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sábado, 17 de maio de 2025

Quando o colo fica vazio: a dor silenciada das mães após a perda perinatal


A saúde mental de quem passa pelo luto antes ou logo após o parto segundo a neuropsicologia

 

O caso ocorrido nos últimos dias com a apresentadora e jornalista carioca Tati Machado, que perdeu seu bebê na reta final de sua gestação, com pouco mais de 33 semanas gerou comoção e abriu uma fresta sobre como a mente humana processa esse tipo de perda. A neuropsicologia mostra o que pode acontecer com a saúde mental das mães que perdem seus bebês antes ou logo após o parto. 

“Perder um bebê na reta final da gestação ou logo que essa criança vem ao mundo é uma ruptura abrupta entre expectativa e realidade. A mulher já ouviu o coração do bebê, já preparou o enxoval, já se imaginava embalando seu filho. Nesse momento, não se perde só um bebê — perde-se um futuro inteiro imaginado, um vínculo visceral que já estava formado. É o luto de um colo que ficou vazio, de um corpo que ainda pulsa vida, mas já não abriga o que mais sonhava", afirma a neuropsicóloga Carol Mattos, especialista em comportamento humano.

 

Revivendo a dor 

“É uma dor imensurável. Estou tão triste em saber que a Tati perdeu seu bebê, a gente revive tudo de novo. É uma dor que não se explica”, disse a arquiteta Graziela Gazaro, que perdeu seu filho Gabriel com 27 semanas de gravidez em 2019.

Ela conta que foi identificado num dos exames morfológicos que ele sofria de uma síndrome genética rara e uma cardiopatia severa. “Eu e meu marido estávamos saudáveis, fizemos todos os exames genéticos, mas infelizmente aconteceu.

Quando ele fez 27 semanas de vida, o coraçãozinho do meu filho parou de bater. Meu mundo acabou, achei que entraria em depressão. Uma mãe perder um filho, em qualquer fase da vida, é uma dor que não tem cura”, disse Graziela, que dois anos depois teve mais dois abortos.

As perdas causaram mudanças profundas na arquiteta. Ela, que em 2024 vivenciou outra dor ao perder o marido, afirma que ainda hoje tenta processar todas essas situações tão sofridas: “A gente não vive, sobrevive após a perda de um filho. Ainda não estou curada dessa dor, sempre lembro dele. Entrei na maternidade, passei por um trabalho de parto extenuante de mais de 24 horas e sai de lá sem meu bebê nos meus braços. Ainda não consegui doar as roupinhas dele, mas trabalho isso dentro de mim pois não sou apegada a bens materiais, mas vou precisar de apoio quando for fazer isso”, finalizou. 

A perda perinatal — que inclui a morte fetal tardia e o falecimento do recém-nascido nos primeiros dias de vida — é uma das experiências mais devastadoras que uma mulher pode enfrentar.

Seus efeitos vão muito além da dor imediata: ela pode desencadear transtorno de estresse pós-traumático, depressão pós-parto (mesmo sem o bebê nos braços), ansiedade persistente, distúrbios do sono, crises existenciais profundas e um esmagador sentimento de culpa e fracasso.

Muitas mães relatam a sensação de terem falhado em seu papel mais essencial, enfrentando o silêncio social que muitas vezes minimiza ou ignora sua dor. O luto perinatal é real, complexo e, infelizmente, ainda invisibilizado — o que torna o suporte psicológico, familiar e profissional não apenas importante, mas urgente.

“Do ponto de vista neuropsicológico, o cérebro da gestante já havia se adaptado para o vínculo: havia alterações hormonais, sinapses preparadas para o cuidar. Com a perda, o cérebro entra em disritmia emocional, desorganizando, inclusive, as funções básicas de sono, apetite e a tomada de decisões”, afirma a especialista.

 

Dados 

Em 2023, segundo dados do Painel de Monitoramento da Mortalidade Infantil e Fetal, do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 20,2 mil mortes infantis e fetais por causas evitáveis, o menor número desde 1996. Isso representa uma redução de cerca de 62% em comparação com os 53,1 mil óbitos registrados naquele ano.

As mortes evitáveis são aquelas classificadas como as que poderiam ser barradas por ações de imunoprevenção, adequada atenção à mulher na gestação e parto e ao recém-nascido ou diagnósticos corretos, por exemplo. 

Dados da Unicef apontam que o número de mortes de menores de cinco anos no mundo diminuiu para 4,8 milhões em 2023, enquanto os natimortos permaneceram em torno de 1,9 milhão, de acordo com dois novos relatórios da ONU.

 

Dor que não cessa  

“Tenho gatilhos até hoje. Não posso, por exemplo, ver camisola de hospital estampada. Passei por três psicólogos, o último, homem, foi o que mais me entendeu e acolheu, pois sofro de estresse pós traumático e ainda estou em tratamento”, disse a geógrafa Fernanda Fontebassi que no final de 2022, após uma gravidez muito saudável, perdeu seu filho Nuno com 38 semanas.

“Fui para um pré-natal e dois dias depois comecei a sentir contrações, fui para o hospital e tudo aconteceu. Fui aconselhada por uma enfermeira e pedir minha alta hospitalar para me recuperar em casa, e foi o que eu fiz.

Porém, me deparei com uma equipe despreparada que não solicitou o acompanhamento psicológico. O baque mesmo foi quando cheguei em casa; foi tenebroso, eu só chorava, e a maior tortura foi que meu leite desceu e só secou depois de 3 meses. Após passar por 11 médicos, ninguém conseguiu descobrir o que realmente eu tive, tanto que hoje participo de um estudo no Hospital das Clínicas de São Paulo. Coletaram minha placenta, meu sangue e do meu bebê, fizeram necrópsia nele e nunca detectaram o que aconteceu”, disse a geógrafa que também passou por mais dois abortos após essa gestação.

