A saúde mental de quem passa pelo luto antes ou logo após o
parto segundo a neuropsicologia
O caso ocorrido nos últimos dias com a apresentadora e
jornalista carioca Tati Machado, que perdeu seu bebê na reta final de sua
gestação, com pouco mais de 33 semanas gerou comoção e abriu uma fresta sobre
como a mente humana processa esse tipo de perda. A neuropsicologia mostra o que
pode acontecer com a saúde mental das mães que perdem seus bebês antes ou logo
após o parto.
“Perder um bebê na reta final da gestação ou logo que essa
criança vem ao mundo é uma ruptura abrupta entre expectativa e realidade. A
mulher já ouviu o coração do bebê, já preparou o enxoval, já se imaginava
embalando seu filho. Nesse momento, não se perde só um bebê — perde-se um
futuro inteiro imaginado, um vínculo visceral que já estava formado. É o luto
de um colo que ficou vazio, de um corpo que ainda pulsa vida, mas já não abriga
o que mais sonhava", afirma a neuropsicóloga Carol Mattos, especialista em
comportamento humano.
Revivendo a dor
“É uma dor imensurável. Estou tão triste em saber que a Tati
perdeu seu bebê, a gente revive tudo de novo. É uma dor que não se explica”,
disse a arquiteta Graziela Gazaro, que perdeu seu filho Gabriel com 27 semanas
de gravidez em 2019.
Ela conta que foi identificado num dos exames morfológicos
que ele sofria de uma síndrome genética rara e uma cardiopatia severa. “Eu e
meu marido estávamos saudáveis, fizemos todos os exames genéticos, mas
infelizmente aconteceu.
Quando ele fez 27 semanas de vida, o coraçãozinho do meu
filho parou de bater. Meu mundo acabou, achei que entraria em depressão. Uma
mãe perder um filho, em qualquer fase da vida, é uma dor que não tem cura”,
disse Graziela, que dois anos depois teve mais dois abortos.
As perdas causaram mudanças profundas na arquiteta. Ela, que
em 2024 vivenciou outra dor ao perder o marido, afirma que ainda hoje tenta
processar todas essas situações tão sofridas: “A gente não vive, sobrevive após
a perda de um filho. Ainda não estou curada dessa dor, sempre lembro dele.
Entrei na maternidade, passei por um trabalho de parto extenuante de mais de 24
horas e sai de lá sem meu bebê nos meus braços. Ainda não consegui doar as
roupinhas dele, mas trabalho isso dentro de mim pois não sou apegada a bens
materiais, mas vou precisar de apoio quando for fazer isso”, finalizou.
A perda perinatal — que inclui a morte fetal tardia e o
falecimento do recém-nascido nos primeiros dias de vida — é uma das
experiências mais devastadoras que uma mulher pode enfrentar.
Seus efeitos vão muito além da dor imediata: ela pode
desencadear transtorno de estresse pós-traumático, depressão pós-parto (mesmo
sem o bebê nos braços), ansiedade persistente, distúrbios do sono, crises
existenciais profundas e um esmagador sentimento de culpa e fracasso.
Muitas mães relatam a sensação de terem falhado em seu papel
mais essencial, enfrentando o silêncio social que muitas vezes minimiza ou
ignora sua dor. O luto perinatal é real, complexo e, infelizmente, ainda
invisibilizado — o que torna o suporte psicológico, familiar e profissional não
apenas importante, mas urgente.
“Do ponto de vista neuropsicológico, o cérebro da gestante
já havia se adaptado para o vínculo: havia alterações hormonais, sinapses
preparadas para o cuidar. Com a perda, o cérebro entra em disritmia emocional,
desorganizando, inclusive, as funções básicas de sono, apetite e a tomada de
decisões”, afirma a especialista.
Dados
Em 2023, segundo dados do Painel de Monitoramento da
Mortalidade Infantil e Fetal, do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 20,2
mil mortes infantis e fetais por causas evitáveis, o menor número desde 1996.
Isso representa uma redução de cerca de 62% em comparação com os 53,1 mil
óbitos registrados naquele ano.
As mortes evitáveis são aquelas classificadas como as que poderiam ser barradas por ações de imunoprevenção, adequada atenção à mulher na gestação e parto e ao recém-nascido ou diagnósticos corretos, por exemplo.
Dados da Unicef apontam que o número de mortes de menores de
cinco anos no mundo diminuiu para 4,8 milhões em 2023, enquanto os natimortos
permaneceram em torno de 1,9 milhão, de acordo com dois novos relatórios da
ONU.
Dor que não cessa
“Tenho gatilhos até hoje. Não posso, por exemplo, ver
camisola de hospital estampada. Passei por três psicólogos, o último, homem,
foi o que mais me entendeu e acolheu, pois sofro de estresse pós traumático e
ainda estou em tratamento”, disse a geógrafa Fernanda Fontebassi que no final
de 2022, após uma gravidez muito saudável, perdeu seu filho Nuno com 38
semanas.
“Fui para um pré-natal e dois dias depois comecei a sentir
contrações, fui para o hospital e tudo aconteceu. Fui aconselhada por uma
enfermeira e pedir minha alta hospitalar para me recuperar em casa, e foi o que
eu fiz.
Porém, me deparei com uma equipe despreparada que não
solicitou o acompanhamento psicológico. O baque mesmo foi quando cheguei em
casa; foi tenebroso, eu só chorava, e a maior tortura foi que meu leite desceu
e só secou depois de 3 meses. Após passar por 11 médicos, ninguém conseguiu
descobrir o que realmente eu tive, tanto que hoje participo de um estudo no
Hospital das Clínicas de São Paulo. Coletaram minha placenta, meu sangue e do
meu bebê, fizeram necrópsia nele e nunca detectaram o que aconteceu”, disse a
geógrafa que também passou por mais dois abortos após essa gestação.
Após 10 meses, Fernanda deu a luz a Bento, hoje com 1 ano.
“Infelizmente, muitas pessoas, tentando me consolar – com a melhor das
intensões - após essa perda me dizem: ‘ah, mas você tem o Bento agora’, mas um
filho nunca anula o outro, essa é uma dor muito silenciosa que parece que após
um tempo não temos mais o direito de sentir. Como tive os outros abortos, sei
que a experiência de perder um filho com 38 semanas é muito diferente”, disse
Fernanda.
A importância do luto reconhecido
“Nossa sociedade tem dificuldade em validar o luto
gestacional. Assim como a Fernanda e a Graziela, muitas mulheres ouvem frases
como: “você é jovem, logo terá outro” — como se pudesse haver uma
“substituição” de um filho por outro. Validar essa dor é fundamental para a
reconstrução do eu materno. Não se trata de seguir em frente como se nada
tivesse acontecido, mas de aprender a seguir em frente com o que aconteceu”,
disse.
O que oferecer a uma mãe em luto pela perda de um filho?
Mais do que palavras, ofereça presença genuína e silenciosa,
sem julgamentos ou expectativas. Evite frases prontas como “você é forte” ou
“tudo acontece por um motivo” — elas podem ferir mais do que confortar. Em vez
disso, esteja disponível para ouvir com empatia, mesmo quando o silêncio for
tudo o que ela tiver para compartilhar. Reconheça que o luto materno é uma
jornada íntima e intransferível, que não tem prazo de validade nem um roteiro a
seguir. Algumas mães precisam falar mil vezes sobre o que viveram; outras,
apenas respirar. Todas, porém, precisam de um mundo que respeite sua dor sem
tentar apressar sua cura. O apoio mais valioso que você pode oferecer é o de
validar sua perda, seu amor e seu direito de sentir.
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