Pesquisar no Blog

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Carta aberta aos maridos: como apoiar quem vive com endometriose

Escrevo este texto depois de muitos anos de consultório, ouvindo, de formas diferentes, a mesma frase: “Doutor, meu marido acha que eu estou exagerando”.

Ainda me incomoda ouvir isso. E talvez você, que lê estas linhas, esteja aqui porque alguém que ama enviou este artigo, provavelmente uma esposa ou companheira, ou porque decidiu, por conta própria, entender melhor o que ela enfrenta. De qualquer forma, esse gesto já diz muito sobre você.

A endometriose não é uma cólica forte. Não é frescura, nem falta de força de vontade. É uma doença crônica e ainda sem cura definitiva, que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, a camada que reveste o útero, passa a crescer fora dele, em ovários, trompas, intestino, bexiga e outras regiões da pelve. Esse tecido reage aos hormônios do ciclo menstrual, inflama, sangra internamente e pode gerar aderências e dor. Em muitos casos, a dor é incapacitante. Em outros, vem acompanhada de infertilidade, fadiga extrema, alterações intestinais e urinárias e um desgaste emocional silencioso, que poucas pessoas ao redor conseguem enxergar.

É nesse ponto que o parceiro entra, e a primeira coisa que peço é também a mais difícil de sustentar no dia a dia: acredite na dor dela. A endometriose é conhecida como uma doença invisível, porque a intensidade do sintoma não guarda relação direta com o tamanho das lesões. Uma mulher pode ter lesões pequenas e uma dor devastadora, e exames que “não mostram nada” não significam que não há nada a tratar. Duvidar é uma das formas mais profundas de abandono dentro de casa.

Acreditar, contudo, é apenas a premissa. O apoio real se consolida na presença ativa. Isso significa assumir o protagonismo da jornada junto com a sua companheira: ir junto na consulta, compreender a doença e poupá-la do desgaste extenuante de ter de traduzir a própria dor repetidamente. Nas crises, presença muitas vezes significa não tentar resolver nada, mas segurar a mão, trazer uma bolsa de água quente, ficar por perto em silêncio. Perguntar “o que você precisa agora?” costuma valer mais do que qualquer conselho.

Há um território que a maioria dos casais evita nomear, e é justamente onde o silêncio mais machuca. Falo da vida sexual. A dor durante ou após a relação, chamada de dispareunia, é um dos sintomas mais comuns da endometriose. Ela não tem relação com o desejo pelo parceiro nem com a qualidade do relacionamento, é consequência direta da doença. Retirar a culpa da equação e encarar o sintoma sob a ótica médica é o único caminho para preservar o vínculo e reinventar a intimidade sem violência. 

O tratamento da endometriose costuma ser multidisciplinar e cansativo, envolvendo consultas, exames, remédios, eventualmente cirurgia, fisioterapia pélvica e ajustes na rotina. Dividir esse peso, seja assumindo tarefas do dia a dia nos períodos de crise, seja organizando junto a agenda médica, tira da mulher a sensação de que ela precisa gerenciar sozinha uma doença que já é exaustiva por si só. O mesmo cuidado vale para o campo emocional. A dor crônica costuma andar de mãos dadas com ansiedade e sintomas depressivos, não por fraqueza, mas como efeito direto de conviver com dor persistente. Incentivar o acompanhamento psicológico quando fizer sentido, e buscar apoio para si mesmo quando necessário, também faz parte de cuidar bem de quem se ama.

Fertilidade é outro tema que costuma pesar sobre o casal em silêncio, carregado de medo, culpa e expectativa. Quando o desejo de ter filhos existe, o caminho se torna mais leve quando é enfrentado como time. Quando ainda não é o momento, é importante que isso não vire cobrança, porque o corpo dela já carrega peso suficiente.

No fim, talvez a frase mais simples e mais poderosa que um parceiro possa repetir seja apenas esta, dita sem rodeios: “eu sei que isso não é culpa sua, estou aqui com você”. A endometriose é uma jornada longa, muitas vezes marcada por diagnóstico tardio, dor não validada e solidão. Um parceiro presente, informado e paciente não cura a doença, mas transforma completamente a forma como ela é vivida.

Escrevo com respeito e admiração por todos que caminham nessa estrada ao lado de quem amam.

 

Dr. Thiers Soares - médico ginecologista, especialista em endometriose, adenomiose e miomas, com atuação em cirurgia robótica e minimamente invasiva. É médico do setor de endoscopia ginecológica do Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ), Doctor Honoris Causa pela Universidade Victor Babes (Romênia) e membro de sociedades internacionais de referência em cirurgia minimamente invasiva ginecológica, como AAGL e SLS.


Da dissecação virtual à cirurgia robótica, FMUSP amplia uso de tecnologia na formação médica

Novos espaços e tecnologias preparam estudantes para as transformações da prática médica


Explorar o corpo humano em três dimensões, realizar dissecações virtuais e treinar técnicas cirúrgicas com robôs são recursos que integram a formação na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). A instituição ampliou essa estrutura em 16 de outubro, com a inauguração da Sala de Ensino Virtual e a entrega da modernização do segundo andar da Biblioteca. As iniciativas se somam ao ensino de inteligência artificial (IA) e à construção de um Módulo Didático voltado à aprendizagem ativa.
 

Na Sala de Ensino Virtual, os estudantes terão acesso à Anatomage Table, plataforma que permite visualizar estruturas anatômicas tridimensionais e realizar dissecações digitais. O recurso amplia as possibilidades de estudar as relações entre órgãos e sistemas. 