Após 10 meses, Fernanda deu a luz a Bento, hoje com 1 ano. “Infelizmente, muitas pessoas, tentando me consolar – com a melhor das intensões - após essa perda me dizem: ‘ah, mas você tem o Bento agora’, mas um filho nunca anula o outro, essa é uma dor muito silenciosa que parece que após um tempo não temos mais o direito de sentir. Como tive os outros abortos, sei que a experiência de perder um filho com 38 semanas é muito diferente”, disse Fernanda.

  

A importância do luto reconhecido 

“Nossa sociedade tem dificuldade em validar o luto gestacional. Assim como a Fernanda e a Graziela, muitas mulheres ouvem frases como: “você é jovem, logo terá outro” — como se pudesse haver uma “substituição” de um filho por outro. Validar essa dor é fundamental para a reconstrução do eu materno. Não se trata de seguir em frente como se nada tivesse acontecido, mas de aprender a seguir em frente com o que aconteceu”, disse.

 

O que oferecer a uma mãe em luto pela perda de um filho? 

Mais do que palavras, ofereça presença genuína e silenciosa, sem julgamentos ou expectativas. Evite frases prontas como “você é forte” ou “tudo acontece por um motivo” — elas podem ferir mais do que confortar. Em vez disso, esteja disponível para ouvir com empatia, mesmo quando o silêncio for tudo o que ela tiver para compartilhar. Reconheça que o luto materno é uma jornada íntima e intransferível, que não tem prazo de validade nem um roteiro a seguir. Algumas mães precisam falar mil vezes sobre o que viveram; outras, apenas respirar. Todas, porém, precisam de um mundo que respeite sua dor sem tentar apressar sua cura. O apoio mais valioso que você pode oferecer é o de validar sua perda, seu amor e seu direito de sentir.

 

Bebê reborn: Por que algumas mulheres se apegam a bonecos? Psicóloga explica

Bonecos hiper-realistas voltaram aos holofotes nas redes sociais. Psicóloga perinatal comenta possíveis fatores emocionais envolvidos e reforça a importância de acolhimento especializado em alguns casos


Os bebês reborns voltaram aos holofotes após a repercussão de vídeos da influenciadora Gracyanne Barbosa cuidando de um boneco como se fosse um bebê real. A cena dividiu opiniões e gerou dúvidas sobre o que pode motivar esse tipo de vínculo simbólico.

Segundo a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do instituto MaterOnline, há casos em que o apego a bebês reborns está associado a questões emocionais, como a vivência de um luto, frustrações ligadas à maternidade ou um desejo de ser mãe que ainda não foi realizado. “Esse tipo de comportamento pode revelar afetos que precisam ser acolhidos e elaborados com acompanhamento psicológico”, afirma.

Apesar disso, a psicóloga destaca que o vínculo com bebês reborns não substitui a experiência com um bebê real e que, quando esse apego se intensifica, pode indicar sofrimento emocional. “Não é sobre fantasia ou brincadeira. É uma tentativa simbólica de suprir algo que está faltando emocionalmente”, explica. 


Como lidar com esse tipo de apego simbólico?

1) Procure acolhimento psicológico

O acompanhamento com um psicólogo perinatal pode ajudar a compreender os sentimentos envolvidos e a transformar o desejo de maternar em caminhos concretos.


2) Evite julgamentos apressados

A exposição pública desse vínculo pode gerar comentários negativos. Para quem já está emocionalmente fragilizada, isso pode intensificar o sofrimento.


3) Transforme o desejo em plano de ação

Se o desejo de ser mãe está presente, a psicoterapia pode auxiliar no planejamento de uma gestação, no caminho para a adoção ou em outras formas de maternar.


4) Respeite seus sentimentos

Não existe certo ou errado em sentir. O importante é reconhecer o que está por trás desse vínculo e buscar apoio para dar um novo significado à dor.


Vínculo paterno depende da qualidade da presença, explica psicólogo

Cerca de 91 mil crianças foram registradas sem o nome do pai entre janeiro e julho de 2024, segundo a Arpen

 

A figura paterna é fundamental no amadurecimento das crianças. No entanto, entre janeiro e julho de 2024, cerca de 91 mil crianças no país foram registradas sem o nome do pai, segundo a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen). Um dos maiores desafios da paternidade atual é conciliar o exercício da autoridade com o provimento de cuidados afetivo-emocionais à criança.

O contexto pós-feminista e o enfraquecimento do patriarcado trazem novos arranjos, nos quais ambos os parceiros trabalham fora e dividem responsabilidades domésticas e cuidados infantis. Essa transição exige uma ressignificação simbólica dos papéis de pai e marido. Hoje, ser pai demanda engajamento como cuidador afetivo e empático, rompendo com o tradicional papel de simples provedor.

Para Marcos Torati, psicólogo, professor e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, alguns pais confundem afeto com ausência de limites, o que pode sobrecarregar a mãe e gerar impactos negativos para a sociedade e a criança. Nesse cenário, o especialista responde algumas perguntas sobre o lugar da figura paterna na criação de uma criança.


Como a presença ativa do pai pode impactar positivamente o desenvolvimento emocional e social da criança?

MT: Nos momentos de maior dependência, a figura paterna oferece proteção, suporte afetivo e colabora diretamente na maternagem. Já na fase de dependência relativa, este terceiro é reconhecido como uma figura distinta da mãe, ajudando a criança na individualização e a abrir-se ao mundo exterior.

Juntamente com a função materna, seu papel ajuda na internalização de normas sociais e na compreensão dos limites, o que fortalece a autoestima e prepara a criança para enfrentar desafios do processo de socialização. Sua presença ativa favorece também a autonomia da criança como indivíduo, contribuindo para o senso de “nós”, nas relações triangulares, o que amplia as possibilidades do senso de pertencimento ao grupo.

Lembrando que a figura paterna é entendida na psicologia como a funçãosimbólica do pai, seja ela exercida por um pai biológico, avô, tio, padrasto ou qualquer outra figura que seja referência na vida da criança além do cuidador materno.


Quais estratégias ou práticas um pai pode adotar para fortalecer seu vínculo com os filhos mesmo diante de uma rotina corrida ou da distância física?

MT: Um bom vínculo não depende apenas do tempo em quantidade, mas sim da qualidade da presença e do envolvimento genuíno. É necessário que o pai deixe de lado distrações digitais, responsabilidades e se conecte com o universo do filho.

