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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Apenas um terço dos brasileiros investe regularmente em bem-estar e a baixa renda concentra as maiores barreiras

Pesquisa do Instituto Locomotiva e QuestionPro mostra que o desejo de se cuidar é quase unânime no país, mas renda, tempo e trabalho limitam a prática contínua do autocuidado


O bem-estar é um valor amplamente compartilhado no Brasil, mas não é vivido da mesma forma por todos. Nove em cada dez brasileiros atribuem alta importância ao tema. Para 87%, bem-estar está diretamente associado ao equilíbrio emocional e mental, enquanto apenas 13% priorizam aspectos físicos. Ainda assim, a possibilidade de cuidar de si de forma contínua depende diretamente das condições materiais de cada brasileiro.
 

Essa desigualdade aparece de forma clara quando o assunto é investimento financeiro em bem-estar. Apenas 33% dos brasileiros conseguem investir de forma regular em produtos ou serviços ligados ao autocuidado. Enquanto, entre os brasileiros de maior renda, esse investimento tende a se consolidar como prática contínua, na classe DE o cuidado assume um caráter intermitente ou inviável: 35% investem apenas de forma ocasional e 25% não investem por falta de condições financeiras. 

A renda também organiza o tempo disponível para o autocuidado. Sete em cada dez brasileiros afirmam ter tempo para cuidar de si, mas essa percepção varia conforme as condições materiais. Entre os brasileiros da classe AB, 81% dizem ter tempo para o próprio bem-estar, enquanto, na classe DE, esse percentual cai para 66%. Metade da população afirma dispor de apenas uma a duas horas por dia para se dedicar ao cuidado pessoal, e o trabalho excessivo aparece como o principal fator que limita esse tempo, sobretudo entre os de menor renda. 

Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, os dados revelam que a desigualdade atravessa todas as dimensões do autocuidado: “O investimento em bem-estar é um esforço presente em todas as rendas. O que muda não é a vontade de se cuidar, mas a frequência possível. Nas classes mais altas, o cuidado cabe de forma regular na rotina. Nas classes mais baixas, ele acontece de maneira ocasional, não por falta de prioridade, mas porque as limitações financeiras empurram o autocuidado para os intervalos da vida.” 

Quando o cuidado depende do acesso a produtos e serviços, as desigualdades se aprofundam. Embora nove em cada dez brasileiros tenham acesso a pelo menos um item ou serviço de saúde e bem-estar, o alcance das principais categorias cresce de forma consistente conforme a renda. Alimentação saudável, atividade física e lazer concentram os maiores contrastes entre as classes sociais, revelando que o bem-estar mais estruturado ainda depende de estabilidade financeira. 

Na alimentação saudável, o acesso vai de 50% nas classes DE para 69% nas classes AB. Na academia ou atividade física, sobe de 33% para 57%, e em lazer e viagens, de 27% para 43%. Os dados indicam que, à medida que a renda aumenta, cresce não apenas o acesso, mas a possibilidade de incorporar o bem-estar como parte regular da rotina. 

Além da renda, o tempo disponível é outro fator decisivo para a prática do autocuidado. 73% dos brasileiros afirmam ter tempo para cuidar de si, mas esse percentual chega a 81% na classe AB e cai para 66% na classe DE. Metade da população afirma dispor de apenas uma a duas horas por dia para se dedicar ao próprio bem-estar, e o trabalho excessivo é apontado como o principal fator que limita esse tempo, especialmente entre os brasileiros de menor renda. 

“O bem-estar dos brasileiros é construído na disputa diária entre desejo e possibilidade. A pesquisa mostra que, para muitos, não falta vontade de se cuidar, falta tempo. A rotina marcada por trabalho, deslocamentos e responsabilidades impede que o cuidado consigo mesmo aconteça de forma contínua. O país revela que o cotidiano, mais do que a intenção, define quem consegue priorizar o próprio equilíbrio”, destaca Meirelles. 

A vida financeira aparece como um dos fatores mais sensíveis nesse cenário. 89% dos brasileiros afirmam que sua situação financeira afeta o bem-estar, e 50% dizem que esse impacto é forte. As preocupações com dinheiro lideram a lista de fatores que prejudicam o equilíbrio emocional, sobretudo entre os brasileiros das classes C, D e E, reforçando o papel da renda como elemento estruturante do bem-estar no país. 

