Especialista
explica como os avanços na cirurgia do cristalino podem proporcionar qualidade
visual e independência dos óculos
Aumentar a letra do celular, afastar o cardápio
para conseguir ler, procurar mais iluminação ou recorrer aos óculos para
tarefas simples são situações que passam a fazer parte da rotina de muitas
pessoas a partir dos 40 anos. Essas adaptações, aparentemente inofensivas,
podem indicar uma alteração progressiva no funcionamento do cristalino, a lente
natural do olho responsável, entre outras funções, por ajustar o foco para
diferentes distâncias.
Essa condição é conhecida como presbiopia,
popularmente chamada de vista cansada, e ocorre pela perda gradual da
capacidade de acomodação do cristalino. Segundo o oftalmologista Dr. Arthur van den Berg, especialista em
cirurgia de catarata e troca do cristalino, os primeiros sinais costumam ser
incorporados ao cotidiano sem que o paciente perceba a origem do
problema.
O paciente nem sempre percebe quando passou a
adaptar sua rotina. “Primeiro afasta o celular, depois aumenta a letra, procura
mais luz e, quando percebe, já depende dos óculos para inúmeras atividades.
Essas mudanças são sinais de que o cristalino está perdendo sua capacidade
natural de focalização”, explica.
O envelhecimento do cristalino
começa antes da catarata
Embora a catarata seja uma das alterações mais
conhecidas dessa estrutura, seu envelhecimento começa muitos anos antes do
surgimento de uma opacidade visualmente significativa. A partir dos 40 anos, a
capacidade de acomodação diminui progressivamente, afetando principalmente a
visão de perto. Com o tempo, também podem ocorrer mudanças na transparência e
na qualidade óptica.
A catarata representa uma dessas alterações,
caracterizada pela perda de transparência do cristalino, que pode provocar
visão embaçada, redução do contraste, maior sensibilidade à luz e dificuldades
nas atividades cotidianas.
Para van den Berg, compreender essa evolução
permite discutir alternativas de tratamento antes que o comprometimento visual
se intensifique. “Existe uma ideia muito difundida de que precisamos esperar a
catarata aparecer para realizar uma cirurgia do cristalino. Mas isso não é
necessariamente verdade. Hoje, em pacientes adequadamente selecionados,
especialmente acima dos 50 anos, podemos considerar a troca do cristalino antes
do desenvolvimento da catarata, com o objetivo de corrigir a presbiopia, outros
erros refrativos e proporcionar independência dos óculos”, esclarece.
A mesma cirurgia em diferentes
momentos da vida
A cirurgia de catarata e a troca do cristalino
transparente utilizam essencialmente a mesma técnica. Em ambos os
procedimentos, a lente natural do olho é removida e substituída por uma lente
intraocular (LIO) artificial, selecionada conforme as características oculares
e os objetivos visuais de cada pessoa.
A diferença está na indicação. Enquanto a primeira
é realizada quando a opacidade compromete a qualidade da visão, a segunda pode
ser considerada antes do desenvolvimento da doença, especialmente em pacientes
acima dos 50 anos que apresentam presbiopia e desejam reduzir a dependência dos
óculos.
A decisão, entretanto, exige uma análise que vai
além da faixa etária. Saúde ocular, grau, condições da córnea e da retina,
hábitos e expectativas precisam ser considerados. “Não existe uma idade única
para indicar a cirurgia. O mais importante é compreender o momento de vida do
paciente, suas dificuldades visuais e avaliar se os benefícios do procedimento
justificam seus riscos. A decisão precisa ser individualizada”, destaca o
oftalmologista.
Novas lentes ampliam as
possibilidades de independência dos óculos
Um dos principais avanços desses procedimentos está
no desenvolvimento de lentes intraoculares com diferentes possibilidades de
correção. Entre elas estão as trifocais, projetadas para proporcionar visão de
longe, intermediária e de perto, permitindo que pacientes adequadamente
selecionados alcancem independência dos óculos nas três distâncias.
Na prática, isso pode facilitar atividades como
dirigir, utilizar o computador, consultar o celular, ler, praticar esportes e
trabalhar. Existem ainda lentes de profundidade de foco estendida, que ampliam
a faixa de visão nítida, além de outras tecnologias indicadas conforme as
características dos olhos e as prioridades individuais.