Pequenos gestos possuem grande impacto, como abraços e mensagens carinhosas. Para pais que vivem longe, expressar interesse na rotina da criança e buscar compreendê-la é importante também. A comunicação constante e personalidades afetuosas ajudam a superar os efeitos da rotina exaustiva ou da distância física.


Em casos de ausência ou pouca participação paterna, quais são os efeitos que isso pode ter sobre a criança? Como outros membros da família podem ajudar a preencher essa lacuna?

MT: A ausência paterna afeta a criança diretamente, com possíveis impactos – a depender da relação materna e de outros cuidadores, assim como o ambiente em que a criança vive – como insegurança, dificuldades de socialização, autoritarismo, timidez excessiva, egocentrismo e até mesmo atrasos em seu desenvolvimento, como na fala. Indiretamente, essa ausência sobrecarrega outros cuidadores, o que pode reduzir a paciência e gerar irritabilidade com a criança.

Contudo, a função paterna simbólica pode ser exercida por outros membros da família. Apoiar a criança com amor, estabilidade e proteção é essencial. É importante que os familiares evitem transferir ressentimentos para o menor, preservando sua autoestima e bem-estar emocional. A construção de um ambiente afetuoso e seguro é vital para minimizar os efeitos dessa ausência.


Qual seria o maior conselho para os pais que buscam exercer a paternidade de forma responsável e afetuosa?

MT: Dediquem-se a estar presentes de maneira genuína, estabeleçam limites saudáveis sem abdicar do afeto e busquem compreender o universo emocional de seus filhos. Essa combinação ajuda tanto no amadurecimento das crianças quanto na formação de vínculos saudáveis e duradouros. A função paterna transcende questões biológicas, é, acima de tudo, simbólica e emocional, demandando cuidado, empatia e responsabilidade.

 

Marcos Torati - Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, com especialização em psicanálise (abordagem winnicottiana) e psicoterapia focal. É supervisor de atendimento clínico e professor e coordenador de cursos de pós-graduação em Psicologia e Psicanálise.


Luto perinatal: entenda e como lidar com a perda de um bebê

Crédito: Juan Pablo Serrano
Psicóloga responde às dúvidas mais comuns sobre como lidar com a dor e buscar apoio emocional na perda gestacional, como nos casos de Tati Machado e Micheli Machado

 

Perder um bebê durante a gestação ou logo após o nascimento é uma experiência que envolve mais do que a ausência física. O luto perinatal carrega a interrupção de sonhos, planos e de um futuro já imaginado, além de ser marcado por silêncio e incompreensão. 

Casos recentes, como da apresentadora Tati Machado e da atriz Micheli Machado, deram visibilidade ao tema. Segundo a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, esses episódios destacam a necessidade de práticas humanizadas e de suporte especializado para famílias que enfrentam essa perda. 

A especialista esclarece as dúvidas mais comuns e orienta sobre como lidar com esse momento delicado.

 

1) O que é o luto perinatal?

O luto perinatal ocorre quando há a perda de um bebê durante a gestação ou logo após o nascimento. Ele não se restringe à ausência física, mas inclui também perdas simbólicas, como o luto pelo sexo desejado do bebê, pela impossibilidade de ter o parto planejado ou por dificuldades na amamentação. Todas essas experiências envolvem a interrupção de expectativas e precisam ser acolhidas.

 

2) Como cada pessoa vive o luto perinatal e quando buscar ajuda profissional?

O luto perinatal é uma experiência única e profundamente pessoal. Para algumas pessoas, o processo pode durar semanas, para outras, meses ou até mais tempo. Não há um prazo certo ou errado para lidar com essa perda, já que cada um tem seu próprio ritmo para processar a dor e as mudanças que ela traz. O mais importante é observar como o luto afeta o cotidiano. Se a tristeza começar a interferir na realização de atividades diárias, houver isolamento prolongado ou pensamentos de desesperança, pode ser o momento de buscar apoio especializado. Psicólogos e outros profissionais de saúde mental estão preparados para oferecer acolhimento e suporte durante esse processo.

 

3) Como lidar com a perda de um bebê?

Lidar com a perda envolve validar os próprios sentimentos e dar espaço para que emoções, como tristeza ou culpa, sejam vividas sem repressão. Guardar lembranças do bebê, como roupas ou fotos, pode ajudar a transformar a dor em algo significativo. Apoio psicológico e a participação em grupos de apoio também são fundamentais para auxiliar no processo de superação.

 

4) Quais práticas ajudam a criar uma despedida significativa?

Hospitais humanizados permitem que os pais vejam e segurem o bebê, caso desejem, e oferecem a opção de guardar recordações, como fotos, a marca do pezinho ou um pedacinho de cabelo. Essas ações ajudam a dar sentido à despedida. Em países como a Inglaterra, berços refrigerados são usados para que os pais possam passar mais tempo com o bebê antes do sepultamento.

 

5) Como os hospitais podem acolher melhor famílias enlutadas?

Separar mães que enfrentaram perdas de alas onde estão bebês recém-nascidos é uma medida fundamental para reduzir o sofrimento. Além disso, o acolhimento humanizado, com profissionais capacitados e tempo adequado para a despedida, pode aliviar a dor das famílias.

 

6) O pai também sente o luto?

Sim, e ele precisa ser incluído no processo. Muitas vezes, o pai é pressionado a ser "forte" para apoiar a parceira, mas ele também vivencia a perda e necessita de espaço para expressar sua dor. O apoio mútuo no casal é essencial para fortalecer a relação e facilitar a superação.

 

7) Existem outros tipos de luto no período perinatal?

Sim. Além da perda física, o luto pode surgir em situações como receber um diagnóstico inesperado, descobrir que o sexo do bebê não era o desejado ou não conseguir amamentar. Essas perdas simbólicas também geram sofrimento e merecem acolhimento.

 

8) Por que evitar frases que minimizem a dor da perda?