"Aqui, os estudantes poderão explorar estruturas, visualizar relações e exercitar conhecimentos com o apoio de ferramentas que enriquecem a aprendizagem e abrem novas possibilidades para os docentes", afirmou a Profa. Dra. Eloisa Bonfá, diretora da FMUSP, na cerimônia de inauguração da sala, cujo investimento foi de R$ 3 milhões. 

O espaço também recebeu dez dos 68 óculos de realidade virtual Meta Quest 3 adquiridos por meio de uma emenda parlamentar de R$ 350 mil. Os dispositivos permitirão explorar modelos tridimensionais e simular procedimentos.

 

Da simulação ao treinamento cirúrgico 

Os outros 58 óculos serão utilizados no Centro de Treinamento em Procedimentos Minimamente Invasivos (Promin), inaugurado na FMUSP em 2024. Com investimento de R$ 35 milhões, o centro contou com recursos de emendas parlamentares, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e de doações privadas para a aquisição de equipamentos. 

O Promin tornou a FMUSP a primeira escola médica da América Latina a contar com um robô Da Vinci dedicado exclusivamente ao ensino. A estrutura permite praticar técnicas em ambiente controlado, antes da atuação em pacientes. 

Além do robô, o centro dispõe de oito simuladores de videocirurgia e quatro de cirurgia robótica, oito torres de videolaparoscopia e três de videoendoscopia. Duas das torres de videolaparoscopia contam com tecnologia 4K e software para fluorescência.

 

Novos ambientes de aprendizagem 

Parte da renovação dos espaços já está disponível na Biblioteca. O segundo andar recebeu investimento de R$ 1,16 milhão para a modernização da infraestrutura e a adequação dos ambientes de estudo individual e trabalho colaborativo. A área conta com conexão à internet, equipamentos de projeção e mesas para atividades em grupo. 

Também estão previstas a integração da Biblioteca ao prédio principal e a implantação da tecnologia de identificação por radiofrequência (RFID), que permitirá o acesso de usuários com mochilas e tornará o controle do acervo mais ágil. 

Entre as próximas entregas está o Módulo Didático, com investimento de R$ 14 milhões. O edifício terá três pavimentos e sete salas multiúso equipadas para metodologias que envolvem os estudantes na discussão de casos e na resolução de problemas. 

Os ambientes foram concebidos para práticas como o Harvard Case Method, baseado na análise de casos reais, e o Team-Based Learning, que organiza a aprendizagem em equipes. 

A formação também incorpora a telessaúde por meio do Conecta APS. Inspirada no programa APS Digital do HCFMUSP, a iniciativa promove a prática do atendimento à distância aplicado à atenção primária durante a graduação, aproximando os estudantes do uso de ferramentas digitais no cuidado e das necessidades do SUS.

 

Inteligência artificial no currículo 

A FMUSP tornou-se uma das primeiras escolas médicas brasileiras a incorporar o ensino estruturado de IA à graduação, com foco no uso ético e crítico da tecnologia. Em 2026, recebeu do Google o Innovation Award pelo uso estratégico da IA no ambiente acadêmico. 

A Faculdade, que reúne mais de 1.400 alunos de graduação e mais de 1.800 de pós-graduação, também lançou o MBA em Inteligência Artificial, com duração de 14 meses e carga horária de 460 horas. O programa aborda fundamentos da IA, ecossistemas de dados em saúde e nova biologia, além de ética, regulação e governança – temas que acompanham a adoção dessas ferramentas na assistência e na pesquisa.

 

 

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP


Perda súbita da visão pode ser sinal de AVC, alerta neuroftalmologista

Imagem de gpointstudio no Magnific
Visão dupla e perda de parte do campo visual também podem indicar um acidente vascular cerebral; reconhecer os sintomas e buscar atendimento imediato é fundamental


Em 29 de outubro, Dia Mundial do AVC (acidente vascular cerebral) e Dia Nacional de Prevenção do AVC, o cenário brasileiro reforça a importância do reconhecimento precoce da doença. Segundo estimativas divulgadas pela Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC), o país registra entre 232 mil e 344 mil novos casos por ano, o equivalente a aproximadamente 978 casos por dia, ou um AVC a cada 1,5 a 2 minutos. Entre as manifestações que merecem atenção estão as alterações visuais, como perda súbita da visão, visão dupla e perda de parte do campo visual, que podem surgir mesmo sem outros sinais clássicos do acidente vascular cerebral. 

“O AVC acontece quando há uma alteração súbita da circulação sanguínea no cérebro, que pode ocorrer pelo bloqueio de um vaso, caracterizando o tipo isquêmico, ou pelo rompimento de um vaso, provocando uma hemorragia, no tipo hemorrágico”, explica Dra. Ana Laura de Araújo Moura, neuroftalmologista do H.Olhos. Segundo a especialista, os dois tipos podem comprometer a visão, e os sintomas dependem principalmente da região cerebral afetada e das estruturas envolvidas no processamento das imagens. 

A visão não depende apenas dos olhos. Embora sejam responsáveis por captar a luz e formar as imagens, é no cérebro que as informações visuais são processadas e interpretadas. Os sinais seguem pelos nervos ópticos e percorrem vias visuais que passam por diferentes regiões cerebrais, incluindo os lobos parietal, temporal e occipital. Quando um AVC atinge essas estruturas, pode prejudicar a capacidade de enxergar determinadas áreas do ambiente, distinguir cores ou interpretar imagens. Já as lesões no tronco cerebral podem afetar o controle dos movimentos oculares, provocando desalinhamento dos olhos, estrabismo e nistagmo, caracterizado por movimentos involuntários dos olhos. 

Entre os sinais que merecem atenção estão a perda súbita da visão em um ou nos dois olhos, a visão dupla e a perda de parte do campo visual, isto é, quando a pessoa deixa de enxergar determinadas áreas à sua frente, mesmo sem apresentar uma perda completa da visão. “Essas alterações podem indicar um quadro de AVC em instalação e precisam ser valorizadas, especialmente quando surgem de forma repentina”, alerta a médica. 