“Hoje, com as tecnologias modernas de lentes
intraoculares, especialmente as trifocais, podemos oferecer independência dos
óculos em todas as distâncias: longe, intermediária e perto. Mas não existe uma
lente ideal para todas as pessoas. O segredo está em escolher a tecnologia mais
adequada para cada olho e para o estilo de vida de cada paciente”, explica Dr.
Arthur.
Os resultados, porém, não são iguais para todos.
Algumas tecnologias podem produzir fenômenos luminosos, como halos ao redor das
luzes, ou apresentar diferenças na sensibilidade ao contraste, que é a
capacidade de distinguir objetos do fundo. Por isso, a avaliação pré-operatória
e o alinhamento das expectativas são fundamentais para a escolha.
Planejamento personalizado é
fundamental para o resultado
Com mais de 20 mil cirurgias realizadas e formação
complementar em instituições como Harvard Medical School, Medical University of
South Carolina e Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), van den Berg
desenvolveu o PROTOCOLO VDB®, modelo de planejamento cirúrgico personalizado
voltado à independência dos óculos.
O método reúne exames de alta precisão, avaliação
detalhada da saúde ocular, análise das necessidades visuais e seleção
individualizada da lente intraocular. O objetivo é proporcionar a máxima
liberdade possível, respeitando as particularidades de cada paciente.
“Duas pessoas da mesma idade, com graus
semelhantes, podem precisar de soluções completamente diferentes. Uma pode
passar o dia no computador, outra praticar esportes, dirigir à noite ou
trabalhar com atividades que exigem visão de perto. Tudo isso influencia nosso
planejamento. Não se trata simplesmente de escolher uma lente, mas de planejar
o resultado visual que queremos oferecer”, afirma.
É preciso esperar a catarata
para deixar de usar óculos?
A espera não é obrigatória em todos os casos.
Pessoas acima dos 50 anos, com perda importante da capacidade de acomodação e
desejo de independência dos óculos, podem ser candidatas à troca do cristalino
transparente, desde que os exames indiquem uma relação favorável entre
benefícios e riscos.
Além de corrigir alterações visuais, o procedimento
elimina a possibilidade de formação futura de catarata no olho operado, uma vez
que a estrutura natural responsável pela doença é removida e substituída pela
lente artificial.
Isso não significa que a cirurgia seja recomendada
para todos nessa faixa etária. Óculos, lentes de contato e outras alternativas
permanecem válidos, conforme a condição clínica. “A cirurgia não deve ser
indicada apenas porque o paciente chegou a determinada idade ou porque deseja
abandonar os óculos. Precisamos avaliar cuidadosamente a saúde dos olhos, as
expectativas e o potencial de benefício. Quando existe uma boa indicação, a
troca do cristalino pode representar uma mudança muito significativa na
qualidade de vida”, ressalta.
Mais liberdade para as
atividades do dia a dia
A dificuldade para enxergar de perto pode parecer
pequena no início, mas seus efeitos se acumulam. Ler uma mensagem, consultar o
relógio, visualizar o painel do carro ou realizar atividades profissionais são
situações nas quais a necessidade constante dos óculos pode se tornar um
incômodo.
Para muitas pessoas, reduzir essa dependência
representa mais do que melhorar os resultados dos exames oftalmológicos.
Significa recuperar a praticidade e a autonomia em atividades cotidianas.
“Nosso objetivo vai além de corrigir o grau.
Queremos proporcionar máxima liberdade visual, permitindo que o paciente
realize suas atividades com a menor dependência possível dos óculos,
preservando a qualidade da visão. Afinal, enxergar bem em todas as distâncias é
parte importante da autonomia e da qualidade de vida”, conclui Dr. Arthur van
den Berg.
Embora o envelhecimento do cristalino seja
inevitável, os avanços no planejamento cirúrgico e nas lentes intraoculares
ampliaram as alternativas de tratamento para pacientes selecionados, permitindo
considerar a independência dos óculos mesmo antes do aparecimento da catarata.
Dr. Arthur van den Berg - CRM-PR 31365 | RQE 19497 - médico oftalmologista, especialista em cirurgia de catarata e troca do cristalino, com mais de 20 mil cirurgias realizadas. Possui formação pela Santa Casa de São Paulo, atuação acadêmica na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), aperfeiçoamento em segmento anterior no Storm Eye Institute, da Medical University of South Carolina (MUSC), nos Estados Unidos, e pós-graduação em Surgical Leadership pela Harvard Medical School. É criador do PROTOCOLO VDB®, voltado ao planejamento personalizado para independência dos óculos.
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