Frases como “foi melhor assim” ou “Deus quis dessa forma” podem parecer inofensivas, mas invalidam os sentimentos de quem está enfrentando a perda. É importante oferecer escuta atenta, sem julgamentos, e respeitar o momento de luto.

 

9) Por que é importante falar sobre luto perinatal?

Casos como o de Tati Machado e Micheli Machado mostram como o luto perinatal é mais comum do que se imagina. Discutir o tema ajuda a romper tabus, validar o sofrimento das famílias e incentivar práticas de acolhimento mais empáticas e humanizadas.

 

Profª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo - psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil. Possui graduação em Licenciatura Plena em Psicologia e em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Além disso, concluiu seu mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e doutorado em Saúde Coletiva pela mesma instituição. Realizou seu pós-doutorado na UNESP/Bauru, integrando o Programa de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Desenvolvimento Humano, atuando principalmente nos seguintes temas: Desenvolvimento pré-natal e na primeira infância; Psicologia Perinatal e da Parentalidade.


Pertencer cura: o poder da comunidade em tempos de exaustão emocional


Vivemos em uma era de conexões instantâneas, mas relações cada vez mais frágeis. A promessa de estarmos o tempo todo “conectados” esconde uma realidade silenciosa: nunca estivemos tão solitários, tão cansados, tão emocionalmente sobrecarregados. Como mulher, mãe e empreendedora, eu também já me vi nesse lugar. E foi testemunhando essa realidade, depois de um período conturbado, que nasceu o desejo de criar um espaço onde as pessoas pudessem se reconectar, não com algoritmos, mas com o que realmente importa. 

O R.evolution Club nasceu da minha busca pessoal, mas logo se transformou em algo maior. Descobri que o que me fazia sentir viva era estar cercada por conexões verdadeiras. Onde a escuta fosse sincera, o cuidado fosse coletivo, e o afeto, uma prática diária. E percebi que, assim como eu, muitas pessoas estavam sedentas por isso: por vínculos reais. 

Pertencer cura. Cura porque nos devolve a sensação de sermos vistos, ouvidos e acolhidos. Cura porque nos tira da lógica da comparação constante, da autossuficiência forçada, e nos convida à vulnerabilidade compartilhada. Cura porque nos lembra que a vida é feita em rede, e que ninguém floresce sozinho. E talvez, mais do que nunca, precisamos lembrar disso. 

Vivemos em um tempo em que a produtividade virou medidor de valor, e onde a autoimagem se sobrepôs à autenticidade. Mas o que acontece com o ser humano quando ele é reduzido a uma performance? Adoece. Desconecta-se. E sente que precisa dar conta de tudo, mesmo quando está quebrado por dentro. 

Na comunidade do R.evolution, temos testemunhado outra narrativa. Pessoas que chegam em silêncio e, aos poucos, voltam a confiar na vida. Profissionais que reencontram sentido ao exercer seus dons com propósito. Gente que compartilha suas dores e, ao fazer isso, permite que o outro se reconheça e se sinta menos só. Histórias que se entrelaçam e se curam mutuamente. Não por mágica, mas por presença. 

Não se trata de oferecer respostas prontas, mas de criar espaços de escuta, de pertencimento, de pausa. Porque muitas vezes o que mais precisamos não é de mais um curso, mais um conteúdo ou mais um plano. É de alguém que nos olhe nos olhos e diga: “eu estou aqui”. Alguém que segure nossa mão quando esquecemos como caminhar. 

Pertencer é saber que você tem um lugar. Que você importa. Que suas dores, alegrias, dúvidas e incertezas são bem-vindas. É por isso que eu acredito tanto na construção de comunidades verdadeiras. E é por isso que o R.evolution não é apenas uma plataforma, é um espaço vivo de reconexão, onde tecnologia serve à alma, e onde o cuidado é valor central. 

É por isso que criamos o R.evolution como uma plataforma viva, um ecossistema digital que aproxima em vez de afastar. Onde a tecnologia existe para servir ao que é mais humano: o cuidado, a escuta, a presença. Através dela, conectamos pessoas a profissionais, experiências e saberes que promovem saúde integral, pertencimento e bem viver. Não se trata de estar online o tempo todo, mas de estar conectado, de verdade, com o que nos aproxima e nos transforma. 

Em tempos de exaustão emocional, construir comunidade é mais do que necessário, é revolucionário. E mais do que redes sociais, precisamos de redes humanas. Feitas de gente que sente, escuta, acolhe e se importa. Redes onde não é preciso estar sempre forte, e onde ser vulnerável é permitido. 

É nisso que eu acredito. E é por isso que sigo: por um mundo onde cuidar e ser cuidado seja um gesto cotidiano e coletivo. Porque no fim, é no encontro com o outro que voltamos a nos lembrar de quem somos. 



Luiza V. Figueira de Mello - Jornalista, mãe e empreendedora de impacto. Fundadora do R.evolution Club, criadora do Revolution Fest e idealizadora do Polo Pindorama.
R.evolution Club
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Instagram: @r.evolution_club


Amor: As lições que não aprendemos na escola

Segundo um levantamento feito pela Zenklub, plataforma de bem-estar mental, em 2022, 15% das pessoas entrevistadas afirmaram procurar a terapia por conta da busca pelo autoconhecimento.

Isso porque não fomos educados para lidar com nossas emoções. Desde crianças nos ensinam, em casa ou na escola, a nos comportar socialmente como pessoas “educadas” e a agir dentro de nossos papeis sociais definidos. Porém, não somos ensinados a lidar com emoções como medo, ansiedade, nem mesmo com a alegria. 

Mas o fato é que não nascemos sabendo lidar com emoções e com o que se passa dentro de nós. E, por desconhecermos isso tudo, acabamos seguindo pela vida negando ou escondendo o que sentimos. Passamos a ter receio das nossas emoções, a desconfiar delas e a acreditar que nos atrapalham. 

 

Como ficam as relações amorosas no meio deste cenário?

Uma pesquisa realizada pela Ipsos em 2025, intitulada Love Life Satisfaction Index, apontou que o Brasil é um dos países menos satisfeitos com a vida amorosa dentre os latino-americanos, estando atrás de países como Chile, Argentina, Colômbia e México (que lidera o ranking).

