Especialistas
do Hospital Santa Lúcia chamam a atenção para o alerta da campanha nacional e
reforçam a importância da doação de medula óssea
O câncer hematológico representa um dos maiores desafios da medicina moderna, não apenas pela complexidade biológica, mas pela urgência que o tratamento impõe. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a leucemia representa cerca de 2,5% de todos os novos casos de câncer no mundo. No Brasil, as projeções do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam para o surgimento de cerca de 11 mil novos casos anualmente, afetando desde crianças até idosos. No Distrito Federal, o INCA estimou cerca de 7.330 novos casos de câncer no DF por ano no triênio 2023-2025.
Criada em 2019 pela Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), em São Paulo, a campanha ‘Fevereiro Laranja’ busca conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico e tratamento da leucemia, além de estimular e ampliar o cadastro de doadores de medula óssea no país. Em um cenário em que o Brasil se destaca mundialmente pelo número de voluntários cadastrados – o país possui o 3º maior banco de doadores de medula óssea do mundo –, os especialistas alertam que ainda há desafios no acesso ao transplante, considerado, em muitos casos, a única chance de cura ou controle prolongado da doença.
"A chance de localizar um doador
compatível depende de características genéticas herdadas, especialmente
relacionadas ao sistema HLA (antígenos leucocitários humanos). Por isso, quanto
maior e mais diverso o número de pessoas cadastradas, maiores são as
possibilidades para pacientes que aguardam por um transplante", explica o
Dr. Rodolfo Kameo, médico hematologista e coordenador de Transplante de Medula
Óssea (TMO) do Hospital Santa Lúcia.
Leucemia:
o que é e quando suspeitar
“O nome leucemia vem do acúmulo de glóbulos brancos no sangue. Hoje sabemos que a maioria das leucemias surge na medula óssea”, explica o hematologista Dr. Eduardo Flávio Ribeiro, coordenador de Hematologia do Hospital Santa Lúcia. Segundo ele, há dois grandes grupos: as leucemias linfóides e as mielóides, subdivididas em formas agudas e crônicas.
Nas formas crônicas, muitos casos são descobertos em exames de rotina. Já nas agudas, os sintomas costumam ser mais evidentes. “É comum haver cansaço intenso, febre e alterações hemorrágicas, como hematomas ou sangramento gengival. Mas é importante esclarecer: a maioria das pessoas com esses sintomas não tem leucemia. Anemia, por exemplo, é regra nas leucemias agudas, mas a maioria das anemias não é causada por leucemia”, ressalta.
O especialista destaca ainda que, diferentemente de tumores sólidos, o prognóstico nas leucemias agudas depende menos do estágio e mais do acesso rápido ao tratamento adequado. “O que realmente faz diferença é a possibilidade de iniciar o tratamento e oferecer suporte às intercorrências, que podem ser frequentes”, afirma.
Transplante
de medula: referência e desafios
O Brasil realizou 3.821 transplantes de medula óssea em 2024, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). No Distrito Federal, foram 145 procedimentos no mesmo período.
Em muitos casos de leucemia, o transplante de medula óssea — tecnicamente chamado de transplante de células-tronco hematopoéticas — é a única alternativa curativa. O procedimento pode ser:
- Autólogo: quando as células são do próprio paciente, coletadas previamente e reinfundidas após quimioterapia em altas doses;
- Alogênico: quando as células vêm de um doador compatível, aparentado ou não.
O Centro de Referência em Transplante
de Medula Óssea do Hospital Santa Lúcia possui certificação para realizar o
transplante autólogo e está entre as poucas unidades do DF que executam todas
as etapas dentro da própria unidade (coleta, processamento, congelamento e
reinfusão das células), e aguarda em breve pela nova certificação para o
transplante alogênico, o que deve ampliar ainda mais as possibilidades
terapêuticas para os pacientes diagnosticados com leucemias agudas,
mielodisplasias e outras doenças hematológicas graves.
“O transplante autólogo representa um avanço importante, especialmente para linfomas e mieloma múltiplo, ao permitir terapias mais intensivas com segurança. Já o transplante alogênico, amplia ainda mais o potencial curativo em doenças de maior agressividade, ao substituir a medula doente por células saudáveis de um doador compatível”, explica o Dr. Rodolfo.
O coordenador de Hematologia, Dr. Eduardo Flávio, acrescenta que o avanço da medicina nos últimos 20 anos mudou o cenário da especialidade. “Hoje conseguimos identificar mutações genéticas específicas e direcionar terapias mais precisas. Em algumas leucemias crônicas, já é possível suspender o tratamento após alguns anos, sem necessidade de quimioterapia contínua. O transplante também evoluiu, com estratégias mais eficazes para reduzir rejeição”, lembra.
Doação
de medula: necessidade permanente
O Brasil possui o terceiro maior banco de doadores de medula óssea do mundo, atrás apenas da Alemanha e dos Estados Unidos. São cerca de 6 milhões de voluntários cadastrados no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME). Ainda assim, a chance de encontrar um doador totalmente compatível pode chegar a 1 em 100 mil, especialmente fora do núcleo familiar.
O coordenador do Centro de Referência de TMO do Hospital Santa Lúcia ressalta que a segurança do doador é premissa do processo. “Antes da doação, são feitos vários exames para avaliar viabilidade. Se o médico transplantador considerar risco relevante, a doação não é feita. A recuperação é rápida, não há sequelas e a doação pode, inclusive, ser realizada mais de uma vez”, afirma.
No Distrito Federal, o caminho para se tornar doador passa pelo Hemocentro, com cadastro e coleta de amostra de sangue para testes de compatibilidade, que entram no REDOME. Caso exista compatibilidade com algum paciente que precise de transplante, o doador é convidado para prosseguir — e tem liberdade para desistir.
Outro ponto fundamental é a compatibilidade genética, que torna a doação de medula óssea um processo complexo e altamente específico. “A chance de encontrar um doador compatível fora da família, por exemplo, é considerada baixa, pois depende de características genéticas herdadas, especialmente relacionadas ao sistema HLA (antígenos leucocitários humanos), que precisam ser muito semelhantes entre o doador e o receptor”, explica Dr. Rodolfo.
Por isso, quanto maior e mais diverso o número de pessoas cadastradas no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea, maiores são as possibilidades de localizar um doador compatível para pacientes que aguardam por um transplante.
“A campanha ‘Fevereiro Laranja’ ajuda a revelar as faces desses pacientes, além de permitir chamarmos a importância do diagnóstico precoce e o acesso a terapias importantes, evitando a demora no tratamento, o que pode ser crítico no caso das leucemias agudas”, afirma o coordenador de Hematologia do Hospital Santa Lúcia, Dr. Eduardo Flávio.
O especialista ainda reforça que o cuidado hematológico exige atuação integrada. “Não existe tratamento hematológico sem trabalho em equipe. Hematologistas, intensivistas, infectologistas, laboratório, banco de sangue, enfermagem, nutrição, fisioterapia e psicologia. É a coordenação de todos que permite melhores desfechos”, explica o médico. “Essa atuação multidisciplinar é favorecida quando se está no maior hospital de alta complexidade do DF, como é o Hospital Santa Lúcia, que possui todas as especialidades necessárias e suporte tecnológico avançado, o que reduz o tempo de resposta clínica e amplia a segurança do paciente”, conclui o Dr. Flávio.
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