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| Vivendo em grupos por vezes com mais de cem indivíduos, queixadas revolvem o solo de florestas tropicais a ponto de mudar suas propriedades químicas (foto: João Paulo Krajewski) |
Estudo revela que antas, queixadas, catetos e veados atuam como verdadeiros engenheiros do ecossistema ao diminuir a acidez da terra, aumentar a diversidade e acelerar a decomposição de matéria orgânica na floresta
Um estudo publicado na revista Ecological Monographs aponta
que grandes mamíferos, como antas, queixadas, catetos e veados, alteram a
composição química da serrapilheira e do solo em florestas tropicais da Mata
Atlântica brasileira. Como consequência, proporcionam maior disponibilidade de
nutrientes e, possivelmente, uma maior fertilidade do solo.
O trabalho foi realizado por
integrantes do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), um Centro
de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP e sediado no Instituto de
Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro. Os
resultados enfatizam a importância que esses animais – muito visados pela caça
ilegal e com populações em declínio – têm para a sobrevivência a longo prazo do
bioma, mesmo dentro de áreas onde a cobertura florestal permanece intacta.
“A maior parte da biomassa de
mamíferos em áreas contínuas de Mata Atlântica é composta pela queixada, um
porco selvagem nativo que vive em bandos que podem passar de cem indivíduos”,
conta Letícia
Gonçalves Ribeiro, primeira autora do trabalho, realizado como
parte de seu doutorado no IB-Unesp com bolsa da
FAPESP.
“Eles chegam numa área e passam
muito tempo pisoteando e fuçando a terra, à procura de frutos caídos e
sementes, além de defecar e urinar. Com isso, acabam influenciando a ciclagem
de nutrientes, alterando a química do solo e a diversidade da serrapilheira – a
camada de folhas, galhos e frutos que fica na superfície do solo”, explica a
cientista. Outros exemplos de mamíferos herbívoros de grande porte que povoam o
bioma incluem as antas, os veados e os catetos, que são uma outra espécie de
porco selvagem.
Para entender melhor a
relevância desses animais no funcionamento da Mata Atlântica, os pesquisadores
compararam amostras do solo e da serrapilheira de áreas onde esses mamíferos
circulam livremente com as de outras áreas, que foram cercadas para eliminar temporariamente
a presença deles. Os resultados apontaram diferenças substanciais na acidez
(pH) – menos ácido com animais, mais ácido sem – e na disponibilidade de
nutrientes como cálcio e alumínio.
“O alumínio, que em altos
níveis é prejudicial às plantas, foi reduzido onde havia maior presença de
animais. Esse nutriente tem uma relação especial com o pH e o cálcio. O
equilíbrio entre eles é necessário para uma maior fertilidade do solo”, afirma
Ribeiro. Isso significa, na prática, que a presença de grandes mamíferos
aumenta a fertilidade do solo da floresta.
Na serrapilheira das áreas com
mamíferos, foi observada uma redução de lignina, uma molécula complexa que
recobre as células das plantas e dificulta sua decomposição. Ao ser remexida e
pisoteada pelos animais, a serrapilheira é mais bem distribuída no espaço e se
fragmenta em pedaços menores, o que aumenta o contato com o solo e facilita a
quebra da lignina e o processo de decomposição.
Foi constatada ainda uma maior
diversidade na serrapilheira que era fuçada e pisoteada pelos grandes animais.
As amostras coletadas na parte com presença de grandes mamíferos tinham uma
proporção mais equilibrada de folhas, galhos, frutos e sementes, outro fator
que contribui para a decomposição desses materiais no solo da floresta.
“Nossa pesquisa tem demonstrado, de forma cada vez mais robusta, como os grandes herbívoros têm uma importância primordial para as florestas. São justamente esses animais, mais visados pela caça, que atuam como engenheiros de ecossistemas, influenciando desde a composição das plantas na paisagem até mesmo a química do solo”, afirma Mauro Galetti, professor do IB-Unesp que coordenou o estudo e é um dos pesquisadores principais do CBioClima.
Estudo de
longo prazo
A investigação se baseou em
dados obtidos por meio do projeto “DEFAU-BIOTA:
efeitos da defaunação no carbono do solo e na diversidade funcional de plantas
da Mata Atlântica”, apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA.
No experimento, conduzido desde
2009 na Serra do Mar, são comparadas áreas (parcelas) de 15 metros quadrados
abertas para a livre passagem dos animais com outras onde o acesso é restrito
por cercas, que são instaladas pelos pesquisadores para impedir a entrada de
mamíferos de grande porte.
No trabalho atual, foram
analisadas dez parcelas abertas e dez fechadas no Parque Estadual Carlos
Botelho, no município de São Miguel Arcanjo, parte de um grande mosaico de
áreas protegidas de Mata Atlântica na região do Vale do Ribeira, no sudeste do
Estado de São Paulo. A biomassa de mamíferos foi estimada a partir de imagens
de câmeras conhecidas como “armadilhas fotográficas", que são acionadas
automaticamente quando algum animal passa na frente delas.
Em estudos anteriores, os
pesquisadores já haviam demonstrado que a ausência de grandes mamíferos
herbívoros reduz a quantidade de nitrogênio no solo, diminui a diversidade de
plantas e altera as relações entre plantas e seus inimigos naturais —
modificando, assim, a dinâmica ecológica da floresta (leia mais em: agencia.fapesp.br/34879, agencia.fapesp.br/31388 e agencia.fapesp.br/50818).
Em março deste ano, outro estudo do grupo indicou que a falta de grandes
mamíferos leva a uma homogeneização da floresta, ou seja, a dominância de
algumas poucas espécies de plantas que prosperam na ausência desses herbívoros.
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| Fezes de anta no Parque Estadual Carlos Botelho: presença de grandes mamíferos aumenta disponibilidade de nutrientes para a manutenção da floresta (foto: Letícia Gonçalves Ribeiro/IB-Unesp) |
Vida no
solo
Numa etapa mais recente da
pesquisa, ainda em desenvolvimento, Ribeiro está analisando o efeito dos
grandes mamíferos sobre os nematoides, animais microscópicos, parecidos com
vermes, que vivem no solo e são indicadores de qualidade do ecossistema.
“Os nematoides são um dos
grupos mais abundantes da fauna do solo, ocupando diferentes níveis tróficos:
alguns são especializados em comer bactérias, outros se alimentam apenas de
fungos e há ainda os predadores, que se alimentam de outros nematoides e
organismos da fauna do solo”, explica Ribeiro, que atualmente realiza estágio de
doutorado na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, com bolsa da FAPESP.
As análises preliminares
realizadas até agora em amostras de solo coletadas das áreas de pesquisa
apontam que a presença dos grandes mamíferos contribui para uma presença maior
de nematoides predadores. “É preciso ter todos os outros níveis tróficos
presentes para que haja esse tipo de nematoide. Portanto, sua abundância indica
um ecossistema mais saudável”, diz.
Os resultados dessa nova fase
do estudo, no entanto, ainda não têm data para serem publicados.
O trabalho agora publicado teve
apoio da FAPESP também por meio de bolsa de
doutorado concedida a Mateus de Melo Dias, coautor do texto.
O artigo Mammals'
zoogeochemical effects change litter and soil biogeochemistry in a tropical
rainforest pode ser lido em: esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ecm.70070.
Veja vídeo sobre a
pesquisa em: youtu.be/nUNav9OPhcU.
André Julião
Agência FAPESP



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