Um dos pontos de atenção é que os sintomas visuais podem aparecer isoladamente, sem os sinais mais conhecidos do AVC. Por isso, a ausência de fraqueza em um dos lados do corpo, assimetria facial ou dificuldade para falar não deve ser interpretada como garantia de que não há uma emergência neurológica. “Diferentemente de muitos problemas oftalmológicos comuns, que podem apresentar evolução gradual, as alterações visuais relacionadas ao AVC costumam surgir de forma súbita. Essa característica é um sinal de alerta importante”, ressalta Dra. Ana Laura. 

A prevenção também é fundamental e passa pelo controle dos principais fatores de risco. Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e obesidade estão entre as condições que aumentam a probabilidade de um AVC. A pressão alta pode danificar os vasos sanguíneos e favorecer tanto obstruções quanto rupturas. O diabetes prejudica o funcionamento dos vasos e acelera a formação de placas de gordura, enquanto o colesterol elevado contribui para o estreitamento das artérias que levam sangue ao cérebro. Já o tabagismo favorece a inflamação vascular e a formação de coágulos. “A atividade física regular, a alimentação equilibrada e o acompanhamento médico são medidas importantes para controlar esses fatores e reduzir o risco. Também é necessário considerar condições como a fibrilação atrial, um tipo de arritmia que pode favorecer a formação de coágulos, além da idade, do histórico familiar e de doenças vasculares prévias”, orienta a médica. 

Diante de uma alteração visual súbita, a recomendação é procurar atendimento de emergência imediatamente, sem esperar que o sintoma desapareça ou aguardar uma consulta oftalmológica de rotina. A perda de visão ou a visão dupla podem ter diferentes causas, e a avaliação médica ajuda a identificar a origem do problema e direcionar a investigação. “É fundamental agir rapidamente. O exame oftalmológico pode contribuir para diferenciar alterações na retina, nos nervos ópticos ou nas estruturas cerebrais, orientando os próximos passos. No entanto, diante da suspeita de AVC, a pessoa deve ser encaminhada imediatamente a um serviço de emergência, pois o tempo é decisivo para o tratamento”, enfatiza a especialista. 

Mesmo após o tratamento do AVC, algumas alterações visuais podem persistir, como perda de parte do campo visual, visão dupla e dificuldades que interferem na leitura, na locomoção e nas atividades cotidianas. A recuperação depende da localização e da extensão da lesão, podendo ser total, parcial ou haver sequelas permanentes. Os primeiros seis meses costumam ser importantes para a evolução, mas os ganhos funcionais podem continuar depois desse período, graças à neuroplasticidade, capacidade de o cérebro reorganizar suas conexões. 

Após a estabilização clínica, a avaliação oftalmológica permite identificar as alterações e orientar estratégias de reabilitação individualizadas. Para pacientes com visão dupla, por exemplo, podem ser indicados óculos com prismas ou, em situações específicas, cirurgia. Já pessoas com perda de campo visual ou visão subnormal podem se beneficiar de programas de reabilitação que favoreçam a adaptação às limitações, a autonomia e a qualidade de vida. “O acompanhamento é importante para compreender as necessidades de cada paciente e buscar a melhor funcionalidade possível. Mesmo quando a recuperação não é completa, existem estratégias que ajudam a pessoa a retomar atividades e conquistar mais independência”, conclui a neuroftalmologista.



Outubro Rosa: diagnóstico precoce e cuidado que devem durar o ano inteiro


O Outubro Rosa é muito mais do que uma campanha de conscientização. É um movimento de saúde pública que reforça a importância da informação, do diagnóstico precoce e do acesso ao cuidado para milhares de mulheres. Surgida nos Estados Unidos na década de 1990, a iniciativa ganhou força no Brasil a partir dos anos 2000 e se consolidou como uma das principais mobilizações em torno da saúde feminina. Seu legado também contribuiu para fortalecer outras campanhas de conscientização em saúde, mostrando que informar é um passo fundamental para prevenir complicações e salvar vidas.

O câncer de mama é uma doença que exige atenção, conhecimento e acompanhamento adequado. Nesse contexto, o Outubro Rosa cumpre um papel essencial ao ampliar o acesso à informação de qualidade, esclarecer dúvidas e estimular as mulheres a reconhecerem a importância do cuidado com a própria saúde. Mais do que divulgar uma causa durante um mês, a campanha nos convida a transformar a conscientização em uma atitude permanente. 

Conhecer os principais fatores de risco é parte importante desse processo. A idade, especialmente a partir dos 50 anos, o histórico familiar e determinadas alterações genéticas hereditárias estão entre os fatores associados ao desenvolvimento do câncer de mama. Também merecem atenção questões hormonais, o excesso de peso após a menopausa, o consumo de bebidas alcoólicas e o sedentarismo. É fundamental compreender, porém, que a presença desses fatores não significa que a doença necessariamente se desenvolverá. Da mesma forma, mulheres sem fatores de risco conhecidos também podem receber esse diagnóstico. 

Por isso, a adoção de hábitos saudáveis deve fazer parte da rotina. A prática regular de atividade física, a manutenção de um peso adequado, uma alimentação equilibrada e a redução do consumo de bebidas alcoólicas contribuem para diminuir o risco. Essas medidas, entretanto, não eliminam completamente a possibilidade de desenvolver a doença e não substituem o acompanhamento de saúde nem os exames recomendados. 

