Há reuniões em que eu participo sabendo que sou a única mulher na mesa. E isso, no setor de tecnologia, ainda não é um detalhe.
Ser mulher na engenharia, especialmente nas áreas ligadas à
infraestrutura, telecomunicações e televisão, é aprender cedo que competência
não se presume. Ela precisa ser demonstrada, sustentada e, muitas vezes,
defendida.
A liderança feminina ainda precisa ser reafirmada com frequência,
em ambientes onde o padrão de autoridade continua sendo masculino. A cobrança é
maior, o espaço para erro é menor e o julgamento costuma ser mais rigoroso.
E quando a maternidade entra nessa equação, o desafio se
intensifica. Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher escolha entre
liderar ou cuidar, como se essas dimensões fossem incompatíveis. A realidade,
no entanto, é que muitas mulheres seguem fazendo ambas - não sem custo, mas com
enorme resiliência.
Ao longo desses 20 anos no setor, compreendi que autoridade
técnica e liderança institucional se constroem em camadas: conhecimento sólido,
consistência nas decisões e capacidade de atravessar resistências silenciosas.
Hoje, à frente da SET, atuo na articulação entre indústria,
academia, fabricantes, radiodifusores e reguladores em um momento de
transformação profunda do audiovisual.
A função executiva vai muito além da visibilidade dos eventos.
Envolve coordenar debates estratégicos sobre TV 3.0 e convergência tecnológica,
equilibrar interesses de mercado, garantir sustentabilidade institucional e
preservar a credibilidade técnica da entidade. Em paralelo, há negociações
complexas, construção de consensos e decisões que exigem firmeza, mesmo quando
não são unanimidade. Nesse contexto, a liderança feminina ainda passa por
filtros diferentes.
A assertividade pode ser lida como dureza. A objetividade pode ser
interpretada como frieza. A sensibilidade estratégica pode ser confundida com
emoção excessiva.
Não se trata de vitimização, mas de reconhecer o ambiente em que
atuamos.
A engenharia brasileira tem nomes femininos que abriram caminhos
antes de nós. Entre os nomes que merecem destaque estão Liliana Nakonechnyj,
que foi a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente na SET, e a engenheira Ana Eliza Faria e Silva,
que será homenageada no NAB Show 2026, um dos mais relevantes encontros globais
do setor.
Esse reconhecimento carrega um significado coletivo. Ele evidencia
que mulheres sempre contribuíram de forma decisiva para o avanço técnico da
televisão e da radiodifusão, mesmo quando seus nomes não ocupavam os espaços de
maior visibilidade.
O desafio contemporâneo não é apenas reconhecer trajetórias. É
ampliar presença de forma consistente.
Ambientes diversos produzem decisões mais completas. Mudam as
perguntas feitas em uma reunião. Alteram o modo como os conflitos são
resolvidos. Refinam a análise de riscos. Expandem a visão de longo prazo.
Isso não é idealização. É consequência de experiências distintas
compartilhando o mesmo espaço decisório.
Existe também um aspecto pouco discutido: o desgaste de
representar mais do que a si mesma.
Ser a única mulher em uma sala técnica carrega um peso implícito.
Um erro pode ser generalizado. Uma decisão pode ser interpretada como representação
de um grupo inteiro. Há uma responsabilidade silenciosa de abrir caminho para
outras profissionais.
Continuar ocupando esses espaços, apesar disso, tem dimensão
política, ainda que não declarada.
Essa continuidade se traduz em formar novas lideranças, incentivar
jovens engenheiras, compartilhar conhecimento técnico e fortalecer redes
profissionais que tornem o setor mais plural sem perder excelência.
Se o setor de tecnologia quer se manter inovador, precisa ampliar
perspectivas. A transformação digital que atravessa o audiovisual exige
pensamento plural, visão sistêmica e capacidade de diálogo qualificado.
Talvez o maior compromisso das mulheres que hoje ocupam cargos estratégicos seja contribuir para que, em algum momento, essa discussão deixe de ser necessária.
Luana Bravo - Diretora Executiva da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), engenheira eletricista com ênfase em eletrônica e pós-graduada em TV Digital, com 20 anos de atuação no setor de televisão e telecomunicações.
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