Durante décadas, aprendemos que as organizações funcionam como pirâmides: muitas vagas para cargos mais operacionais na base, e poucas no topo. Mas, basta olhar para o mercado atual para perceber que essa lógica está se invertendo: nunca vimos tanta busca para preencher essas posições de liderança, enquanto as demais, dificilmente, ficam disponíveis por tanto tempo. Muito mais do que compreender os motivos desta inversão, vale o questionamento: o que falta, nos líderes atuais, para que nossas empresas não tenham mais tanta dificuldade em encontrar profissionais que inspirem resultados cada vez melhores?
No primeiro trimestre de 2025, dados
do Caged informaram que nosso país criou mais de 650 mil empregos
formais. Do outro lado, é difícil encontrar números oficiais que mostrem uma
quantidade exata disponível. Projeções internacionais indicam que aberturas
anuais para cargos executivos podem girar em algumas centenas de milhares
globalmente, como cerca de 350 mil vagas executivas projetadas por ano nos EUA.
Historicamente, nossa sociedade sempre demandou uma
maior quantidade de profissionais ocupando funções braçais do que meramente
intelectuais. Mais execução do que planejamento – o que se
reflete até hoje. Não se trata de uma maior facilidade em preencher tais
vagas, mas de existir uma maior mão de obra disponível para assumi-las.
Enquanto, do outro lado, é indiscutível que ser um bom líder é algo restrito a
poucas pessoas. Não pela falta de estudo ou qualificação, mas por se
tratar de uma habilidade natural que, nem sempre, é simples de ser desenvolvida
ou treinada em qualquer um.
O contraponto é explícito. Quando falamos da
pirâmide invertida no mercado, é importante ter claro em mente que isso
não se limita a uma diferença numérica de disponibilidade, mas compreender que
a liderança,
enquanto habilidade, é rara de ser encontrada, o que faz com que
muitas empresas acabem investindo mais tempo e recursos em
recrutar um talento qualificado nesse sentido, do que em treinar alguém
internamente. Não que seja impossível de ser feito, mas extremamente
complexo, mesmo diante de metodologias eficazes para tal.
Pense, por exemplo, em grandes líderes natos
da história da humanidade. De Alexandre, o Grande; à Joana d’Arc e
Steve Jobs. Enormes influenciadores e engajadores de suas épocas que,
mesmo que seus discursos e comportamentos fossem replicados por outras
pessoas, pouco provavelmente teriam o mesmo sucesso que cada um deles
teve. O mesmo vale atualmente: é raro ver tamanha habilidade de
liderança no mercado, o que faz com que seja algo tão valioso ao ponto que se
vende por si só em uma entrevista.
Mas, como é possível medir este talento durante um
processo seletivo? Como avaliar se o executivo em questão tem a capacidade de
inspirar, engajar e motivar seus times rumo a um desempenho
crescente? Apenas quando já estiver dentro da empresa. É o mesmo que
acontece com um jogador: como o técnico terá certeza de que terá um bom desempenho
nas partidas? Quando colocá-lo em campo disputando e analisar seu desempenho.
A criatividade e inovação ainda são características
fundamentalmente presentes nos seres humanos, que nenhuma tecnologia conseguirá
desenvolver com maestria, apenas replicar o que já existe. E, para que essa
grande quantidade de vagas do topo da pirâmide possa ser preenchida, toda
a mentalidade do mercado precisaria ser mudada, estimulando esse
desenvolvimento desde cedo nos futuros profissionais.
Afinal, atualmente, temos mais executores do que criadores. Mais posições operacionais preenchidas do que de liderança. Porém, diante do uso massivo das tecnologias em nosso dia a dia, o que, inevitavelmente, acaba limitando o poder criativo e pensativo nas tarefas cotidianas, ainda teremos um grande desafio no futuro, criando o ambiente necessário para que essas habilidades de liderança floresçam e prosperem em nosso mercado.
Thiago Gaudencio - headhunter e sócio da Wide Executive Search, boutique de recrutamento executivo focado em posições de alta e média gestão.
Wide
https://wide.works/
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