Outro aspecto fundamental é conhecer o próprio corpo e estar atenta a alterações nas mamas. O aparecimento de nódulos na mama ou na axila, mudanças no formato, alterações na pele, retração do mamilo e saída espontânea de secreção são sinais que merecem avaliação profissional. É importante lembrar que o câncer de mama nem sempre provoca dor. Por isso, diante de qualquer alteração nova ou persistente, a orientação é procurar atendimento de saúde, sem esperar que outros sintomas apareçam. 

O diagnóstico precoce pode ampliar as possibilidades de tratamento e favorecer melhores resultados. Quando a doença é identificada em fases iniciais, há maior possibilidade de tratamentos eficazes e, em muitos casos, de abordagens menos agressivas, preservando a qualidade de vida da paciente. Essa é uma das principais razões pelas quais o rastreamento, realizado em mulheres sem sintomas, tem papel relevante nas estratégias de cuidado. 

No Brasil, existem recomendações diferentes sobre a idade de início da mamografia para mulheres sem sintomas e com risco habitual. O Ministério da Saúde recomenda, no âmbito do rastreamento populacional pelo Sistema Único de Saúde, a realização do exame a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia recomendam a mamografia anual dos 40 aos 74 anos. Essas diferenças reforçam a importância de discutir com um profissional de saúde a estratégia mais adequada para cada mulher, considerando as diretrizes adotadas e suas circunstâncias individuais. 

O histórico familiar também pode modificar essa orientação. Mulheres com parentes de primeiro grau diagnosticadas com câncer de mama, especialmente em idade jovem, ou com histórico familiar de câncer de ovário podem precisar de avaliação individualizada, início antecipado do rastreamento e, em determinadas situações, exames complementares. É essencial distinguir o rastreamento da investigação diagnóstica: diante de um nódulo, de secreção sanguinolenta pelo mamilo, de retrações ou de outras alterações suspeitas, a mulher deve procurar avaliação médica independentemente da idade, sem aguardar o momento previsto para os exames de rotina. 

Apesar da importância dessas medidas, muitas mulheres ainda adiam consultas e exames por medo, insegurança ou dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Nesse cenário, os profissionais têm uma responsabilidade que vai além da orientação clínica. Acolher, escutar, esclarecer dúvidas e apresentar informações de maneira clara e acessível são atitudes fundamentais para reduzir receios e fortalecer a confiança. Também é necessário reconhecer as barreiras práticas enfrentadas por muitas pacientes, como dificuldades de agendamento, deslocamento e acesso aos serviços. 

A conscientização só produz resultados efetivos quando está acompanhada de condições reais para o cuidado. Não basta orientar a mulher a realizar exames se ela não consegue agendá-los ou obter acompanhamento após um resultado suspeito. Ampliar o acesso aos serviços de saúde, garantir continuidade assistencial e facilitar o encaminhamento para diagnóstico e tratamento são compromissos indispensáveis para que a campanha se traduza em benefícios concretos. 

Quando o diagnóstico de câncer de mama chega, o impacto ultrapassa a dimensão física. Medo, angústia e insegurança podem fazer parte dessa experiência, que exige atenção às necessidades emocionais e sociais da paciente. O acolhimento, o apoio da família, a presença dos amigos e o acompanhamento de uma equipe multiprofissional contribuem para enfrentar as dificuldades do tratamento e preservar a autoestima e a qualidade de vida. 

Cuidar de uma mulher com câncer de mama significa enxergá-la para além da doença, respeitando sua história, suas escolhas e suas necessidades. A assistência deve ser pautada pela empatia, pela escuta e pelo respeito, reconhecendo que cada paciente vive essa experiência de maneira particular. 

O maior desafio do Outubro Rosa é fazer com que a mobilização de outubro permaneça viva durante os outros onze meses do ano. O cuidado não pode se limitar a campanhas, ações pontuais ou mensagens divulgadas nas redes sociais. Ele precisa estar presente nas consultas regulares, na atenção aos sinais do corpo, na realização dos exames indicados e na busca por atendimento sempre que necessário. 

Como médica e como mulher, acredito que cuidar da própria saúde deve ser uma prioridade, e não uma tarefa constantemente adiada. Muitas vezes, as mulheres assumem responsabilidades com a família, o trabalho e as pessoas ao redor e acabam deixando as próprias necessidades em segundo plano. É preciso mudar essa lógica e compreender que cuidar de si também é uma forma de amor e responsabilidade. 

O Outubro Rosa nos lembra que informação de qualidade, diagnóstico precoce, acolhimento e acesso ao tratamento podem fazer a diferença na vida de muitas mulheres. Que essa mensagem não se restrinja a um mês, mas se transforme em compromisso diário com a saúde, o bem-estar e a longevidade feminina. Afinal, conscientizar é cuidar, e cuidar deve ser uma prioridade durante todo o ano.

 

Karina Cury De Marchi - médica infectologista, com residência médica em Infectologia pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP). Atua como responsável pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Hospital de Transição do Grupo CENE Home Care. Também exerce atividade assistencial no Complexo de Doenças Crônicas Transmissíveis da Prefeitura de São José do Rio Preto.


Psoríase vai além da pele e pode comprometer a saúde física e emocional

No Dia Mundial da Psoríase, celebrado em 29 de outubro, SBD-RS alerta para os riscos associados à doença, o impacto do preconceito e os avanços nos tratamentos 

 

A psoríase é frequentemente reconhecida pelas manchas avermelhadas e placas com descamação na pele, mas seus efeitos podem ir muito além das manifestações visíveis. A doença inflamatória crônica está associada a problemas articulares, alterações cardiovasculares e impactos importantes na saúde emocional. No Dia Mundial da Psoríase, celebrado na quinta-feira (29/10), a Sociedade Brasileira de Dermatologia – Secção do Rio Grande do Sul (SBD-RS) chama a atenção para a importância do diagnóstico, do acompanhamento médico e do combate ao preconceito que ainda atinge quem convive com a condição.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a psoríase afeta cerca de 2% da população mundial. Apesar de não ser contagiosa, a doença ainda desperta dúvidas e provoca situações de discriminação. Para o presidente da SBD-RS, Dr. Juliano Peruzzo, a falta de informação é um dos principais obstáculos enfrentados pelos pacientes.

