Pesquisa identifica associação entre sexo, peso ao
nascer e idade paterna com o desenvolvimento precoce do tumor, mas
especialistas ressaltam que hábitos de vida continuam sendo determinantes
O aumento dos
casos de câncer colorretal em pessoas jovens tem mobilizado pesquisadores no
mundo todo. Enquanto a incidência do câncer colorretal vem diminuindo entre
pessoas acima dos 50 anos, os diagnósticos em adultos jovens seguem em
crescimento nas últimas duas décadas, um fenômeno que ainda desafia
pesquisadores e especialistas.
Agora, um estudo publicado na revista científica Cancer amplia esse debate ao sugerir que fatores
presentes ainda no nascimento, e até características dos pais, podem exercer
influência sobre o risco de desenvolver câncer colorretal antes dos 40 anos. A
pesquisa identificou associações entre sexo masculino, etnia hispânica, maior
peso ao nascer em mulheres e idade paterna acima de 35 anos com maior risco da
doença de início precoce.
Embora os
resultados tragam novas pistas sobre a origem desse tipo de câncer, os próprios
autores reforçam que os mecanismos ainda precisam ser confirmados por novas
pesquisas e que esses fatores não determinam, isoladamente, quem desenvolverá a
doença.
No Brasil, o tema
ganha relevância. Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimam
cerca de 53.810 novos casos de câncer colorretal por ano entre 2026 e 2028. O
tumor já ocupa a segunda posição entre os cânceres mais frequentes em homens e
mulheres, desconsiderando os tumores de pele não melanoma.
Segundo o
oncologista Alexandre Jácome, líder nacional da especialidade de tumores
gastrointestinais da Oncoclínicas, entender por que o câncer colorretal está
aparecendo cada vez mais cedo é uma das principais prioridades da oncologia
atualmente.
"Nos últimos
anos, temos observado um aumento consistente dos casos em adultos jovens,
inclusive em pessoas sem histórico familiar conhecido. Isso mostra que ainda
existem fatores envolvidos no desenvolvimento da doença que precisam ser melhor
compreendidos. Estudos como este são importantes justamente porque ampliam
nossa visão sobre possíveis influências que começam muito antes da vida
adulta."
O que o
estudo encontrou?
Os pesquisadores
da Yale School of Public Health analisaram registros de nascimento e
informações de saúde de mais de 62 mil pessoas nascidas na Califórnia,
incluindo 1.221 pacientes diagnosticados com câncer colorretal antes dos 40
anos. Cada caso foi comparado com 50 pessoas da mesma idade que não
desenvolveram câncer.
Após ajustar
diversos fatores demográficos, características do nascimento e informações dos
pais, algumas associações permaneceram significativas. Entre elas:
- homens
apresentaram 34% mais risco de desenvolver
câncer colorretal precoce em comparação às mulheres;
- indivíduos
de origem hispânica tiveram 34% mais risco que pessoas
brancas não hispânicas;
- entre
as mulheres, cada aumento de 500 gramas no peso ao nascer esteve associado
a um aumento de aproximadamente 10% no risco;
- mulheres
cujos pais tinham 35 anos ou mais no momento da
concepção apresentaram maior risco de desenvolver a doença;
- filhos
de mães nascidas fora dos Estados Unidos apresentaram risco menor,
especialmente entre os homens.
Os autores
destacam que vários desses resultados apareceram apenas em análises de
subgrupos e ainda precisam ser reproduzidos em outras populações antes que
possam ser considerados fatores de risco estabelecidos.
Isso
significa que o câncer começa antes mesmo do nascimento?
Não exatamente. De
acordo com Alexandre Jácome, o estudo reforça um conceito que vem ganhando
força na medicina: a saúde ao longo da vida pode ser influenciada por eventos
muito precoces, inclusive durante a gestação.
"Cada vez
mais entendemos que algumas características do ambiente intrauterino e do
desenvolvimento fetal podem influenciar o funcionamento do organismo décadas
depois. Isso não significa que alguém esteja 'predestinado' a desenvolver
câncer por causa do peso ao nascer ou da idade do pai, mas sim que esses
fatores podem interagir com aspectos genéticos, ambientais e comportamentais ao
longo da vida."
Segundo ele, esses
achados devem ser vistos como hipóteses biológicas que ajudam a compreender por
que alguns indivíduos desenvolvem a doença mais cedo, e não como fatores que
possam ser utilizados para prever quem terá câncer.
Por que
homens parecem apresentar maior risco?
Essa hipótese não
surgiu agora. Estudos publicados nos últimos anos vêm sugerindo que diferenças
hormonais podem influenciar o desenvolvimento do câncer colorretal. Em 2015,
uma pesquisa publicada no Journal of the National Cancer Institute
observou uma associação entre maiores níveis de estrogênio e menor risco da
doença em mulheres na pós-menopausa. Já um estudo publicado em 2013 na revista Clinical
Gastroenterology and Hepatology encontrou uma relação entre níveis mais
elevados de testosterona livre e maior risco de câncer colorretal. Mais
recentemente, uma revisão publicada em 2024 na revista Cell Communication
and Signaling destacou que diferenças na microbiota intestinal entre homens
e mulheres também podem contribuir para explicar essas variações de risco.
Para o
especialista, entretanto, essas diferenças biológicas provavelmente representam
apenas uma parte da explicação. "Quando falamos em câncer colorretal de
início precoce, provavelmente não existe uma única causa. O mais provável é que
fatores genéticos, alterações hormonais, estilo de vida, alimentação,
obesidade, sedentarismo e características do microbioma atuem em
conjunto."
Contudo, uma das
maiores preocupações é que adultos jovens frequentemente demoram a procurar
atendimento, seja por acreditarem que são "novos demais" para
desenvolver câncer, seja porque os sintomas costumam ser inicialmente
atribuídos a problemas benignos.
Segundo o
oncologista, nenhum sinal persistente deve ser ignorado. "Sangue nas
fezes, alteração do hábito intestinal por várias semanas, dor abdominal
persistente, perda de peso sem explicação e anemia são sintomas que merecem
investigação, independentemente da idade. O diagnóstico precoce continua sendo
uma das principais formas de aumentar as chances de cura."
Estudo não
muda recomendações atuais
Apesar dos
resultados, os pesquisadores enfatizam que o trabalho possui limitações
importantes. A análise incluiu apenas pessoas diagnosticadas antes dos 40 anos,
enquanto muitos casos classificados como câncer colorretal de início precoce
ocorrem entre 40 e 49 anos. Além disso, fatores importantes, como obesidade
materna, histórico familiar e predisposição genética, não puderam ser
completamente avaliados.
Para Alexandre
Jácome, o estudo deve ser interpretado como mais uma peça de um quebra-cabeça
que ainda está longe de ser concluído. "Ainda não há qualquer recomendação
para modificar estratégias de rastreamento com base nessas características de
nascimento. O principal recado continua sendo investir na prevenção, manter
hábitos saudáveis, conhecer o histórico familiar e procurar avaliação médica
diante de sintomas persistentes. Ao mesmo tempo, pesquisas como esta ajudam a
entender melhor a origem do câncer colorretal em adultos jovens e podem
orientar futuras estratégias de prevenção”, finaliza.
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