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Mesmo sendo um dos poucos cânceres com estratégias
comprovadamente eficazes de prevenção e rastreamento, o câncer do colo do útero
deve apresentar crescimento no número de casos no Brasil nos próximos anos. As
novas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que o país
passará de 17.010 casos anuais no período (2023-2025) para 19.310 novos
diagnósticos anuais no triênio 2026-2028. Comparando os dois períodos, salta de
51.030 para 57.930, um aumento de 13,5%. O dado reforça um paradoxo da saúde
pública brasileira, pois enquanto há tecnologias disponíveis no Sistema Único
de Saúde (SUS) capazes de prevenir a doença, o acesso e a adesão ainda não são
suficientes para reverter a tendência de crescimento.
O câncer do colo do útero permanece como o mais
frequente entre as neoplasias ginecológicas e ocupa a terceira posição entre
todos os tipos de câncer que acometem mulheres no país, atrás apenas dos
tumores de mama e colorretal, quando excluídos os casos de câncer de pele não
melanoma. Na análise da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO),
esse cenário exige uma resposta mais coordenada entre vacinação, rastreamento e
tratamento oportuno, sobretudo em um momento em que o Brasil dispõe de
instrumentos capazes de alterar de forma significativa a história natural da
doença. Também é fundamental ampliar o acesso a informações científicas
confiáveis, que ajudem a população a compreender as formas de prevenção. Entre
elas, destaca-se a vacinação contra o HPV, capaz de reduzir significativamente
o risco de câncer do colo do útero e de outros tumores associados ao vírus
O avanço mais recente nessa direção é a
incorporação progressiva do exame HPV-DNA no SUS. A tecnologia permite
identificar até 14 genótipos do papilomavírus humano antes que o vírus provoque
alterações celulares no colo do útero. Diferentemente do exame de Papanicolau,
que detecta alterações já estabelecidas, o teste molecular rastreia diretamente
o material genético do HPV, inclusive em mulheres assintomáticas, ampliando a
capacidade de identificar precocemente aquelas em maior risco.
Conforme observa a cirurgiã oncológica Viviane
Rezende de Oliveira, vice-presidente da SBCO, o impacto dessa
mudança vai além da sensibilidade diagnóstica. “Ao reduzir significativamente a
proporção de resultados inconclusivos, o teste HPV-DNA permite um rastreamento
mais organizado e eficiente, com intervalos maiores entre os exames, que passam
a ser de cinco anos. Isso também possibilita que o Papanicolau seja utilizado
de forma direcionada, principalmente nos casos em que o teste molecular já
apontou a presença do vírus”, explica.
Paralelamente ao rastreamento, a vacinação segue
como o principal eixo de prevenção primária. Dados recentes do Ministério da
Saúde indicam que a cobertura vacinal contra o HPV em meninas de 9 a 14 anos
atingiu 82% no Brasil, um índice significativamente superior à média global,
estimada em 12%. Ainda assim, o país permanece abaixo da meta estabelecida pela
Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê cobertura de 90% para que o
câncer do colo do útero deixe de ser um problema de saúde pública nas próximas
décadas. Atualmente, a vacina contra o HPV passou a ser aplicada em dose única
no calendário do Ministério da Saúde, o que facilita a adesão e amplia a
cobertura vacinal no país.
Além da vacinação e do rastreamento, o diagnóstico
precoce tem impacto direto nas opções terapêuticas e nos desfechos clínicos.
Nos estádios iniciais, o câncer do colo do útero costuma ser silencioso, o que
reforça a importância dos exames preventivos regulares. Quando presentes, os
sinais de alerta incluem sangramento vaginal anormal, corrimento com odor
desagradável, dor pélvica e desconforto durante as relações sexuais. A
principal causa da doença é a infecção persistente pelo HPV, associada a
fatores de risco como início precoce da vida sexual, múltiplos parceiros, tabagismo
e histórico familiar.
No campo do tratamento, as estratégias são
definidas caso a caso e envolvem cirurgia, radioterapia, quimioterapia,
terapias-alvo e imunoterapia. De acordo com o cirurgião oncológico Paulo
Henrique de Sousa Fernandes, presidente da SBCO, os avanços
recentes ampliaram tanto as chances de controle da doença quanto às possibilidades
de preservação da qualidade de vida. “Hoje, dispomos de técnicas cirúrgicas
mais precisas, terapias medicamentosas modernas e abordagens combinadas que
aumentam as taxas de cura e, em situações selecionadas, permitem preservar a
fertilidade e reduzir os impactos do tratamento na vida das pacientes”, afirma
Fernandes.
Entre as inovações cirúrgicas, destacam-se
procedimentos como a traquelectomia radical, indicada para casos iniciais e que
possibilita a retirada do colo do útero com preservação do corpo uterino, e a
transposição uterina, ainda em caráter experimental, voltada a pacientes que
necessitam de radioterapia após cirurgia e desejam manter a função reprodutiva.
As terapias neoadjuvantes, como a quimioterapia antes da cirurgia, também têm
sido utilizadas para reduzir o volume tumoral e ampliar a eficácia do
tratamento.
No tratamento medicamentoso, as terapias-alvo e a
imunoterapia representam um avanço relevante, sobretudo em casos selecionados
ou em esestádios mais avançados da doença. Ao bloquear mecanismos específicos
do crescimento tumoral ou estimular o sistema imunológico a reconhecer e
combater as células cancerosas, essas abordagens ampliam o arsenal terapêutico
disponível no SUS e na saúde suplementar.
A SBCO reforça que a combinação entre vacinação
ampla, rastreamento eficiente com tecnologias mais sensíveis e acesso oportuno
ao tratamento é o caminho para que o Brasil avance rumo à meta global de
eliminação do câncer do colo do útero. O desafio, reforça a entidade durante o
Março Lilás, não está na ausência de soluções, mas na capacidade de garantir
que elas cheguem de forma equitativa e contínua a toda a população feminina.
Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica - SBCO

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