“A psoríase ainda é cercada por muito preconceito. Algumas pessoas acreditam que ela seja contagiosa, o que não é verdade. Como as lesões podem chamar a atenção, muitos pacientes acabam enfrentando dificuldades nas relações sociais e até mesmo no ambiente de trabalho. Precisamos ampliar o conhecimento sobre a doença e mostrar que ela vai muito além da pele”, explica.


Riscos para a saúde exigem atenção

Uma das principais condições associadas à psoríase é a artrite psoriásica, caracterizada pela inflamação das articulações, que pode provocar dor, rigidez e limitações nos movimentos. Além disso, pessoas com a doença apresentam maior risco de desenvolver hipertensão arterial, diabetes, obesidade e problemas cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

O presidente da SBD-RS ressalta que essas associações reforçam a necessidade de uma avaliação médica abrangente, que considere não apenas as manifestações cutâneas, mas também outros aspectos da saúde.

“Hoje sabemos que os pacientes com psoríase apresentam maior risco cardiometabólico. Por isso, o acompanhamento não pode ficar restrito às lesões. É importante observar possíveis doenças associadas e oferecer um cuidado que considere o paciente como um todo”, destaca.


Impacto emocional também influencia o tratamento

A extensão das lesões nem sempre corresponde à intensidade do sofrimento provocado pela psoríase. Mesmo quando pequenas áreas do corpo são afetadas, a condição pode interferir na autoestima, nos relacionamentos pessoais, na intimidade e na vida profissional.

Esse comprometimento da qualidade de vida passou a ter um peso cada vez maior nas decisões médicas. Em determinadas situações, o impacto emocional pode justificar a indicação de tratamentos sistêmicos, que atuam no organismo, mesmo quando a área atingida é limitada.

“Não podemos avaliar a gravidade da psoríase apenas pela quantidade de pele comprometida. Existem pacientes com poucas lesões, mas com um sofrimento emocional muito importante. O tratamento precisa considerar essa realidade e buscar a recuperação da qualidade de vida”, observa o dermatologista.


Avanços permitem controle cada vez maior da doença

Embora a psoríase não tenha cura os avanços terapêuticos das últimas décadas transformaram as perspectivas para quem convive com a condição. Novas medicações, incluindo tratamentos imunobiológicos, permitem alcançar uma redução expressiva das lesões e, em muitos casos, uma pele completamente ou quase completamente livre das manifestações da doença.

“Há alguns anos, conseguir uma pele livre de lesões era uma realidade para uma parcela menor dos pacientes. Hoje, com os tratamentos disponíveis, conseguimos resultados muito mais expressivos. Isso representa não apenas uma melhora na aparência, mas também a possibilidade de recuperar a confiança, o bem-estar e a qualidade de vida”, salienta o Dr. Juliano Peruzzo.

O controle da psoríase exige acompanhamento contínuo, já que a doença pode apresentar períodos de melhora e de agravamento. Fatores como estresse emocional podem contribuir para o surgimento ou a intensificação das manifestações, tornando importante uma abordagem individualizada.

Diante de lesões persistentes, descamação ou outros sinais suspeitos, a orientação é procurar um médico dermatologista. Os profissionais habilitados podem ser consultados no site http://www.sbdrs.org.br/.

  

Marcelo Matusiak


Dia Mundial do AVC: recuperação após o episódio exige cuidados que vão além da alta hospitalar

Neurologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz destaca a importância da reabilitação, da prevenção de novos episódios e do acompanhamento funcional para preservar a autonomia dos pacientes 

 

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) motivou cerca de 292 mil atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde3. Considerada a segunda principal causa de morte e incapacidade no mundo pela Organização Mundial da Saúde (OMS)4, a doença pode deixar consequências que se estendem por meses ou anos.

No Dia Mundial de Combate ao AVC, celebrado em 29 de outubro, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz chama a atenção para os desafios que permanecem após a emergência, desde a prevenção de novos episódios até a recuperação da independência e da qualidade de vida.

Popularmente conhecido como derrame, o AVC acontece quando o fornecimento de sangue a uma região do cérebro é interrompido ou quando um vaso sanguíneo se rompe. No tipo isquêmico, responsável por aproximadamente 85% dos casos, segundo o Ministério da Saúde1, a obstrução de uma artéria impede a chegada de oxigênio às células cerebrais. Já o hemorrágico ocorre quando há rompimento de um vaso, provocando sangramento dentro do cérebro ou em suas proximidades. Embora menos frequente, essa forma da doença costuma apresentar maior risco de morte.

A diferença entre os dois tipos determina a escolha do tratamento. Em determinados casos de AVC isquêmico, é possível administrar medicamentos para dissolver o coágulo ou realizar procedimentos para retirá-lo por meio de cateteres.

Já diante de uma hemorragia, as medidas podem incluir controle da pressão arterial, cuidados intensivos e, em algumas situações, intervenção cirúrgica4. Exames de imagem, como a tomografia, são fundamentais para identificar a natureza da lesão e orientar a conduta médica.

“O cérebro é extremamente sensível à falta de oxigênio, por isso cada minuto importa. Mas o prognóstico não depende apenas da rapidez do atendimento. A extensão da lesão, a região afetada e as condições de saúde de cada pessoa também influenciam as chances de recuperação. Há situações em que conseguimos limitar consideravelmente os danos e outras em que, mesmo com o tratamento adequado, podem permanecer sequelas importantes”, explica o neurologista Dr. Diogo Haddad, head do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.


