Com o Brasil avançando para a segunda fase da Copa de 2026, o psiquiatra Dr. Guido Boabaid May propõe um olhar clínico e humano sobre a obrigação por performar, no esporte, no trabalho e na vida
A busca do Brasil pelo hexa reacendeu não apenas a
esperança coletiva, mas também uma velha emoção nacional, a pressão de
transformar sonho em obrigação. Para o médico psiquiatra Dr. Guido
Boabaid May, nome à frente da GnTech empresa
de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil, os primeiros
jogos ajudam a ilustrar um fenômeno emocional que vai muito além do futebol,
quando a motivação perde leveza e vira cobrança, a ansiedade pode deixar de
impulsionar e passar a paralisar.
“O hexa, para o torcedor, é um sonho, mas, quando o sonho vira
obrigação absoluta, ele pode pesar mais do que mover. Na clínica, vemos isso
com frequência, as pessoas que desejam muito alguma coisa e, justamente por
isso, passam a funcionar pior diante da própria meta. Não é falta de capacidade;
muitas vezes é excesso de pressão”, afirma o Dr. A literatura em psicologia
descreve esse processo em termos como ansiedade de desempenho, medo de falhar e
queda de performance sob pressão.
De forma informal, Dr. Guido chama esse estado de “síndrome do hexa”, quando a pessoa deixa de se mover por desejo, propósito ou prazer de construir algo, e passa a agir sob ameaça interna, medo de decepcionar e autocrítica constante. Embora não seja um diagnóstico médico formal, a expressão traduz um padrão psíquico real, visto em atletas, profissionais, estudantes e pacientes que sentem que “precisam vencer” antes mesmo de conseguir respirar, pensar e executar.
Dessa forma, o psiquiatra trouxe alguns sinais e
soluções dos sonhos que possam ter virado uma ansiedade paralisante. Confira a
seguir:
1. Pensar mais em não falhar do que em fazer bem
Em vez de focar na execução, a mente passa a girar em
torno das consequências negativas, do julgamento, vergonha, fracasso ou medo de
errar. Esse padrão pode comprometer a atenção e reduzir a eficiência cognitiva
sob pressão. “O primeiro passo é recolocar o objetivo no tamanho humano. Em vez
de viver sob a tirania do ‘tenho que conseguir’, vale retomar perguntas mais
reguladoras: ‘Qual é o próximo passo possível?’, ‘O que depende de mim hoje?’,
‘O que eu estou tentando provar, e para quem?’”, orienta Dr. Guido.
2. O corpo entra em alerta antes mesmo de começar
Inquietação, tensão muscular, irritabilidade,
dificuldade de concentração e alterações no sono são sinais de que a ansiedade
deixou de ser funcional e começou a afetar o desempenho e o bem-estar. “Também
é importante buscar ajuda quando a ansiedade interfere no sono, no trabalho,
nos vínculos, na rotina ou na capacidade de decidir”, alerta o especialista.
3. O prazer desaparece e sobra só a obrigação
Quando a motivação passa a ser movida apenas por
culpa, cobrança externa ou sensação de dever absoluto, a experiência perde
leveza e se torna emocionalmente desgastante. “Estudos sobre ansiedade, metas
terapêuticas e motivação mostram que objetivos mais manejáveis, com senso de
autonomia e progressão concreta, tendem a ser mais sustentáveis do que metas
vividas como ameaça à identidade”, explica o psiquiatra.
4. Travar em tarefas que sabe fazer
A pressão excessiva pode desorganizar justamente
desempenhos que antes eram naturais, fenômeno conhecido como choking under
pressure, quando o peso do resultado paralisa a execução. “Evidências e
diretrizes clínicas reconhecem que intervenções psicológicas são fundamentais
no tratamento dos transtornos de ansiedade, com destaque para abordagens como
terapia cognitivo-comportamental”, pontua.
5. Começar a evitar, adiar ou se sabotar
Procrastinação, fuga e autossabotagem costumam
aparecer quando o sonho deixa de ser uma direção e passa a funcionar como uma
cobrança interna constante. “Para pessoas que já estão em tratamento
medicamentoso para transtorno de ansiedade, especialmente quando houve efeitos
adversos, resposta insuficiente ou uma sequência frustrante de tentativas, uma
possibilidade complementar é discutir com o psiquiatra o uso de teste
farmacogenético. Esse recurso não diagnostica ansiedade, não substitui
avaliação clínica e não resolve sozinho o sofrimento psíquico, mas pode ajudar
a orientar escolha e ajuste de dose dos principais medicamentos para tratamento
psiquiátrico e neurológico”, acrescenta Boabaid.
Dr. Guido ainda reforça a importância de não transformar metas e sonhos em uma fonte constante de sofrimento emocional. “Nem todo sonho precisa virar peso. O melhor desempenho humano, no esporte, no trabalho e na vida, costuma aparecer quando existe compromisso, preparo e sentido, mas sem que a pessoa precise carregar sozinha a fantasia de que errar é proibido”, conclui.
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