Não posso estar seguro sobre certas observações pessoais que fiz e as decorrentes conclusões, até porque não me havia proposto observar nada, nem lancei mão de método algum. Gostaria, ainda assim, pela relevância do assunto, repartir à reflexão o que concluí. Declaro ciência de que minhas conclusões talvez não me movam do meu lugar social, nem, por elas, suponho, o leitor será movido do seu.
Minha
surpresa começou de modo invertido. Em recente viagem, contei, no aeroporto, do
avião à fila dos táxis, nove pessoas negras, aliás, deve ser anotado, todas
homens. Digo que me surpreendi de forma invertida porque, se não tivesse visto
negro nenhum, talvez não me houvesse dado conta do fenômeno: nove negros,
milhares de brancos.
Desde que
constatei esse fato, venho conferindo essa relação, e, para bem ver, busquei
lugares de grande frequência pública. Em cinco shoppings, foram pouquíssimos os
negros que vi. Em três sessões de cinema, nenhum negro. Nos últimos musicais
que frequentei, vi negro na orquestra, não porém, na plateia. Em peças
teatrais, nem no elenco, nem na plateia havia pessoa negra. Nas classes em que
lecionei pouquíssimas pessoas negras encontrei.
Segundo o
Censo de 2022, do IBGE, a população brasileira se declarou assim: pardos:
45,3%; brancos: 43,5%; pretos: 10,2%; indígenas: 0,8%; amarelos: 0,4%. Note-se
que os pardos apareceram como o maior grupo populacional do país, superando os
brancos. Se somados pretos e pardos, categoria frequentemente agrupada como
“negros” em estudos sociais e políticas públicas, o total chega a 55,5% da
população brasileira.
As contas
oficiais, portanto, afirmam que somos, os brasileiros, pouco menos da metade
brancos, pouco mais da metade negros, enquanto categoria social. Não os vejo,
nunca os vi. Em doze restaurantes, nenhum estava lá, em quatro estabelecimentos
bancários, muitos brancos passando, contei seis pessoas negras, nenhuma delas
mulher, e, posso garantir, estava atento no procurar.
Conferi
meus contatos de rede social; uma que outra pessoa negra ou parda. Bisbilhotei
os amigos dos meus amigos e os amigos dos amigos dos meus amigos: há negros,
mas são pouquíssimos. Escrevo para sites, jornais me publicam; raros negros
estão nesses lugares, quase nenhum mantém coluna em jornal.
Note-se,
não estou trazendo dados sobre negros em cargos relevantes públicos ou
privados, contudo, deixo uma provocação: tente lembrar de algum, seja na esfera
federal, na estadual, ou na municipal. Sim, claro, alguém citará uma exceção,
mas uma exceção citada como tal apenas confirma que os negros, embora
progressos, estão excluídos dos melhores espaços sociais.
No que o
IBGE categoriza como subocupação, informalidade e subutilização da massa
trabalhadora, em 2017 pretos e pardos correspondiam a 65,8% dos trabalhadores
subutilizados; em 2022, a informalidade atingia cerca de 47% dos trabalhadores
pretos e pardos. Sim, já foi pior, porém, a atual desproporção nas formas mais
precárias de inserção no mercado de trabalho segue denunciadora de um estado de
exclusão sistemático.
Lembro como
é ido, e como é atual: “Mas que vejo eu aí... Que quadro d’amarguras! [...] Que
cena infame e vil... [...] Era um sonho dantesco... [...] Em sangue a se
banhar. Tinir de ferros... estalar de açoite... Legiões de homens negros como a
noite [...]”, O Navio Negreiro, Castro Alves.
Trazidos
assim, para cumprir toda tarefa: “(Era a fala da Sinhá) – Vai forrar a minha
cama \ pentear os meus cabelos, [...] vem abanar o meu corpo que eu estou
suada, Fulô \ vem coçar minha coceira, [...] vem balançar minha rede, \ vem me
contar uma história, \ que eu estou com sono, Fulô!”, Essa Negra Fulô, Jorge de
Lima.
Olhado ao
redor, vê-se que as coisas estão erradas. As coisas mesmas são erro e expressão
de coisa errada. Onde estão os negros desse Brasil, que oferecia bandeira para
os navios que os buscavam cativos? Dos escravizados os brancos se serviram para
tudo, em tudo, da pior forma que se pode imaginar. Libertos – espanto! – foi o
espanto que tive: são trazidos à parte.
Sempre eu soube disso, contudo, de algum modo, só o percebo agora. Sinto culpa, não pelo passado, mas por perceber tão tarde o quanto nisso tenho de responsabilidade. Responsabilidade no tanto que todos somos responsáveis pela História do País, senão pelo que foi, pelo que é, pela naturalização desfaçada do que está, ou, pior, não está à vista.
Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista.
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