Especialistas reunidos no FUTR Health apontam que avanço da IA e da telemedicina exige equilíbrio entre tecnologia, ética e relação médico-paciente
A rápida evolução da inteligência artificial e da telemedicina já
redefiniu a prática médica no Brasil, mas o próximo grande desafio do setor
será estrutural, e humano. Garantir governança, responsabilidade e,
principalmente, preservar a relação entre médico e paciente em um cenário cada
vez mais digital foi um dos principais consensos do FUTR Health, evento
promovido pelo Olá Doutor, em São Paulo.
Ao longo dos painéis, que reuniram nomes da medicina, tecnologia,
comunicação e direito, ficou evidente que o setor vive uma transição: da
expansão impulsionada pela inovação para uma fase que exige amadurecimento, não
apenas técnico, mas também relacional.
Crescimento
acelerado e o desafio de manter o cuidado humano
A transformação digital da saúde já é uma realidade. Segundo a
pesquisa TIC Saúde 2024, do Cetic.br, 17% dos médicos brasileiros já utilizam
inteligência artificial na prática clínica, enquanto mais de 90% dos hospitais
contam com prontuários eletrônicos.
No cenário global, o mercado de saúde digital deve quase dobrar de
tamanho nos próximos anos, impulsionado pela expansão da telemedicina e da
inteligência artificial, segundo relatórios de mercado como os da Research and
Markets.
Apesar do avanço, especialistas destacaram que o principal desafio
não está apenas na adoção tecnológica, mas em como utilizá-la sem comprometer a
essência do cuidado médico.
“A saúde digital está crescendo e tem muito espaço, mas a gente
precisa olhar para ela com mais cuidado para que cresça de forma responsável,
ampliando o acesso e reduzindo desigualdades”, afirmou Maitê Dahdal,
especialista em telemedicina.
A especialista também reforçou que o médico precisa usar a tecnologia
como aliada, e não se tornar dependente dela, preservando o olhar clínico e a
autonomia na tomada de decisão.
A telemedicina foi apontada como uma ferramenta essencial para
ampliar o acesso à saúde, especialmente em regiões com menor cobertura, mas o
consenso entre os participantes é que a tecnologia deve potencializar, e não
substituir, o vínculo entre médico e paciente.
“O ponto central é entender qual é o lugar do médico e do paciente
nesse novo contexto. Não é só uma discussão tecnológica, mas também de
confiança, de relação humana”, destacou Pedro Doria, jornalista e mediador do
evento.
Nesse cenário, a escuta ativa, o acolhimento e a construção de confiança
foram apontados como elementos que permanecem insubstituíveis, mesmo diante do
avanço da inteligência artificial.
Regulação,
ética e o futuro da saúde digital
Com o avanço da tecnologia, questões jurídicas e éticas passaram a
ocupar papel central na discussão.
“É um evento que transcende a medicina. A gente fala de direito,
ética, tecnologia e inteligência artificial juntos. O direito entra para
garantir segurança para médicos, pacientes e empresas diante dessas novas
práticas”, explicou Airton Menezes, médico e especialista em direito médico.
A avaliação comum entre os participantes é que a ausência de
regras claras pode comprometer tanto a segurança clínica quanto o
desenvolvimento sustentável do setor.
O FUTR Health também foi destacado como um espaço de troca entre
diferentes visões, reunindo especialistas para pensar os próximos passos do
setor.
“A gente avançou muito, mas ainda tem muita coisa para construir.
Ter diferentes perspectivas reunidas é essencial para pensar o futuro da
saúde”, afirmou Jairo Bouer.
Nesse contexto, o papel das plataformas digitais passa a ser
repensado. Mais do que eficiência operacional, cresce a necessidade de soluções
que apoiem o médico e fortaleçam a experiência do paciente.
O Olá Doutor, por exemplo, vem ampliando sua atuação com foco em
conectar tecnologia e cuidado, buscando facilitar o acesso sem abrir mão da
qualidade e do acolhimento no atendimento.
A empresa realizou 260 mil consultas no último ano e projeta
alcançar 600 mil consultas até o final de 2026. Fundada em 2023, a healthtech
registrou um crescimento de mais de 1200% entre o 2023 e 2025.
Atualmente, a plataforma conta com três mil médicos cadastrados e
oferece tempo médio de conexão inferior a 2 minutos no horário comercial,
refletindo a busca por agilidade no atendimento digital.
“A saúde digital já provou seu valor em escala. O que está em jogo
agora não é mais a adoção da tecnologia, mas a forma como ela é estruturada.
Sem governança, o crescimento perde consistência. Com responsabilidade, a gente
amplia o acesso e melhora a qualidade do cuidado”, finaliza Anderson Zilli, CEO
da Olá Doutor.
O FUTR Health evidenciou que a saúde digital brasileira entrou em
uma nova fase. Se antes o foco estava na adoção tecnológica, agora o desafio
passa a ser estruturar esse avanço com responsabilidade, qualidade e segurança.
Mais do que discutir inovação, o evento reforçou a necessidade de
organizar o futuro da medicina digital, equilibrando tecnologia, ética e
governança para garantir a sustentabilidade do setor nos próximos anos.
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