O que determina a recuperação após um AVC?

As consequências de um episódio podem ir além das dificuldades para caminhar ou movimentar um dos lados do corpo. Dependendo da área cerebral comprometida, também podem surgir alterações na fala, memória, atenção, comportamento e deglutição. Algumas limitações são percebidas imediatamente, enquanto outras se tornam mais evidentes quando a pessoa tenta retomar suas atividades cotidianas.

Os primeiros meses costumam representar um período importante para a evolução funcional, embora os avanços possam continuar por mais tempo. O ritmo varia de acordo com a gravidade do quadro, as condições anteriores de saúde e as necessidades de cada indivíduo. Em alguns casos, é possível recuperar grande parte das habilidades comprometidas; em outros, será necessário adaptar a rotina e conviver com limitações permanentes.

A assistência nessa etapa pode envolver neurologistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais. Mais do que recuperar movimentos, a abordagem multidisciplinar busca identificar complicações e oferecer condições para uma retomada segura das atividades. Uma dificuldade para engolir, por exemplo, pode favorecer a aspiração de alimentos e provocar pneumonia, enquanto alterações cognitivas podem comprometer o retorno ao trabalho e a participação social.


Resultados do tratamento também são avaliados após a alta

No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, os desfechos clínicos são utilizados para compreender os resultados da assistência para além da internação. Segundo os indicadores institucionais referentes a 2025, 94% dos pacientes avaliados após AVC isquêmico apresentaram nenhuma ou leve incapacidade funcional 90 dias depois da alta hospitalar, conforme a Escala Modificada de Rankin, instrumento que mede o grau de independência para realizar atividades do cotidiano.

O levantamento também registrou 100% de satisfação ou muita satisfação com os resultados do tratamento entre os participantes avaliados nesse indicador. As informações integram um programa institucional iniciado recentemente, que reúne avaliações clínicas e a percepção dos próprios pacientes sobre sua evolução. O objetivo é compreender como o cuidado recebido se reflete na qualidade de vida e identificar oportunidades de aprimoramento da assistência.

“Sobreviver ao AVC é o primeiro objetivo, mas é igualmente importante compreender em quais condições a pessoa consegue retomar sua rotina. Dois pacientes podem apresentar lesões semelhantes e evoluir de maneiras muito diferentes. Por isso, avaliar a capacidade funcional e identificar dificuldades que permanecem após a internação é fundamental para orientar as próximas etapas do cuidado”, destaca Haddad.


Como reconhecer os sinais e prevenir novos episódios?

O controle dos fatores de risco continua sendo uma das principais formas de prevenção. Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo e sedentarismo aumentam a probabilidade de ocorrência da doença. Alterações cardíacas, como a fibrilação atrial, também merecem atenção, pois podem favorecer a formação de coágulos capazes de atingir o cérebro. Para quem já sofreu um AVC, investigar sua causa e seguir o tratamento prescrito são medidas essenciais para reduzir o risco de recorrência.

O Ministério da Saúde orienta atenção a sintomas que surgem repentinamente, como perda de força ou sensibilidade em um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar ou compreender palavras, alterações da visão e perda de equilíbrio. Dor de cabeça muito intensa e de início súbito também pode representar um sinal de alerta1.

Uma forma simples de reconhecer possíveis alterações é pedir que a pessoa sorria, levante os dois braços e repita uma frase. Caso apresente assimetria facial, dificuldade para sustentar um dos braços ou mudanças na fala, é necessário procurar atendimento imediatamente. A ausência desses sinais, entretanto, não descarta a possibilidade da doença.

Diante de qualquer suspeita, a recomendação é buscar atendimento médico de emergência imediatamente, informando o horário em que os sintomas começaram. Não se deve esperar que os sinais desapareçam, administrar medicamentos por conta própria ou oferecer alimentos e bebidas. Mesmo quando há melhora espontânea, é necessária uma avaliação urgente, pois pode se tratar de um ataque isquêmico transitório, condição que também exige investigação médica.

 

Hospital Alemão Oswaldo Cruz


Excesso de treino afeta a regulação química do cérebro, mostra estudo

Os cientistas dividiram os camundongos em dois grupos: o primeiro passou por um teste de esforço agudo, correndo em uma esteira até a exaustão.; o segundo simulou a rotina severa de atletas de alto rendimento que sofrem da síndrome de overtraining  (imagem: Miguel Boyayan/revista Pesquisa FAPESP)

 

Experimentos com camundongos revelam que o overtraining mantém os níveis de dopamina no cérebro elevados durante o repouso. Alteração pode estar ligada a sintomas como ansiedade e perturbações no sono

  

O excesso de exercícios físicos não afeta apenas os músculos; ele também pode alterar a química do cérebro. Um novo estudo publicado na revista Neuroscience revelou que treinamentos exaustivos e sem o descanso adequado modificam a regulação de dopamina no hipocampo, uma região cerebral intimamente ligada à memória e à regulação das emoções.

Ao observar camundongos submetidos a uma rotina de exercícios intensos, pesquisadores brasileiros notaram que a dopamina – neurotransmissor essencial para nos manter alertas e motivados – permaneceu alta justamente na hora em que os animais deveriam estar repousando. Se esse mesmo mecanismo se confirmar em humanos, a descoberta pode ajudar a explicar por que atletas que treinam além da conta frequentemente sofrem com ansiedade, insônia e fadiga crônica, destacando a importância biológica do descanso para o rendimento físico e a saúde mental.

