Calor extremo, consumo de álcool e
horas de esforço físico transformam a festa em um ‘treino involuntário’ para
muitos foliões; fisiologista do esporte orienta recuperação e retorno gradual
às atividades
O Carnaval acabou, mas os efeitos da maratona de
bloquinhos e desfiles ainda seguem presentes no corpo de milhares de
brasileiros. Em 2026, a combinação de altas temperaturas, grandes aglomerações,
longas horas em pé ou caminhando e consumo elevado de bebidas alcoólicas impôs
aos foliões um nível de estresse físico comparável ao de exercícios aeróbicos
intensos. Agora, o desafio é outro: como recuperar o corpo de forma eficiente e
voltar à rotina de atividades físicas sem riscos.
Responsável pelo treinamento de mais de 500 atletas amadores, o fisiologista do esporte pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Diego Leite de Barros alerta que um dos erros mais comuns no pós-Carnaval é tratar o cansaço apenas como “ressaca” ou preguiça passageira. “O corpo entende esses dias como um esforço físico real. Houve gasto energético elevado, desidratação, sobrecarga muscular e impacto no sono. Ignorar isso e voltar direto para treinos intensos aumenta o risco de lesões e queda de desempenho”, explica.
Mesmo em bloquinhos com trajetos curtos, os foliões
estão expostos a horas de dança, deslocamentos irregulares e permanência
prolongada sob o sol. Do ponto de vista fisiológico, esse conjunto gera aumento
do estresse térmico; perda significativa de líquidos e eletrólitos; microlesões
musculares; e fadiga neuromuscular. “O corpo não responde apenas à distância
percorrida, mas ao tempo total de atividade e à intensidade. Quatro horas em
movimento contínuo, sob calor, não são algo leve”, destaca Barros.
Álcool e recuperação
O consumo de álcool, comum durante o Carnaval, agrava o quadro de fadiga pós-festa. Além de favorecer a desidratação, ele interfere diretamente nos mecanismos de recuperação muscular e na qualidade do sono. “A ressaca não é só um desconforto momentâneo. Ela indica que processos importantes de regeneração foram atrasados. Sem recuperação adequada, o corpo demora mais a voltar ao equilíbrio”, afirma o fisiologista.
Diante deste cenário, Barros traz três orientações
essenciais para uma recuperação eficaz:
1. Hidratação estratégica - A reposição de líquidos deve ir além da água. Bebidas com
eletrólitos (isotônicos), sucos, água de coco e alimentos ricos em minerais
ajudam a restabelecer o equilíbrio do organismo.
2. Alimentação voltada à recuperação - Carboidratos para repor energia, proteínas para
reconstrução muscular e alimentos com ação anti-inflamatória, como frutas
vermelhas, peixes ricos em omega-3 e legumes, são essenciais nos dias seguintes
à folia.
3. Sono de qualidade - Dormir bem é um dos fatores mais importantes para restaurar o sistema
muscular, hormonal e metabólico, especialmente após noites curtas e
irregulares.
Quando voltar a treinar de verdade?
Para os foliões que têm em sua rotina a prática de exercícios
físicos, a retomada das atividades regulares exige cuidados especiais. Segundo
Barros, caminhadas e corridas leves, alongamentos e atividades de baixa
intensidade ajudam a reduzir rigidez muscular e preparam o corpo para a
retomada gradual dos treinos. “Dor muscular intensa, cansaço persistente e sono
desregulado são sinais claros de que ainda não é hora de exigir demais do
corpo”, orienta. A recomendação, informa o treinador, “é retomar a intensidade
aos poucos, preferencialmente com acompanhamento profissional, ajustando carga,
volume e frequência dos treinos”.
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