Por isso, já é tempo de pensarmos em uma Pedagogia dos Afetos. Além da dificuldade em lidar com o sentir, a maior parte das pessoas vive acreditando na versão do amor idealizado. Hoje fala-se com naturalidade sobre o amor e seu caminho em direção à rotina. “Isso é normal, o amor é assim mesmo.”, dizem. Ou: “No começo é assim mesmo, depois cai na rotina”. 

Isso até pode ser verdade. Mas em muitos casos, talvez até na maioria deles, esse “esfriamento” se traduz em decepções que não são transformadas nem resultam numa evolução da relação ou das pessoas envolvidas. Um cenário onde decepções se desdobram em mágoas, raiva, ressentimentos e no qual, com o tempo, aquele amor inicial resseca e vai perdendo a sua seiva.

A missão do amor, além de gerar prazer e alegria de viver, é o autoconhecimento. Não fomos ensinados sobre essa missão. Precisamos que seja cada vez mais comum e prazeroso falar do amor como um caminho de conhecimento de si mesmo e ampliação da potência pessoal de realização.

É preciso que cada vez mais a gente aprenda sobre o amor com essa naturalidade que antes não existia e não sabíamos ser possível - o amor como experiência de crescimento pessoal compartilhado.

O amor possui forte capacidade de nos fazer ter mais consciência a respeito de nós mesmos, a partir das emoções que a pessoa amada nos provoca. Poderemos elaborar emoções difíceis e maravilhosas nos tornando mais livres e potentes. Por isso, o amor não é uma questão de sorte. Aprender sobre ele e sobre o nosso sentir é fundamental para nos realizarmos na vida, o que é a potência do próprio amor.

 

Lygia Franklin de Oliveira - co-fundadora do 639 App, astróloga, taróloga e psicoterapeuta em exercício há 28 anos


As telas são as novas chupetas dos bebês e das crianças?

Ilustração

Cenas de crianças pequenas entretidas por celulares e tablets se tornaram cada vez mais comuns, seja em restaurantes, salas de espera ou até no berço. A praticidade da tecnologia, muitas vezes usada como forma de acalmar ou distrair os bebês e as crianças, tem levantado um importante alerta entre educadores e especialistas em desenvolvimento infantil: estariam as telas assumindo o papel de uma nova “chupeta digital”?

Para Rogéria Sprone, especialista em Ensino e Educação, com mais de 30 anos de experiência na área e atual diretora pedagógica do Colégio Joseense, em São José dos Campos/SP, a metáfora e válida. “A tela pode acalmar momentaneamente, mas não ensina a criança a regular emoções, lidar com as frustrações ou construir relações. Quando usada como substituto do afeto ou do contato humano, podemos ter um comprometimento dos aspectos fundamentais do desenvolvimento neurológico e emocional”.

A neurociência tem mostrado que os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento das conexões neurais, especialmente nas áreas ligadas à linguagem, cognição e habilidades socioemocionais. Experiências concretas, como o contato visual, o toque, a fala e o brincar, ativam múltiplas áreas do cérebro e promovem o amadurecimento saudável das funções executivas, capacidades que envolvem atenção, memória de trabalho e autorregulação.

“O uso excessivo de telas, principalmente antes dos 2 anos de idade, reduz significativamente o tempo dessas experiências essenciais. A criança que passa horas exposta a estímulos passivos e hiperestimulantes tem menos oportunidades de desenvolver empatia, pensamento crítico, criatividade e resolução de problemas”, explica Rogéria, que também é especialista em psicopedagogia e neuroaprendizagem.

Estudos da Academia Americana de Pediatria (AAP) e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomendam evitar completamente o uso de telas para crianças menores de 2 anos, e limitar a exposição para as maiores, sempre com supervisão e intenção educativa. No entanto, segundo a educadora, a realidade ainda está longe dessa diretriz. “Vivemos uma naturalização da tela como solução fácil para o tédio, o choro e a agitação, quando, na verdade, isso deveria ser sinal de atenção e não de distração automática.”

A pergunta não é apenas se as telas estão ocupando o lugar da chupeta, mas o que estamos deixando de oferecer em troca. Precisamos formar crianças emocionalmente fortes, e isso exige presença, escuta e tempo de qualidade.

Solidão materna na velhice precisa estar no radar das famílias



Quase 20% das mulheres da América Latina enfrentam solidão na maturidade; assunto ainda é pouco explorado

 

A solidão na maturidade é uma realidade ainda invisibilizada, embora já seja considerada um problema de saúde pública pela OMS (Organização Mundial de Saúde), atingindo 18,8% das mulheres da América Latina, segundo dados coletados no último Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia.

Um estudo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública da ENSP/Fiocruz indicou que, no Brasil, a sensação de solidão começa ainda mais cedo: 16,8% das pessoas com mais de 50 anos sentem-se sós o tempo todo, e 31,7% às vezes - sendo ainda mais forte em mulheres com 60 anos ou mais.

” Com os filhos crescidos, cuidando das próprias vidas, essas mulheres se veem sem uma função social nesse núcleo familiar e isso acaba afetando sua saúde emocional, gerando uma crise existencial, por isso, é importante que os filhos olhem para isso com carinho”, explica a diretora pedagógica do Supera, Patrícia Lessa.

 

A  solidão na maturidade  atinge uma parcela significativa de idosos que sofrem por falta de conexão com um grupo humano. A falta de companhia e de relações de qualidade tem impacto no desempenho dos idosos no dia a dia. O isolamento social tem sido identificado como um fator de risco para o desenvolvimento de demências como o Alzheimer.

“Essa sensação de solidão reflete num estilo de vida inativo e falta de estímulos cerebrais, gerando um ambiente interno favorável ao desenvolvimento de demências. O ser humano precisa estar cercado de gente, com relações de afeto sólidas para que o corpo todo - e o cérebro em especial - consiga funcionar adequadamente, é biológico”, avalia Patrícia.
 

