Conjunto de estudos demonstra como
inovação reduz tempo de diagnóstico laboratorial em até 60 horas
Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e
do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) desenvolveram e validaram uma
estratégia inovadora e de baixo custo capaz de detectar a presença de
"superbactérias" no intestino de pacientes internados em Unidades de
Terapia Intensiva (UTIs).
A abordagem utiliza um teste rápido semelhante aos testes de farmácia (como os
de Covid-19 ou gravidez), chamado teste imunocromatográfico (ICT). Os
resultados mostram que a nova técnica consegue identificar os pacientes
carregando esses microrganismos em apenas seis horas, reduzindo o tempo de
diagnóstico tradicional em até 60 horas e gerando grande economia aos cofres
públicos.
Superbactérias
As chamadas Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos (ERC) são
classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das ameaças
globais mais críticas à saúde humana. Trata-se de bactérias intestinais comuns
que desenvolveram resistência aos antibióticos mais potentes do mercado (os
carbapenêmicos), principalmente pela produção de enzimas destruidoras de
remédios (as carbapenemases). No Brasil, infecções generalizadas (sepse)
causadas por ERC chegam a registrar uma taxa de mortalidade de até 63,8%.
Muitos pacientes carregam essas bactérias no intestino sem apresentar nenhum
sintoma – o que a medicina chama de "colonização". No entanto, eles
podem transmiti-las silenciosamente para outros pacientes vulneráveis dentro do
ambiente hospitalar ou desenvolver infecções graves posteriormente. Por isso,
os hospitais realizam exames de triagem na admissão das UTIs.
Método convencional
O grande problema atual é que o método convencional, baseado no cultivo das
bactérias em laboratório (cultura), demora de dois a três dias para liberar o
resultado. Enquanto esperam, os pacientes precisam ficar em isolamento
preventivo individual, utilizando aventais e luvas descartáveis para evitar o
contágio. Isso gera um desperdício massivo de Equipamentos de Proteção
Individual (EPIs), sobrecarrega as equipes de enfermagem e estressa o paciente
isolado sem real necessidade. Testes genéticos moleculares (como o PCR) são
rápidos e precisos, mas são caros e exigem equipamentos complexos, o que os
torna inviáveis para a maioria dos hospitais públicos.
Para resolver esse impasse, o grupo de pesquisadores validou e aplicou uma
rotina na qual a amostra do paciente (coletada via swab retal) é colocada em um
caldo nutritivo por apenas seis horas e depois aplicada diretamente no teste
rápido.
Teste rápido
Segundo o professor colaborador da FMUSP Matias Chiarastelli Salomão, um dos
autores dos estudos, o teste rápido validado pelo grupo funciona como uma
ferramenta democrática de controle de infecção. "Ele oferece a velocidade
de um teste molecular caro, mas por uma fração do preço e sem necessidade de
máquinas complexas. Isso abre as portas para que qualquer hospital público ou
laboratório com recursos limitados no Brasil e no mundo consiga identificar
pacientes portadores de forma precoce, economize recursos retirando isolamentos
desnecessários e proteja os pacientes internados", afirma.
Embora o teste rápido melhore o fluxo dos hospitais e reduza gastos com
isolamentos desnecessários, os pesquisadores alertam que o controle definitivo
dessas superbactérias em ambientes de alta prevalência exige um cuidado
contínuo que vai além do isolamento. Medidas como o uso correto e controlado de
antibióticos por parte dos médicos e os cuidados rígidos com a higiene são
fundamentais para conter o avanço do problema.
Os estudos foram publicados nos periódicos científicos Journal of Hospital
Infection, Microbiology Spectrum e Brazilian Journal of Infectious Diseases.
Os artigos completos estão disponíveis em:
4. Validation of immunochromatographic test in
broth-enriched rectal swab specimens
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