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terça-feira, 7 de abril de 2026

O desafio invisível das mulheres na tecnologia

Há reuniões em que eu participo sabendo que sou a única mulher na mesa. E isso, no setor de tecnologia, ainda não é um detalhe. 

Ser mulher na engenharia, especialmente nas áreas ligadas à infraestrutura, telecomunicações e televisão, é aprender cedo que competência não se presume. Ela precisa ser demonstrada, sustentada e, muitas vezes, defendida. 

A liderança feminina ainda precisa ser reafirmada com frequência, em ambientes onde o padrão de autoridade continua sendo masculino. A cobrança é maior, o espaço para erro é menor e o julgamento costuma ser mais rigoroso. 

E quando a maternidade entra nessa equação, o desafio se intensifica. Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher escolha entre liderar ou cuidar, como se essas dimensões fossem incompatíveis. A realidade, no entanto, é que muitas mulheres seguem fazendo ambas - não sem custo, mas com enorme resiliência. 

Ao longo desses 20 anos no setor, compreendi que autoridade técnica e liderança institucional se constroem em camadas: conhecimento sólido, consistência nas decisões e capacidade de atravessar resistências silenciosas. 

Hoje, à frente da SET, atuo na articulação entre indústria, academia, fabricantes, radiodifusores e reguladores em um momento de transformação profunda do audiovisual. 

A função executiva vai muito além da visibilidade dos eventos. Envolve coordenar debates estratégicos sobre TV 3.0 e convergência tecnológica, equilibrar interesses de mercado, garantir sustentabilidade institucional e preservar a credibilidade técnica da entidade. Em paralelo, há negociações complexas, construção de consensos e decisões que exigem firmeza, mesmo quando não são unanimidade. Nesse contexto, a liderança feminina ainda passa por filtros diferentes. 

A assertividade pode ser lida como dureza. A objetividade pode ser interpretada como frieza. A sensibilidade estratégica pode ser confundida com emoção excessiva.

Não se trata de vitimização, mas de reconhecer o ambiente em que atuamos. 

A engenharia brasileira tem nomes femininos que abriram caminhos antes de nós. Entre os nomes que merecem destaque estão Liliana Nakonechnyj, que foi a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente na SET, e a engenheira Ana Eliza Faria e Silva, que será homenageada no NAB Show 2026, um dos mais relevantes encontros globais do setor. 

Esse reconhecimento carrega um significado coletivo. Ele evidencia que mulheres sempre contribuíram de forma decisiva para o avanço técnico da televisão e da radiodifusão, mesmo quando seus nomes não ocupavam os espaços de maior visibilidade. 

O desafio contemporâneo não é apenas reconhecer trajetórias. É ampliar presença de forma consistente.

Ambientes diversos produzem decisões mais completas. Mudam as perguntas feitas em uma reunião. Alteram o modo como os conflitos são resolvidos. Refinam a análise de riscos. Expandem a visão de longo prazo. 

Isso não é idealização. É consequência de experiências distintas compartilhando o mesmo espaço decisório.

Existe também um aspecto pouco discutido: o desgaste de representar mais do que a si mesma. 

Ser a única mulher em uma sala técnica carrega um peso implícito. Um erro pode ser generalizado. Uma decisão pode ser interpretada como representação de um grupo inteiro. Há uma responsabilidade silenciosa de abrir caminho para outras profissionais. 

Continuar ocupando esses espaços, apesar disso, tem dimensão política, ainda que não declarada.

Essa continuidade se traduz em formar novas lideranças, incentivar jovens engenheiras, compartilhar conhecimento técnico e fortalecer redes profissionais que tornem o setor mais plural sem perder excelência. 

Se o setor de tecnologia quer se manter inovador, precisa ampliar perspectivas. A transformação digital que atravessa o audiovisual exige pensamento plural, visão sistêmica e capacidade de diálogo qualificado.

Talvez o maior compromisso das mulheres que hoje ocupam cargos estratégicos seja contribuir para que, em algum momento, essa discussão deixe de ser necessária.

  

Luana Bravo - Diretora Executiva da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), engenheira eletricista com ênfase em eletrônica e pós-graduada em TV Digital, com 20 anos de atuação no setor de televisão e telecomunicações.


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