rápido.

Teste rápido

Segundo o professor colaborador da FMUSP Matias Chiarastelli Salomão, um dos autores dos estudos, o teste rápido validado pelo grupo funciona como uma ferramenta democrática de controle de infecção. "Ele oferece a velocidade de um teste molecular caro, mas por uma fração do preço e sem necessidade de máquinas complexas. Isso abre as portas para que qualquer hospital público ou laboratório com recursos limitados no Brasil e no mundo consiga identificar pacientes portadores de forma precoce, economize recursos retirando isolamentos desnecessários e proteja os pacientes internados", afirma.

Embora o teste rápido melhore o fluxo dos hospitais e reduza gastos com isolamentos desnecessários, os pesquisadores alertam que o controle definitivo dessas superbactérias em ambientes de alta prevalência exige um cuidado contínuo que vai além do isolamento. Medidas como o uso correto e controlado de antibióticos por parte dos médicos e os cuidados rígidos com a higiene são fundamentais para conter o avanço do problema.

Os estudos foram publicados nos periódicos científicos Journal of Hospital Infection, Microbiology Spectrum e Brazilian Journal of Infectious Diseases.

Os artigos completos estão disponíveis em: 

1. Admission status is not destiny: serial surveillance reveals ecologic and in-hospital drivers of carbapenem-resistant Enterobacterales colonization in critical care

2. Impact of rapid carbapenemase detection using immunochromatographic testing and polymerase chain reaction on carbapenem-resistant enterobacterales acquisition and infection control in two intensive care unit

3. Rapid screening for carbapenemase-producing carbapenem-resistant Enterobacterales: clinical implementation of an immunochromatographic test using broth-enriched rectal swabs

4. Validation of immunochromatographic test in broth-enriched rectal swab specimens


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