Especialistas alertam que não se trata, apenas, da quantidade de interações que a pessoa tem, mas é a qualidade dessas relações que vai evitar os sentimentos de angústia e medo nos idosos. Quando se fala em conexão social é preciso considerar a estrutura, ou seja, o número de interconexão e rede de apoio, e a qualidade, isto é, a oferta de infraestrutura e afetos na rede.

 

Campanha ressignifica papéis familiares abordando solidão materna

O Supera, empresa educacional de estimulação cognitiva, escolheu um mote inusitado para a campanha de Dia das Mães 2025: “até as mães se sentem sozinhas, mas é no despertar da mente que a transformação começa” é a mensagem que dá o start em toda a narrativa.

“Partimos da ideia de que a maternidade é, por si, transformadora e também se transforma com o passar do tempo. Quando os filhos crescem e seguem seus caminhos, surgem novos desafios: o reencontro consigo mesma, a busca por novos propósitos e o desejo de continuar sendo um porto seguro, mesmo à distância. Esse foi o nosso ponto de partida”, explica a analista de branding do Supera, Giovana Richieri.

O filme da campanha ainda busca sensibilizar o público para a temática da solidão na maturidade. Fechando o vídeo, a mensagem “existem presentes que não se embrulham. O cuidado que começa hoje dura para sempre” reforça o papel da estimulação cognitiva como medida de prevenção de demências e promoção da qualidade de vida para mães idosas.

“Nossa comunicação parte da ideia de que a velhice é, apenas, mais uma etapa do desenvolvimento humano. Acreditamos que todos estamos em um processo contínuo de envelhecimento e a longevidade precisa ser tratada com seriedade e estratégia”, resume a vice-presidente da instituição, Bárbara Perpétuo.

 

Clique aqui para conferir o vídeo da campanha.


O mito da resiliência

Resiliência é um termo usado em várias áreas, como a Psicologia, por exemplo, mas o conceito deriva da Engenharia de Materiais. Um material resiliente não se caracteriza apenas por sua capacidade de resistir a fortes pressões e sobrecargas, mas, sobretudo, consegue retomar a sua forma original quando a pressão deixa de existir. Resiliência, então, inclui a capacidade de suportar, manter e recuperar a função em situações de estresse e sobrecarga. Montar um sistema resiliente é projetar algo complexo, que tolera e se recupera em situações que tudo pode entrar em colapso. Na Pandemia, o Isolamento Social foi uma forma de preservar a Resiliência do Sistema de Saúde. Se todos fossem infectados pela Covid – 19 ao mesmo tempo, o sistema não teria capacidade de absorver a demanda e as pessoas morreriam sem ter acesso aos cuidados o que, em alguns períodos e locais, acabou acontecendo. Os negacionistas diziam que a quarentena não impediria a propagação do vírus, o que era verdade, mas a ideia era proteger a Resiliência do sistema, e isso acabou ocorrendo. 

Na vida profissional e no Mundo Corporativo, Resiliência é um mantra e uma busca dos profissionais de RH. O seu significado é a adaptabilidade do profissional em situações de maior ou menor carga de trabalho e de estresse nas tarefas. O desejado profisional resiliente se adapta a mudanças abruptas de exigências e de condições de trabalho e entrega, no final, o resultado que era esperado. Certo? Nem sempre. 

Nassim Taleb é um economista, escritor e livre-pensador contemporâneo que escreveu alguns livros que eu admiro, um deles seminal, o “Anti-Frágil”. Quem toma contato com esse termo se engana, porque ele é mesmo um pouco infeliz. Anti-fragilidade lembra uma brigada de administradores caçando funcionários  molengas e chorões para suas listas de demissão. Não é isso. Ser anti-frágil é construir uma Resiliência sustentável a partir do cuidado com a própria fragilidade. E não é isso que as pessoas fazem quando tentam ser resilientes. 

Com a resolução NR – 1 as empresas terão a atribuição de cuidar da Saúde Mental de seus colaboradores. Uma consequência direta, lamento falar, vai ser uma caça silenciosa aos funcionários que não são resilientes, “que não seguram a onda”. A anti-fragilidade aqui vai ser exercida em sua acepção errada, que será a tentativa de selecionar no ambiente corporativo quem supera as dificuldades sem Burnouts, Depressões ou crises de Ansiedade. Muita gente que já escondia suas dificuldades vai ter que esconder mais ainda suas olheiras e colocar uma máscara de equilíbrio e saúde mental impoluta. Ou a empresa pode ser penalizada. Mas é lógico que essa resolução é um avanço. Colocar uma lupa nas condições de trabalho e de carga de estressores dos colaboradores abre novas e promissoras possibilidades. Mas precisa ser bem feito. E essa maneira top-down de uma mudança da legislação vai criar muitos sistemas de proteção para inglês ver, se me perdoam o excesso de realismo. 

O culto à Resiliência leva, necessariamente, a uma epidemia de Burnouts, afastamentos e adoecimentos da equipe em geral. A Resiliência que é cultivada é uma forma extrema de enduro, de resistência: quem aguenta varar mais noites, quem tolera exigências absurdas e descabidas de chefes despreparados, quem se adapta a diretrizes e prioridades que mudam como uma biruta ao vento. Resistir ao ambiente por vezes caótico do trabalho é uma virtude e um diferencial a ser cultivado, sim. Mas criar um sistema anti-frágil significa muita atenção aos elos fracos da corrente, que podem sucumbir. Um setor onde se batem recordes de afastamentos e turnover de funcionários é um setor Frágil. Colocar a culpa nas pessoas, que “não dão conta” é não só uma covardia como uma imensa burrice. Além de custar dinheiro. E muito dinheiro. 

Criar funcionários anti-frágeis é ensinar para eles que cuidar do sono, da alimentação, de exercícios físicos, é uma forma de proteger a própria fragilidade. O seu corpo e sua mente são seus instrumentos de trabalho. Descuidar deles é como um violinista que não afina seu violão. Ter regras claras e capacidade de previsibilidade do que vai acontecer e de que jeito também é uma forma de criar um sistema anti-frágil. O sistema fica realmente potente quando passa a tirar proveito das dificuldades. Como diria Nietzsche, “O que não me mata me torna mais forte”. Essa é a tarefa mais difícil e mais promissora: criar um sistema que prospera no meio da adversidade, pois, em nosso país, não há outra opção. 

