Há algo mudando no ar. E quando digo “ar” é literalmente, nas regras de convivência que atravessam toda a experiência de viajar de avião, do terminal à cabine. Em março de 2026, três notícias publicadas em sequência, em países diferentes e sobre contextos distintos envolvendo o comportamento de passageiros, me fizeram parar e pensar sobre como a aviação começou a tratar a convivência a bordo como uma questão de regra e não apenas de bom senso. E não é uma reflexão apenas como empresário do setor de viagens corporativas, mas como alguém que passa uma parte considerável da vida dentro de aviões e que acredita, genuinamente, que viajar é um dos maiores privilégios da vida moderna.
Uma das notícias é sobre a United Airlines, que atualizou seu
contrato de transporte para exigir o uso de fones de ouvido a bordo, sob pena
de remoção do voo e banimento permanente da companhia. Outra novidade é da
Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), que aprovou novas regras para
passageiros indisciplinados no Brasil, com multas de até R$ 17,5 mil e inclusão
em uma "No Fly List". E, por fim, uma terceira notícia sobre o
aeroporto de Tampa, na Flórida, que publicou nas redes sociais que estava
pensando em proibir pijamas no terminal.
Mas, antes de falar sobre regras, é preciso falar sobre o que as
tornou necessárias. Segundo a Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear),
os casos envolvendo passageiros indisciplinados cresceram 66% no Brasil em 2025
em relação ao ano anterior. Foram 1.764 ocorrências registradas em um único
ano. Um passageiro retirado de um voo em Brasília no início de 2026 se recusou
a colocar o celular no modo avião e impediu a decolagem por quase duas horas.
Na França, passageiros que perturbam a tranquilidade a bordo podem
ser multados em até 20 mil euros e proibidos de voar por quatro anos. Nos
Estados Unidos, a Federal Aviation Administration (FAA) pode aplicar multas
superiores a US$ 43 mil por infração. A Índia tem um dos sistemas mais
detalhados do mundo para classificar e punir passageiros problemáticos.
Percebe-se, que o problema não é novo. O que é novo é a disposição de
enfrentá-lo.
Por muito tempo, o setor de aviação tratou o comportamento
inadequado de passageiros como uma questão de bom senso individual. Campanhas
de conscientização, pedidos gentis da tripulação, constrangimento social. A
premissa era que a maioria das pessoas sabe se comportar num espaço coletivo e
que os poucos que não sabem aprenderiam pelo exemplo. Mas, não aprenderam. E
isso não é uma crítica moral, mas uma observação prática: o bom senso é
suficiente quando o ambiente reforça o comportamento esperado. Quando não há
consequência clara para o descumprimento das regras, a norma deixa de existir
na prática, ainda que esteja no papel.
É exatamente o que aconteceu durante anos na aviação civil: as
regras existiam, mas consequências, nem sempre. A decisão da United de
transformar uma expectativa social em cláusula contratual com consequência
explícita não é autoritarismo, é clareza. E clareza é o que protege todo mundo:
o passageiro que quer assistir ao seu filme em paz, a tripulação que trabalha
em condições cada vez mais exigentes e o próprio sistema, que funciona melhor
quando as regras (de segurança e convívio) são conhecidas e respeitadas por
todos.
Há uma dimensão desse debate que raramente aparece com o peso que
merece: o impacto sobre os trabalhadores da aviação. Comissários de bordo,
agentes de embarque, equipes de solo. Profissionais que lidam diariamente com
centenas de passageiros, em condições de pressão constante, e que são
frequentemente o alvo direto de comportamentos abusivos. Uma visita rápida à
sua rede social preferida é suficiente para se deparar com vídeos de adultos se
comportando como crianças, profanando xingamentos a funcionários em saguões de aeroportos
ao redor do mundo.
Por aqui, vale relembrar que o crescimento de 66% nos casos de
indisciplina no Brasil não é só uma estatística de segurança operacional. É um indicador
de saúde mental e segurança no trabalho de uma categoria inteira. E
regulamentar esse ambiente é também proteger quem trabalha nele. A aprovação
das novas regras pela ANAC é um passo necessário e bem-vindo. A norma
estabelece um procedimento padronizado que começa pela advertência verbal e
pode chegar ao acionamento policial, à retirada da aeronave e à inclusão em
lista restritiva de impedimento de voo. As multas podem chegar a R$ 17,5 mil.
O Brasil chega a esse debate depois de França, Estados Unidos,
Índia e tantos outros países que já possuem sistemas consolidados de punição.
Chegamos tarde, mas pelo menos chegamos. E há algo que merece ser dito com
clareza: regulamentação não é o oposto de liberdade. É a condição para que a
liberdade de todos seja preservada dentro de um espaço compartilhado. Quem
embarca num avião abre mão de parte de sua autonomia individual em nome da
convivência coletiva. Essa é uma escolha implícita em cada passagem comprada.
E que o caso de Tampa e a suposta proibição de pijamas tem a ver
com isso? No último mês, o perfil oficial do aeroporto publicou que estava
pensando em proibir pijamas no terminal. A postagem foi vista 5,7 milhões de
vezes em poucas horas, gerou um debate acalorado sobre etiqueta de viagem e
arrancou um GIF de aprovação do próprio Secretário de Transportes dos Estados
Unidos. Horas depois, o aeroporto esclareceu que era uma brincadeira. Mas o
barulho que a piada causou diz algo real.
O tema tocou um nervo. Não porque pijamas em aeroportos sejam um
problema grave de segurança ou convivência. Mas porque a questão por trás da
piada é séria: o que esperamos uns dos outros quando compartilhamos um espaço
público? Quanto da nossa comodidade individual é compatível com o respeito
coletivo? Tampa não precisou proibir nada. Bastou perguntar.
Viajar é, para mim, muito mais do que deslocamento: é curiosidade
em movimento. É a certeza de que o mundo é maior do que qualquer perspectiva
individual e que encontrar outras culturas, outros ritmos, outras formas de
viver nos torna pessoas melhores. Mas esse privilégio tem um preço que vai além
da passagem. O preço do respeito compartilhado, da consciência de que um avião
é um dos poucos lugares no mundo onde pessoas completamente diferentes, de
origens completamente diferentes, são obrigadas a dividir um espaço minúsculo
por horas seguidas. Nesse espaço, a regra não é uma imposição, mas um acordo. E
acordos só funcionam quando todos os lados os honram.
O fim da impunidade nas alturas não é uma perda de liberdade, mas
o reconhecimento de que viajar é um ato coletivo. E que atos coletivos exigem
responsabilidade individual. Talvez Tampa estivesse certa, mesmo sem querer.
Não precisamos de um dress code nos aeroportos, mas talvez precisemos, sim,
lembrar que locais compartilhados exigem atenção e respeito compartilhados. E
isso vale a 35 mil pés de altitude, ou no embarque do portão 7.
Luiz Moura - empresário do setor de viagens corporativas,
co-fundador da VOLL, membro do conselho da Associação Latino Americana de
Eventos e Viagens Corporativas (Alagev) e conselheiro de Turismo da
FecomércioSP. Escreve sobre viagens, gestão e comportamento humano.

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