A
saúde mental tornou-se uma das maiores preocupações contemporâneas. Em tempos
de mudanças aceleradas, pressões diárias e instabilidades diversas, o cuidado
com o bem-estar psicoemocional passou a ser central para a qualidade de vida
das pessoas e a produtividade das organizações.
O
Brasil, infelizmente, está entre os países com maior incidência de transtornos
de ansiedade. É um problema multifatorial, com causas que vão de questões
pessoais e genéticas a aspectos socioeconômicos e familiares. O ambiente de
trabalho pode agravar esse quadro, quando marcado por condições inadequadas,
mas não deve ser tratado como origem exclusiva do problema.
Nesse
contexto, uma mudança regulatória merece atenção. A Norma Regulamentadora nº 1
(NR-1), que trata das disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho,
passou a exigir que os riscos psicossociais — já previstos na NR-17 acerca da
ergonomia, com apontamentos para aperfeiçoamento das condições organizacionais
e psicofisiológicas dos trabalhadores — sejam obrigatoriamente mapeados no
Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). No entanto, essa exigência só entra
em vigor em maio de 2026. Até lá, não há obrigatoriedade formal nem fase
educativa em andamento.
Importa
destacar que, segundo a NR-17, os riscos psicossociais considerados são apenas
os ligados ao ambiente de trabalho — como sobrecarga, jornadas exaustivas,
falta de pausas ou conflitos. A norma não trata de aspectos individuais da
saúde mental, mas de fatores organizacionais que possam afetar a integridade
psíquica dos empregados.
O
dever da empresa de agir sobre esses riscos só existe se eles forem mapeados no
PGR. Uma vez identificados, cabe à organização definir ações para mitigá-los ou
eliminá-los. Sem esse mapeamento, não há obrigação clara.
É
essencial distinguir o papel da empresa na promoção de um ambiente saudável de
sua responsabilidade legal. Investir em saúde mental, psicológica, incentivando
qualidade de vida e campanhas de conscientização. Mas isso não se confunde com
os deveres legais ligados à gestão de riscos ocupacionais.
Esse debate exige equilíbrio, clareza técnica e serenidade. A construção de ambientes laborais mais saudáveis deve unir empresas, trabalhadores e governo — sempre com base em critérios objetivos e respeito aos limites de responsabilidade de cada parte.
Fernando Valente Pimentel - diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
Rosane Ramos dos Santos Tanabe - Advogada com MBA em Gestão de Pessoas e pós-graduação em Direito Civil.
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