Com ineditismo, o
escritor Fernando Machado é tomado pela voz de quem vive no silêncio em "O
velho e o cão" e revela como a vida pode ser compreendida de forma mais
simples e instintiva
Na obra, o escritor Fernando Machado constrói uma história sensível e surpreendente ao dar voz a quem normalmente apenas observa: Brown, seu cachorro de estimação. Com essa perspectiva, o livro acompanha a relação do animal com o universo ao seu redor, explorando não apenas aspectos de convivência, mas as memórias, instintos e descobertas que moldam a jornada do protagonista.
O livro se
destaca pelo ineditismo da narrativa: não se trata apenas de relatar
a jornada do melhor amigo do homem, mas de permitir ao
leitor habitar um lugar sensorial e intuitivo. A linguagem acompanha
essa proposta, fluindo entre o impulso e a reflexão, criando uma
experiência que é, ao mesmo tempo, leve e profundamente transformadora.
Ao criar a
trajetória de Brown, as famílias com quem morou, as relações dele com
humanos e outros animais, desenhando sua personalidade, Fernando
causa um incômodo como a sensação de desencaixe do
personagem. Entre abandonos, violências silenciosas e tentativas frustradas de
pertencimento, ele atravessa experiências que o empurram para um
estado limite: o de sentir tudo sem conseguir explicar nada.
A obra
trata de um percurso marcado por rupturas, como lares sem acolhimento,
afetos instáveis e o instinto cobrando um preço alto ao
machucar o próprio dono. Em um dos momentos mais intensos, diante da
possibilidade de perder seu humano, o único que realmente entendeu suas
necessidades, o animal entra em desespero absoluto – a ponto de não
haver sentido em continuar. Desse atravessamento, nasce outro
jeito de enxergar a vida.
Meu instinto canino, fiel e imutável, não aceitaria dividir minha
lealdade entre dois humanos. Essa ideia me trazia um misto de expectativa e
inquietação. De um lado, havia o desejo de retribuir o afeto que me cercava; do
outro, o medo de errar na escolha — ou de magoar quem não fosse o
escolhido. Com os pensamentos se agitando, eu observava cada gesto deles —
tentando descobrir quem seria mais capaz de compreender minhas manias, meus
medos, a quietude que, às vezes, me acompanhava. (O velho e o
cão, p. 82)
A partir
desse olhar canino sobre o mundo humano, surge uma delicadeza rara na
forma como interpreta gestos, silêncios e mudanças ao seu redor. Os pequenos
acontecimentos ganham outra dimensão, revelando que os detalhes, e não os
grandes eventos, sustentam os vínculos mais importantes.
O velho e o cão desarma e expõe o quanto as pessoas se escondem atrás de
explicações enquanto a vida acontece no simples. O cachorro não
teoriza, não negocia o afeto e, apesar do
sofrimento, persiste. Nesse contraste incômodo, o autor atesta:
talvez não falte entendimento ao humano, falte coragem. Coragem de largar o
excesso e encarar o que está ali, cru, sem filtro: o sentir, sem precisar
explicar.
Ficha Técnica:
Título do livro: Velho e o Cão
Autor: Fernando
Machado
Editora: Labrador
ISBN/ASIN: 978-65-5625-979-6
Páginas: 175
Preço: 34,51
Onde comprar: Amazon
Sobre o autor: Fernando Machado formou-se engenheiro na
Universidade Mackenzie em 1968, no auge do regime militar no Brasil. Encerrada
sua profissão de raiz, fundou um centro multicultural chamado CIMC (Círculo Integrado
de Música e Cinema), onde passou a dedicar-se às artes em geral e, em especial,
à literatura. Aos 75 anos, despontou a ideia de escrever a primeira obra, Gastura, sua biografia como
linha de tempo para a incorporação de dezenas de fatos históricos nacionais e
internacionais da segunda metade do século passado. Estruturou sua escrita a
partir de um método próprio, que denomina Engenharia Literária, em que traça
previamente os espaços da narrativa — cidade, vias, casas, rios, pontes,
praças, igrejas, comércio — e, a partir desse desenho, a história se organiza.
Também é autor dos livros: Phenix e Spoiler. Viúvo, reside
atualmente em Ribeirão da Ilha (Florianópolis) numa casa à beira-mar, onde
convive com seu cachorro, o Brown.
Instagram: @escritorfernandomachado

Nenhum comentário:
Postar um comentário