 

Marco Antonio Spinelli - médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress - o coelho de Alice tem sempre muita pressa”.


Você tem um trauma? 5 dicas para começar a cuidar de traumas emocionais

Feridas emocionais podem estar afetando sua vida e nem sempre você percebe. Saiba como reconhecer os sinais e buscar ajuda 


Uma palavra, um cheiro ou um som. Às vezes, é tudo o que basta para acionar uma lembrança antiga e fazer o corpo reagir com medo, angústia ou paralisação, mesmo que a ameaça já tenha passado. Isso acontece porque traumas, ainda que silenciosos, permanecem registrados no cérebro e no corpo. E, quando não tratados, podem comprometer nossa saúde mental, relações pessoais e decisões cotidianas.
 

A psicóloga Cristiane Pertusi, especialista em EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por meio de Movimentos Oculares), explica que traumas não são apenas grandes tragédias. Situações aparentemente “simples”, como críticas constantes, bullying escolar, abandono emocional ou separações, também podem deixar marcas profundas. 

“Muitas pessoas carregam traumas sem saber. Elas apenas sentem que algo as bloqueia, sabota ou impede de viver com leveza. O trauma é como um nó que precisa ser desfeito com segurança e respeito”, diz a Dra. Cristiane. 

O trauma é uma resposta emocional a um evento que o cérebro interpretou como ameaçador, seja ele real ou simbólico. Pode ser o resultado de acidentes, perdas, violências, negligência ou situações repetitivas de medo e insegurança. Quando o cérebro não consegue processar essas experiências adequadamente, elas ficam “presas”, causando sintomas como:

  • Ansiedade recorrente
  • Dificuldade de confiar em pessoas
  • Medo de rejeição ou abandono
  • Procrastinação crônica
  • Raiva explosiva ou apatia emocional
  • Dores físicas sem causa aparente 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada cinco pessoas no mundo será impactada por um transtorno psicológico ao longo da vida, e grande parte desses quadros tem origem em traumas não tratados.

A terapia EMDR tem se mostrado uma das ferramentas mais eficazes no tratamento de traumas. Criada nos Estados Unidos e validada por instituições como a OMS, o EMDR atua diretamente nas memórias traumáticas por meio de estímulos bilaterais, como movimentos oculares guiados, sons alternados ou toques.

“O EMDR ajuda o cérebro a ‘digitar de novo’ aquela lembrança, mas agora com os recursos e a consciência que a pessoa tem no presente. É como atualizar um arquivo emocional que estava corrompido”, explica a psicóloga.

A técnica pode ser usada em casos de traumas complexos (vividos na infância, por exemplo), traumas recentes, fobias, ansiedade, bloqueios emocionais e até no luto. Muitos pacientes relatam alívio significativo logo nas primeiras sessões.


Como saber se você carrega um trauma emocional?

Dra. Cris explica que nem sempre o trauma aparece de forma clara. Às vezes, ele se manifesta por meio de padrões repetitivos: relações que não funcionam, autoimagem negativa, sensação constante de inadequação ou autocobrança excessiva. “Quando uma situação pequena provoca uma reação emocional desproporcional, é sinal de que há algo antigo pedindo cuidado”, afirma.


Dicas para começar a cuidar de traumas emocionais

  1. Preste atenção aos gatilhos: Observe situações que te deixam desproporcionalmente irritado, ansioso ou paralisado. O que pode estar por trás dessa emoção?
  2. Respeite sua história: Evite frases como “isso já passou” ou “foi bobagem”. O impacto do trauma está em como o cérebro o registrou, não no que os outros acham que foi.
  3. Busque ajuda profissional: Terapias como o EMDR podem ser decisivas na reconstrução emocional. Um profissional especializado pode ajudar a acessar, processar e ressignificar essas memórias.
  4. Evite o isolamento: Traumas tendem a provocar retraimento social. Manter vínculos afetivos é importante para a recuperação
  5. Seja gentil com você: Curar um trauma leva tempo. Cultivar a autocompaixão é parte do processo.

Traumas não são fraquezas são respostas humanas a experiências difíceis. Ignorá-los pode ser mais perigoso do que enfrentá-los. Com cuidado, escuta profissional e ferramentas terapêuticas como o EMDR, é possível romper ciclos de dor e construir uma vida mais leve, segura e autêntica.


Sexo em tempos de IA e redes sociais: estamos mais conectados ou mais distantes?

Sexóloga Natali Gutierrez analisa como a tecnologia influencia o desejo e as relações humanas 

 

Vivemos a era da hiperconexão. Redes sociais, inteligência artificial e aplicativos de relacionamento ocupam cada vez mais espaço na rotina e nos afetos. Mas em um cenário onde o "match" é instantâneo e os estímulos são constantes, surge uma dúvida essencial: estamos realmente mais próximos ou cada vez mais distantes?

Para a sexóloga e CEO da Dona Coelha, Natali Gutierrez, o avanço tecnológico transformou profundamente a forma como as pessoas se relacionam, se desejam e vivenciam o prazer. "O sexo hoje não depende mais apenas do corpo a corpo. A tecnologia trouxe novas formas de excitação, flerte e até mesmo intimidade. Mas, ao mesmo tempo, essa abundância de estímulos pode nos afastar da conexão real com o outro — e, principalmente, de nós mesmos", afirma.

Segundo Natali, o excesso de comparação nas redes sociais e a rapidez dos aplicativos podem gerar um ciclo de insatisfação constante, afetando diretamente a autoestima e o desejo. “É uma lógica de consumo que também se estende às relações. Quando tudo está a um clique, o descartável se torna a regra e o aprofundamento emocional fica em segundo plano”, explica.

