A pressão para
sermos bem-sucedidos social e economicamente transformou erros e
perdas em uma crise de identidade coletiva. Ao observarmos a sociedade
atual, percebemos que a angústia de "não atingirmos determinados
resultados que desejamos" nasce, em grande parte, da incapacidade de
separar nossos resultados de quem essencialmente somos. Por que permitimos
que um tropeço se transforme em uma sentença? A resposta, embora complexa,
reside na forma como construímos nossa identidade, pois a chave para a
liberdade não é a ausência de tropeços, mas a prática consciente da não
identificação com as nossas conquistas e fracassos.
A sociedade contemporânea nos empurra para uma
fusão perigosa entre o "fazer ou ter" e o "ser". Se um
projeto colapsa, a pessoa se sente inferior; se um papel social se desfaz, ela
sente que perdeu a “razão de viver”. No entanto, precisamos resgatar a
perspectiva do ator e do personagem. O seu "Eu Real" é o ator; as
circunstâncias da vida — o emprego, os sucessos, as posses, as relações
sociais, as crises — são apenas papéis no palco. O ator se entrega ao
papel com intensidade e responsabilidade, mas ele nunca esquece que, ao fechar
das cortinas, sua essência permanece intacta, independentemente de o personagem
ter triunfado, fracassado ou perecido.
Para evitar que uma fissura se torne um
trauma limitante, é preciso aprender a extrair a essência da
experiência, e tornar-se mais consciente de si mesmo. Quando
erramos, temos dois caminhos: carregar a dor
do "erro" como um trauma que limitará futuras
ações ou aprender com ele, tornando-se mais
aptos a integrar conscientemente novas situações mais
complexas de vida. O fracasso só define a identidade daquele que não
é capaz de aprender com os próprios deslizes. Quando assumimos a
responsabilidade pelos nossos erros,
temos a possibilidade de correção, paramos de culpar a nós
mesmo, aos demais ou ao destino e retomamos as rédeas do nosso
caminho, de sermos cada vez mais conscientes.
Viver sem apego excessivo aos resultados não
significa agir com indiferença, mas sim aproveitar com
plenitude cada momento presente. O "Eu Artificial" adora
habitar o passado, remoendo mágoas e falhas antigas para justificar o medo do
futuro e a responsabilidade de ser o dono do próprio
destino. Estar inteiro no agora, fazendo uso de toda
experiência acumulada, é a única forma de impedir que a
memória negativa e o apego às nossas conquistas e fracassos passados
ditem nossos próximos passos.
As conquistas e fracassos, portanto,
devem ser vistos como oportunidades de
aprendizado. São
experiências necessárias para o despertar das virtudes
próprias de nossa verdadeira identidade: a Vontade, a Intuição e a Inteligência.
Quando deixamos de rejeitar a queda e passamos a observar o que ela nos ensina,
a identidade deixa de ser um castelo de cartas vulnerável ao vento das
circunstâncias e se torna uma estrutura sólida, forjada na experiência e na
sabedoria de quem se identifica com algo em si mesmo que está além de
qualquer resultado passageiro.
Não somos o que nos acontece;
somos seres conscientes que decidem o que fazer
com aquilo que acontece. O palco pode mudar, mas o ator, se estiver
consciente de si, jamais se perde na cena.

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