“Nossos achados mostram que o excesso de exercício físico não afeta apenas o músculo esquelético, mas tem um impacto pronunciado no cérebro”, afirma Alisson Luiz da Rocha, primeiro autor do estudo, realizado como parte de seu doutorado na Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EEFERP-USP) com bolsa da FAPESP. Segundo ele, os dados reforçam a visão de que a atividade física atua de forma direta e profunda no sistema nervoso central, indo muito além da mera construção de massa muscular.


Simulação de overtraining

Para entender essa dinâmica, os cientistas dividiram camundongos em dois grupos principais. O primeiro passou por um teste de esforço agudo, correndo em uma esteira até a exaustão. Já o segundo grupo simulou a rotina severa de atletas de alto rendimento que sofrem da síndrome de overtraining, caracterizada por perda de performance e de apetite, fadiga crônica, dor muscular, aumento de lesões, alterações no sistema imune e no metabolismo (leia mais em: agencia.fapesp.br/54706).

Nesse segundo grupo, os roedores treinaram por oito semanas com cargas progressivamente mais pesadas, chegando a duas sessões diárias separadas por apenas quatro horas de recuperação na última semana. Em seguida, os pesquisadores analisaram o hipocampo dos animais, medindo os níveis de dopamina, serotonina e de proteínas envolvidas na produção desses neurotransmissores, como a tirosina hidroxilase (TyrH) e o transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2).

Os resultados mostraram que, no exercício agudo, a dopamina subiu logo após o fim da corrida. No entanto, o achado mais crítico ocorreu no grupo do treinamento crônico: os níveis de dopamina e da enzima TyrH, responsável por sua síntese, estavam elevados 48 horas após o teste de desempenho, durante a fase de repouso dos camundongos.

Segundo o coordenador do estudo, o professor da EEFERP-USP Adelino Sanchez Ramos da Silva, caso alterações semelhantes ocorram em humanos, elas poderão contribuir para compreender possíveis relações entre o treinamento excessivo, a regulação cerebral e os distúrbios do sono.

Vale ressaltar, contudo, que o estudo não mediu sono, estado de alerta ou ansiedade. A relação entre o achado nos camundongos e esses sintomas em humanos poderá ser explorada em pesquisas futuras.


O pesquisador Alisson Luiz da Rocha no laboratório: protocolo com animais
fornece informações importantes sobre o exercício físico exagerado em humanos
 (foto: Alisson Luiz da Rocha/Universidade de Michigan)

O papel da dopamina

Os autores enfatizam que a dopamina não é uma vilã biológica, já que é fundamental para a sensação de prazer e para nos manter despertos nas horas certas. O problema real, como aponta Rocha, é o desequilíbrio gerado quando ela aumenta na hora de dormir, além da proporção desigual que se cria em relação a outros neurotransmissores. Curiosamente, a pesquisa não encontrou diferenças significativas nos níveis de serotonina dos animais, contrariando uma hipótese antiga de que essa substância isolada seria a grande causadora da fadiga excessiva.

Embora a relação direta com o sono e a ansiedade em humanos ainda precise ser medida em testes futuros, a mensagem principal é clara. Para evitar a perda de performance, dores crônicas e falhas no sistema imune, respeitar o tempo de recuperação do corpo é inegociável. Tanto para atletas profissionais quanto para os amadores, os benefícios do exercício podem ser perdidos se a prática não for acompanhada de descanso adequado e orientação especializada.

Parte da investigação foi realizada durante o pós-doutorado de Rocha na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Limeira, com estágio na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, onde atualmente é pesquisador. O grupo também recebeu financiamento por meio de um Projeto Temático coordenado por Silva, além de bolsas de pós-doutorado para Ana Paula Pinto e de doutorado direto para João Pedro Floriano, ambos na EEFERP-USP.

O grupo agora trabalha em um novo projeto, em colaboração internacional, para investigar quais sistemas biológicos manifestam os primeiros sinais de desvio das adaptações benéficas esperadas do exercício físico.

O artigo Excessive training alters hippocampal tyrosine hydroxylase and dopamine homeostasis in mice pode ser lido em: ibroneuroscience.org/article/S0306-4522(26)00535-X/.

 

André Julião

Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/excesso-de-treino-afeta-a-regulacao-quimica-do-cerebro-mostra-estudo/59468



Aumentar a letra do celular pode esconder uma dificuldade maior

Especialista explica como os avanços na cirurgia do cristalino podem proporcionar qualidade visual e independência dos óculos 

 

Aumentar a letra do celular, afastar o cardápio para conseguir ler, procurar mais iluminação ou recorrer aos óculos para tarefas simples são situações que passam a fazer parte da rotina de muitas pessoas a partir dos 40 anos. Essas adaptações, aparentemente inofensivas, podem indicar uma alteração progressiva no funcionamento do cristalino, a lente natural do olho responsável, entre outras funções, por ajustar o foco para diferentes distâncias.

Essa condição é conhecida como presbiopia, popularmente chamada de vista cansada, e ocorre pela perda gradual da capacidade de acomodação do cristalino. Segundo o oftalmologista Dr. Arthur van den Berg, especialista em cirurgia de catarata e troca do cristalino, os primeiros sinais costumam ser incorporados ao cotidiano sem que o paciente perceba a origem do problema. 

O paciente nem sempre percebe quando passou a adaptar sua rotina. “Primeiro afasta o celular, depois aumenta a letra, procura mais luz e, quando percebe, já depende dos óculos para inúmeras atividades. Essas mudanças são sinais de que o cristalino está perdendo sua capacidade natural de focalização”, explica.