Além disso, com o crescimento da inteligência artificial, novas experiências estão sendo integradas ao universo sexual — de brinquedos conectados a assistentes virtuais de afeto. Para Natali, essas inovações têm o potencial de enriquecer a vida íntima, desde que venham acompanhadas de autoconhecimento e diálogo. “A tecnologia não é vilã. Ela pode ser aliada do prazer, desde que a gente saiba usá-la para ampliar a conexão — e não para substituí-la”, destaca.

Como fundadora da Dona Coelha, sextech referência no Brasil, Natali observa uma crescente busca por experiências sensoriais que vão além do digital. “A tendência do momento é o prazer com presença: mais toque, mais olho no olho, mais escuta. A tecnologia pode abrir caminhos, mas a verdadeira revolução está em resgatar a intimidade com consciência e verdade.”

 

A vida impermanente: mudanças de hábitos que irão moldar a sociedade nos próximos anos

 De acordo com estudo realizado pela consultoria Neura, setores como alimentação, saúde e mobilidade são afetados por novos costumes

 

Pensando em garantir um amanhã menos resistente a mudanças é que a Neura, consultoria de estudos comportamentais e porquês, utiliza a pesquisa proprietária, A Permanência da Impermanência, para mapear o impacto do conceito nas diferentes esferas da vida. Com a transformação dos hábitos da sociedade, que pensa em viver mais e melhor, a consultoria reforça como a impermanência pode ser aplicada nas esferas da saúde, moradia, trabalho, mobilidade e alimentação, transformando a forma como a população enxerga a existência como um todo.

 

Segundo o estudo, realizado em 2024 e em parceria com a PiniOn, plataforma de levantamentos com mais de 3 milhões de usuários, 80% da população acredita que é possível se preparar para viver mais e melhor, mas apenas 4% das pessoas relatam que sempre se planejaram para isso. A pesquisa também traz análises e reflexões sobre o desafio de diminuir a influência de termos perenes, como envelhecimento e longevidade, e potencializar o termo Impermanência nas vidas, negócios e marcas. 

 

“Precisamos entender e discutir sobre esse conceito. Apesar do termo não ser muito usado atualmente, ele está presente em tudo e será cada vez mais difícil ignorá-lo. Entender e aceitar a impermanência nos ajuda a refletir sobre como é possível impactar pessoas e organizações para um amanhã menos resistente a mudanças e, assim, trazer uma nova maneira de enxergar a vida, a sociedade e a forma como consumimos”, afirma Andre Cruz, fundador e CEO da Neura e expert em Neurociência e Comportamento. 

 

Como resultado, a análise traz insights e reflexões sobre o impacto da impermanência nas diferentes áreas da vida do indivíduo, demonstrando algumas alterações de hábitos que irão moldar o comportamento social nos próximos anos. São elas:

 

  1. A saúde impermanente:

No  novo modelo desse coletivo, o levantamento revela que a saúde estará muito relacionada com a prevenção e os tratamentos personalizados para cada necessidade e fase da vida, levando em conta necessidades  física, mental e social do ser humano. Nesse contexto, algumas inovações intensificam a saúde impermanente:


  • Saúde regenerativa: reavaliação e restabelecimento de hábitos constantemente;
  • Saúde remota: exploração da telemedicina como democratizador da área;
  • Saúde monitorada: uso de novas tecnologias para acompanhamento contínuo e profundo;
  • Saúde holística: considerando o ser humano como um todo (físico, mental, social etc) e integrando essas diferentes áreas para o tratamento - que interagem entre si (medicina, psicologia, nutrição, etc);

 

2.          Moradia impermanente:


“Tudo o que falamos aqui é sobre adaptação e, nesse caso, não seria diferente. Os cômodos mudam de uso, as pessoas alteram as vontades e os moradores podem mudar também. Com isso em mente, surgem opções diferentes para cada necessidade - moradias compartilhadas, sob demanda, intergeracional, multifuncional e assistida”, completa Cruz. 

 

3.          Trabalho impermanente:


Esse conceito, de acordo com o estudo, traz sistemas mais flexíveis, adaptáveis e menos hierarquizados. Com foco em colaboração, equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, cuidado com a saúde mental e aprendizado constante, o modelo permite a diversidade de gerações, adaptabilidade para sistemas remotos, autonomia dos profissionais e dinamismo. “Precisamos garantir que as pessoas participem ativamente na construção dessa nova ordem”, comenta Andre Cruz. 

 

4.          Mobilidade impermanente:


Tendo em vista as necessidades coletivas, segundo o levantamento, essa área traz mais acessibilidade, sustentabilidade e democratização. “Em um cenário de consolidação da vida urbana com seus respectivos problemas de custos e impacto cada vez mais complexos na vida social, a mobilidade do futuro precisa ser mais limpa, coletiva, sustentável e acessível, garantindo o direito básico de ir e vir de todo cidadão. Isso é sobre investir em conexão humana. É hora de criar espaços para discutir como desenhar o futuro e não ignorar o que vem pela frente”, acrescenta o CEO.

 

5.          Alimentação impermanente:


Com tendências como qualidade, consciência e sustentabilidade, esse modelo busca mais equilíbrio e pensa em melhorar, a longo prazo, o padrão de vida da população. “Neste aspecto é importante falarmos também sobre a personalização. Cada organismo responde de forma diferente e absorve os alimentos de maneiras distintas, por isso, precisamos reforçar que, como tudo na impermanência, a comunidade será moldada pela adaptação”, complementa Andre Cruz. 

 

Por fim, o CEO ainda ressalta que além da impermanência poder ser aplicada em todas as esferas da vida e que, com os avanços tecnológicos e a mudança da necessidade da população, ela está cada vez mais presente. “Entender as diferentes maneiras de encarar a existência é o primeiro passo para começar a mudar hábitos e se desprender das antigas amarras da vida. A sociedade mudou e, agora, exige uma nova dinâmica cultural que não pode ser ignorada. A vida não é uma linha contínua, mas sim uma jornada. A morte não é apenas o nosso ponto de chegada. Somos diferentes, impermanentes e flexíveis e, por isso, precisamos nos permitir viver o momento e aceitar as mudanças”, finaliza Andre Cruz. 

 


Neura
Mais informações acessar o site da organização.


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