Essa desigualdade também se reflete na forma como os brasileiros avaliam a própria saúde mental. A percepção positiva cresce conforme a renda: nas classes AB, 72% avaliam sua saúde mental como boa, percentual que cai para 49% entre os brasileiros das classes DE. Em sentido oposto, as avaliações negativas se concentram com mais força na baixa renda. Entre as classes DE, 16% classificam sua saúde mental como ruim ou muito ruim, frente a 5% na classe AB, indicando que as condições materiais impactam diretamente a forma como os brasileiros vivenciam e avaliam seu equilíbrio emocional. 

Mesmo diante dessas limitações, metade dos brasileiros já buscou ou demonstra interesse em buscar ajuda profissional para cuidar da saúde mental. O comportamento é observado em todas as classes sociais, mas assume significados distintos conforme a renda. Entre as classes, esse movimento se mantém em patamares semelhantes, mas a alta renda se destaca por dois movimentos simultâneos: concentra tanto a maior parcela dos brasileiros que já buscaram atendimento profissional quanto a dos que afirmam não ver necessidade de procurar ajuda. 

No dia a dia, as ações mais adotadas para cuidar da saúde mental estão ligadas a práticas acessíveis e à rotina pessoal: 50% citam a prática de exercícios físicos, 49% mencionam lazer e hobbies, 48% o contato com amigos e familiares, 37% a alimentação equilibrada e 23% recorrem à meditação ou a práticas de relaxamento, evidenciando que o autocuidado no país se apoia majoritariamente em estratégias individuais e possíveis dentro das condições de cada brasileiro. 

A percepção de melhora no bem-estar também acompanha o nível de renda. 61% dos brasileiros afirmam que seu bem-estar melhorou nos últimos cinco anos. Esse percentual sobe para 69% na classe AB e cai para 53% na classe DE. Quando questionados sobre quem é o principal responsável por promover essa melhora, os brasileiros se veem como protagonistas. No entanto, entre os brasileiros de maior renda, 61% apontam a si mesmos como os principais responsáveis pelo próprio bem-estar. Na classe DE esse percentual cai para 51%, enquanto família, trabalho e religião ganham mais peso como redes de sustentação emocional. 

“Quando o assunto é bem-estar, os brasileiros olham para si como protagonistas. Eles acreditam que a mudança começa dentro de casa. Mas os dados mostram que essa responsabilidade pesa diferente conforme a renda. Nas classes mais altas, liberdade de escolha. Nas mais baixas, família, trabalho e religião ganham uma força maior porque a rotina impõe limites concretos às ações individuais. Quando o indivíduo esbarra nas barreiras do cotidiano, o coletivo assume um papel ainda mais decisivo para sustentar o bem-estar”, explica Renato. 

O tipo de trabalho desenvolvido pelas pessoas impacta também impacta o bem‑estar. Segundo a pesquisa, 38% afirmam que o tipo de trabalho impacta positivamente seu bem-estar, 31% dizem que não há impacto e 31% avaliam que o trabalho afeta negativamente sua qualidade de vida. A percepção varia conforme a renda: nas classes AB, 42% relatam impacto positivo, mas 25% também afirmam que o trabalho afeta negativamente o bem-estar. Já nas classes DE, a avaliação negativa é ainda mais presente, com um terço dos brasileiros indicando que as condições de trabalho pesam de forma mais intensa sobre o bem-estar. 

Para Renato Meirelles, o trabalho aparece como uma das dimensões mais determinantes do bem-estar porque organiza tempo, renda e a própria percepção de realização. “Entender bem-estar no país passa necessariamente por entender como as condições de trabalho afetam quem vive delas”.

 

Metodologia

Foram realizadas 1.500 entrevistas com homens e mulheres de 18 anos ou mais em todas as regiões do país, por autopreenchimento digital, entre 17 e 23 de junho de 2025. A amostra é nacional, ponderada por gênero, idade, escolaridade e classe social, seguindo parâmetros da PNAD Anual 2022 (IBGE). A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais.

 

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