Na próxima segunda-feira, a Seleção Brasileira entra em campo contra o Japão em uma partida eliminatória decisiva pela Copa do Mundo. Além das quatro linhas, o evento mobiliza o país e mexe profundamente com as emoções dos torcedores, inclusive dos mais novos. Para uma criança, ver o país inteiro parado e, eventualmente, lidar com a frustração de uma eliminação ou de uma derrota pode ser uma experiência avassaladora.
Como os pais podem acolher esses sentimentos sem minimizar a dor dos filhos? Como explicar a cultura dos ‘bodes expiatórios’ e das cobranças nas redes sociais? Para responder a essas questões, a Dra. Danielle Admoni, psiquiatra e professora da Afya Educação Médica São Paulo, aponta o esporte coletivo como uma das metáforas mais ricas para preparar os filhos para os altos e baixos da vida real.
“Em grandes eventos como a Copa do Mundo, o hábito é alimentado por memórias afetivas e familiares, como o ato de trocar figurinhas com pais, avós e amigos. É uma prática que fortalece vínculos e cria registros históricos pessoais dentro de um contexto coletivo”, explica a Dra. Danielle.
Diante da enorme expectativa gerada pela mídia e pelas festas, porém, é comum que as crianças foquem apenas no troféu. No entanto, a médica reforça que o verdadeiro valor está na jornada. "O importante é o meio, a duração, o durante. O quanto se esforçou, como chegou ali e o que foi feito para conseguir estar na Copa do Mundo, o que já é uma conquista gigante".
Ela pondera que o esforço nem sempre será diretamente proporcional ao resultado final, mas o empenho é o que realmente conta: "Se a gente não se esforça, o resultado vai ser ruim. Se a gente se esforça, o resultado pode não ser ruim. O treino e o 'durante' às vezes valem muito mais do que o resultado".
A vivência de acompanhar um esporte coletivo também pode funcionar como uma prévia dos desafios que os pequenos enfrentarão em trabalhos escolares e, futuramente, no mercado de trabalho. "A gente vai trabalhar o tempo inteiro com pessoas diferentes, com objetivos e empenhos diferentes do nosso, e precisa aprender a se virar com isso", conclui a médica, lembrando que no esporte, assim como na vida, não escolhemos com quem vamos treinar, trabalhar ou jogar, tornando o apoio mútuo uma engrenagem indispensável.
Além disso, em tempos de redes sociais imediatistas e cancelamentos, as crianças frequentemente testemunham a busca por culpados após uma derrota. A psiquiatra enxerga o futebol como uma excelente oportunidade para humanizar os ídolos e ensinar que falhas acontecem com todos.
"É uma ótima oportunidade para mostrar que todos nós erramos, mesmo se esforçando, mesmo treinando, mesmo sendo alguém muito bom ou famoso na sua área. Erros acontecem e fazem parte do que não conseguimos controlar". Segundo ela, essa perspectiva ajuda a criança a entender que um erro pontual em campo não define o valor ou o caráter do atleta.
No futebol, assim como na dinâmica social e escolar, o
individual não deve se sobrepor e ao coletivo. A Dra. Danielle brinca que a
posição de goleiro, por exemplo, costuma ser a mais ingrata, pois a culpa das
derrotas frequentemente recai sobre ele. Contudo, ela ressalta a importância de
desconstruir essa visão com as crianças. "Se a bola chegou no goleiro,
teve um time inteiro que deixou isso acontecer. A culpa não pode ser só dele,
porque foi uma falha de um time inteiro, dos outros dez jogadores".
Afya
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