Estudo publicado
na revista Human Cell utiliza células-tronco de pacientes com mutações no gene
SCN2A para produzir neurônios em laboratório e investigar como alterações
genéticas afetam o desenvolvimento cerebral
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Pesquisadores
avançaram na compreensão das bases biológicas do Transtorno do Espectro Autista
(TEA) ao produzir neurônios em laboratório a partir de células-tronco de
pacientes com mutações genéticas associadas ao transtorno. O estudo, publicado
na revista científica Human Cell, contou com a participação do Instituto D’Or
de Pesquisa e Ensino (IDOR) e investigou como alterações no gene SCN2A
interferem no funcionamento das células nervosas.
O TEA é uma
condição do neurodesenvolvimento que afeta comunicação, interação social e
comportamento. Não existe uma única causa para o autismo: pesquisas indicam que
o transtorno está associado a centenas de genes. Entre eles, o SCN2A se destaca
por sua importância na atividade elétrica dos neurônios.
Esse gene regula
canais de sódio essenciais para a transmissão de sinais elétricos no cérebro.
Quando sofre mutações, pode comprometer a comunicação entre neurônios, fenômeno
ligado não apenas ao autismo, mas também à epilepsia e à deficiência
intelectual.
Para investigar
essas alterações de forma direta, os cientistas utilizaram células-tronco
pluripotentes induzidas (iPSCs). Essas células são obtidas a partir de células
adultas, como as do sangue, e reprogramadas em laboratório para recuperar a
capacidade de se transformar em diferentes tipos celulares. No estudo, foram
geradas quatro linhagens de iPSCs a partir de amostras sanguíneas de dois
pacientes com autismo que apresentavam mutações de perda de função no gene
SCN2A.
Após rigorosa
validação genética e estrutural, essas células-tronco foram diferenciadas em
neurônios. Esse modelo permite observar, em ambiente controlado, como a mutação
afeta o desenvolvimento e a comunicação entre as células nervosas, algo que não
pode ser analisado diretamente no cérebro humano vivo.
Nos neurônios
derivados dos pacientes, os pesquisadores identificaram alterações na formação
e na atividade dos circuitos neurais associadas à mutação no SCN2A. A
descoberta ajuda a explicar como uma alteração genética específica pode
influenciar o desenvolvimento cerebral desde fases iniciais.
Para o Dr. Bruno
Solano, médico e pesquisador do IDOR e da Fiocruz-BA, especializado em terapias
celulares, terapias gênicas e produtos avançados, o modelo representa um avanço
estratégico para a pesquisa translacional. “Ao trabalharmos com neurônios
produzidos a partir das próprias células dos pacientes, conseguimos estudar de
forma muito mais fiel o impacto da mutação genética no funcionamento cerebral.
Isso nos aproxima de uma compreensão mais precisa dos mecanismos do autismo e
abre caminho para o desenvolvimento de terapias direcionadas no futuro”,
afirma.
Segundo ele, a tecnologia também fortalece a perspectiva da medicina personalizada. “Esses modelos celulares permitem testar intervenções em um ambiente controlado, o que pode acelerar a busca por tratamentos mais específicos e eficazes, não apenas para o autismo, mas também para outras condições associadas ao gene SCN2A, como a epilepsia”, completa.
Ao produzir neurônios humanos em laboratório a partir de células de pacientes, o estudo reforça o papel da biotecnologia na investigação de doenças do neurodesenvolvimento e aponta um caminho concreto para compreender, com maior precisão, as bases celulares e genéticas do autismo.
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