Em 2026, ver uma criança crescer é acompanhar uma transformação silenciosa. A geração que chega agora lida com dispositivos e sistemas inteligentes com naturalidade; eles fazem parte do ambiente. O ponto é quando a tecnologia começa a ocupar um espaço central da infância, o tempo vazio, a pausa, à espera, justamente onde se treina sensibilidade, linguagem emocional e a capacidade de sustentar trocas que não dão resposta imediata.
Uma pesquisa da consultoria Página 3 mostra que, no Brasil, 35% das pessoas associam descanso ao uso do celular; entre os mais jovens, o percentual chega a 53%. Quando até o descanso vira atividade mediada por tela, habilidades treinadas na infância, como perceber o outro, lidar com frustração e sustentar conversa, passam a competir com estímulos contínuos e retornos instantâneos.
Os dados sobre tecnologia infantil ajudam a dimensionar o cenário. O TIC Kids Online Brasil 2025 aponta que 65% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos já recorreram a ferramentas de IA generativa, inclusive para temas subjetivos, como organização emocional, inseguranças escolares e conflitos do cotidiano. Já o relatório Norton Cyber Safety Insights 2025 indica que 39% das crianças brasileiras usaram IA em busca de companhia ou apoio emocional e que 67% das famílias relatam o uso rotineiro de chatbots pelos filhos.
Não surpreende que educadores e profissionais de saúde mental observem um fenômeno novo. Para algumas crianças e adolescentes, falar com IA parece mais fácil do que conversar com um adulto. A UNICEF registra que jovens relatam se sentir menos julgados e mais à vontade ao tratar de questões pessoais com sistemas de IA. Isso pode facilitar a autorrevelação, mas também acende um alerta: se a tecnologia vira o espaço mais acessível para expressar sentimentos, o que isso diz sobre a escuta e os vínculos no mundo offline?
A pesquisa Mais do Mesmo, com 600 brasileiros, reforça o sinal. Ela mostra que 76% afirmam estar cada vez mais difícil conversar e se relacionar com outras pessoas. Se adultos que cresceram sem IA já enfrentam obstáculos para sustentar diálogos e elaborar emoções, a tendência é que o desafio aumente entre crianças que terceirizam partes desse processo antes de consolidar um vocabulário afetivo próprio.
Não se trata de demonizar a inteligência artificial. Máquinas
organizam, explicam e podem simular empatia. Vínculos, porém, exigem
ambiguidade, demora, atrito e vulnerabilidade. Se não cuidarmos dessa camada,
corremos o risco de formar crianças muito aptas a operar dispositivos, mas com
menos treino para operar relações.
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