Estudos a respeito
do sistema prisional brasileiro mostram uma série de desafios que refletem as
complexidades de nossa sociedade. Como citado pelo ministro Luiz Roberto
Barroso, presidente do STF e do CNJ, durante o evento “A leitura nos espaços de
privação de liberdade – Encontro nacional de gestores de leitura em ambientes
prisionais”, realizado no mês de outubro, “o sistema prisional brasileiro é,
talvez, um dos temas mais difíceis e complexos e uma das maiores violações de
direitos humanos que ocorre no Brasil.”
De acordo com o
levantamento feito pela Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), os
dados do primeiro semestre de 2023 revelam que o total de custodiados no Brasil
é de 644.794 em celas físicas e 190.080 em prisão domiciliar.
Os números indicam
a necessidade de novas políticas penitenciárias, que possam fazer frente a
questões como a expansão contínua da população carcerária, investimentos
insuficientes nas estruturas penitenciárias, alto índice de detentos sem
condenação, e punições rigorosas para infrações de menor gravidade.
No entanto, é
importante ressaltar o aumento de 9,58% da oferta de atividades educacionais no
sistema penitenciário brasileiro, além de 154.531 pessoas privadas de
liberdade, exercendo alguma atividade laboral.
Esses números
destacam a dinâmica em evolução do sistema prisional, evidenciando a
necessidade contínua de análise crítica e implementação de políticas eficazes
para lidar com os desafios persistentes em torno do encarceramento no Brasil.
O Sistema
Prisional Brasileiro, atualmente integrado à Segurança Pública, demanda ações
conjuntas para combater o crime organizado, com ações muitas vezes orquestradas
de dentro das prisões. Para enfrentar este desafio, é imperativo investir em
modernização, manutenção da estrutura física, inteligência e, sobretudo,
humanização no exercício da Lei de Execução Penal (LEP).
Nesse sentido, a
ressocialização, efetiva sob regime de cogestão, é caminho crucial que se
apresenta para interromper o ciclo de violência e reincidência criminal. O
papel da cogestão especializada no cotidiano de uma unidade prisional se
caracteriza por ser o agente integrador entre a segurança e a
ressocialização. Otimiza a integração destes dois aspectos complementares da
gestão prisional, possibilitando o alcance do resultado final comum pretendido,
qual seja, a reintegração da pessoa privada de liberdade à sociedade.
A participação da
iniciativa privada, notadamente na cogestão, iniciada em 1999, revela-se
exitosa em vários Estados. A cogestão, diferenciada da simples terceirização,
envolve a realização de atividades instrumentais, acessórias, materiais e
complementares, com a empresa assumindo encargos, além da mão de obra,
agregando valor ao serviço prestado.
A cogestão e as
Parcerias Público-Privadas (PPPs) oferecem modelos alternativos de gestão
prisional. Tanto no modelo da cogestão quanto nas PPPs, o Estado mantém o
indelegável Poder de Polícia, a função jurisdicional, a segurança e a
inteligência, competindo ao parceiro privado manter e operar as atividades
acessórias nos estabelecimentos prisionais, sob supervisão do Estado, sendo que
nas PPPs este parceiro se incumbe, também, de projetar e construir o
equipamento prisional com recursos próprios.
Além disso, os
indicadores de desempenho, definidos pelos Estados, guiam a avaliação da
efetividade e qualidade dos serviços nas cogestões e PPPs, enfatizando aspectos
como educação e trabalho.
Experiências
bem-sucedidas de cogestão em alguns conjuntos penais no Estado da Bahia
evidenciam resultados significativos, após a implantação de projetos de
ressocialização. Iniciativas focadas no resgate da cidadania das pessoas
privadas de liberdade residem, por exemplo, no inédito e exitoso ingresso, em
2023, no Conjunto Penal de Itabuna, de 29 reeducandos no ensino superior, no
atingimento do expressivo percentual de 65% de internos cursando o ensino
formal, além de outras ações que têm como foco o tratamento digno ao interno e
sua família, além da própria valorização do interno como pessoa e cidadão.
A atenção aos
detalhes no escopo da contratação, metas qualitativas claras e coesão nos
indicadores são importantes para a implantação e sucesso desses modelos.
Portanto, a cogestão surge como agente integrador entre segurança e
ressocialização, otimizando e modernizando a gestão prisional para alcançar o
objetivo comum de reintegrar os indivíduos à sociedade como cidadãos
economicamente sustentáveis. A busca por soluções inovadoras, aliada à
supervisão rigorosa do Estado, representa um avanço significativo para o
sistema prisional brasileiro.
Eduardo Brim Fialho - presidente do SEMPRE – Sindicato Nacional das Empresas Especializadas na Prestação de Serviços em Presídios e em Unidades Socioeducativas.
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