Recentemente, foi veiculado um ranking das escolas de acordo com o desempenho de seus alunos no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. As escolas “campeãs” o comemoram. São “equipes” vencedoras. Os jogadores são os alunos do ano passado. A equipe técnica são os professores, a coordenação e a direção. Quem venceu está feliz. Quem se sentiu derrotado está treinando para vencer a próxima. Todos, os vencedores e os que sentiram derrotados mal têm tempo para comemorar. Já se preparam para a próxima Copa das escolas, que será em novembro e - se tudo seguir como está - terá seus resultados publicados em junho do ano que vem.
Entretanto, uma questão estratégica fundamental foi pouco explicitada até então: há uma diferença importante entre o treino para o Enem e o treino que os materiais didáticos da maioria das escolas oferecem. Dentro da analogia do futebol, podemos considerar que a prova pede que se jogue futebol de salão, mas as escolas treinam seus alunos para o futebol de campo.
Peguemos um exemplo da frente de Literatura. O Enem pede que os candidatos reconheçam a “presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional” - é assim que está escrita a habilidade 17, da matriz de referência. Já os materiais didáticos das escolas ensinam a reconhecer as características de cada escola literária - e normalmente fazem isso até as produções literárias da década de 50 do século passado. Aí, no exame, aparece um texto literário publicado há cinco anos no país e o candidato pensa: “Poxa, não estudei isso”. Se escolhe a alternativa correta, considera que foi apenas porque interpretou bem o texto e a questão.
Agora, um exemplo da frente de “Gramática”. O Enem pede, na habilidade 1, para “identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação”. Os materiais didáticos tradicionais ensinam em sua unidade 1 o que é dígrafo, hiato, ditongo crescente, ditongo decrescente e tritongo. Sequer elucidam o que são os “sistemas de comunicação”, cobrados também nas habilidades 2, 3 e 4 do Enem. Mais uma vez, se o candidato acerta uma questão dessas habilidades, acredita que o mérito está em “saber interpretação de texto”.
O primeiro tipo de trabalho, o de habilidades cobradas na
prova do Enem, é diferente do segundo, o de conteúdos cobrados nos vestibulares
tradicionais. As escolas que já intuíram isso ficam no dilema: trabalhar para o
Enem, que também dá acesso às universidades, ou para os vestibulares
tradicionais?
Qual é o resultado desse dilema? Todos - treinadores e jogadores - participando da competição. Mas todos jogando uma modalidade para a qual treinaram mal (ou pouco). O jogo acontece sim; mas tende a terminar com resultados piores do que se poderia caso o treino fosse direcionado a ele.
Talvez esteja na hora de torcer menos e exigir treinos mais
específicos para a competição que se deseja vencer. Se todos - alunos e alunas,
pais e mães, professores e professoras, coordenadores e coordenadoras,
diretores e diretoras, como um grande time, fizerem isso, veremos muito mais
craques no Enem.
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