O envelhecimento do cristalino começa antes da catarata

Embora a catarata seja uma das alterações mais conhecidas dessa estrutura, seu envelhecimento começa muitos anos antes do surgimento de uma opacidade visualmente significativa. A partir dos 40 anos, a capacidade de acomodação diminui progressivamente, afetando principalmente a visão de perto. Com o tempo, também podem ocorrer mudanças na transparência e na qualidade óptica.

A catarata representa uma dessas alterações, caracterizada pela perda de transparência do cristalino, que pode provocar visão embaçada, redução do contraste, maior sensibilidade à luz e dificuldades nas atividades cotidianas.

Para van den Berg, compreender essa evolução permite discutir alternativas de tratamento antes que o comprometimento visual se intensifique. “Existe uma ideia muito difundida de que precisamos esperar a catarata aparecer para realizar uma cirurgia do cristalino. Mas isso não é necessariamente verdade. Hoje, em pacientes adequadamente selecionados, especialmente acima dos 50 anos, podemos considerar a troca do cristalino antes do desenvolvimento da catarata, com o objetivo de corrigir a presbiopia, outros erros refrativos e proporcionar independência dos óculos”, esclarece.

A mesma cirurgia em diferentes momentos da vida

A cirurgia de catarata e a troca do cristalino transparente utilizam essencialmente a mesma técnica. Em ambos os procedimentos, a lente natural do olho é removida e substituída por uma lente intraocular (LIO) artificial, selecionada conforme as características oculares e os objetivos visuais de cada pessoa.

A diferença está na indicação. Enquanto a primeira é realizada quando a opacidade compromete a qualidade da visão, a segunda pode ser considerada antes do desenvolvimento da doença, especialmente em pacientes acima dos 50 anos que apresentam presbiopia e desejam reduzir a dependência dos óculos.

A decisão, entretanto, exige uma análise que vai além da faixa etária. Saúde ocular, grau, condições da córnea e da retina, hábitos e expectativas precisam ser considerados. “Não existe uma idade única para indicar a cirurgia. O mais importante é compreender o momento de vida do paciente, suas dificuldades visuais e avaliar se os benefícios do procedimento justificam seus riscos. A decisão precisa ser individualizada”, destaca o oftalmologista.


Novas lentes ampliam as possibilidades de independência dos óculos

Um dos principais avanços desses procedimentos está no desenvolvimento de lentes intraoculares com diferentes possibilidades de correção. Entre elas estão as trifocais, projetadas para proporcionar visão de longe, intermediária e de perto, permitindo que pacientes adequadamente selecionados alcancem independência dos óculos nas três distâncias.

Na prática, isso pode facilitar atividades como dirigir, utilizar o computador, consultar o celular, ler, praticar esportes e trabalhar. Existem ainda lentes de profundidade de foco estendida, que ampliam a faixa de visão nítida, além de outras tecnologias indicadas conforme as características dos olhos e as prioridades individuais.

“Hoje, com as tecnologias modernas de lentes intraoculares, especialmente as trifocais, podemos oferecer independência dos óculos em todas as distâncias: longe, intermediária e perto. Mas não existe uma lente ideal para todas as pessoas. O segredo está em escolher a tecnologia mais adequada para cada olho e para o estilo de vida de cada paciente”, explica Dr. Arthur.

Os resultados, porém, não são iguais para todos. Algumas tecnologias podem produzir fenômenos luminosos, como halos ao redor das luzes, ou apresentar diferenças na sensibilidade ao contraste, que é a capacidade de distinguir objetos do fundo. Por isso, a avaliação pré-operatória e o alinhamento das expectativas são fundamentais para a escolha.


Planejamento personalizado é fundamental para o resultado

Com mais de 20 mil cirurgias realizadas e formação complementar em instituições como Harvard Medical School, Medical University of South Carolina e Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), van den Berg desenvolveu o PROTOCOLO VDB®, modelo de planejamento cirúrgico personalizado voltado à independência dos óculos.

O método reúne exames de alta precisão, avaliação detalhada da saúde ocular, análise das necessidades visuais e seleção individualizada da lente intraocular. O objetivo é proporcionar a máxima liberdade possível, respeitando as particularidades de cada paciente.

“Duas pessoas da mesma idade, com graus semelhantes, podem precisar de soluções completamente diferentes. Uma pode passar o dia no computador, outra praticar esportes, dirigir à noite ou trabalhar com atividades que exigem visão de perto. Tudo isso influencia nosso planejamento. Não se trata simplesmente de escolher uma lente, mas de planejar o resultado visual que queremos oferecer”, afirma.


É preciso esperar a catarata para deixar de usar óculos?

A espera não é obrigatória em todos os casos. Pessoas acima dos 50 anos, com perda importante da capacidade de acomodação e desejo de independência dos óculos, podem ser candidatas à troca do cristalino transparente, desde que os exames indiquem uma relação favorável entre benefícios e riscos.

Além de corrigir alterações visuais, o procedimento elimina a possibilidade de formação futura de catarata no olho operado, uma vez que a estrutura natural responsável pela doença é removida e substituída pela lente artificial.

Isso não significa que a cirurgia seja recomendada para todos nessa faixa etária. Óculos, lentes de contato e outras alternativas permanecem válidos, conforme a condição clínica. “A cirurgia não deve ser indicada apenas porque o paciente chegou a determinada idade ou porque deseja abandonar os óculos. Precisamos avaliar cuidadosamente a saúde dos olhos, as expectativas e o potencial de benefício. Quando existe uma boa indicação, a troca do cristalino pode representar uma mudança muito significativa na qualidade de vida”, ressalta.


Mais liberdade para as atividades do dia a dia

A dificuldade para enxergar de perto pode parecer pequena no início, mas seus efeitos se acumulam. Ler uma mensagem, consultar o relógio, visualizar o painel do carro ou realizar atividades profissionais são situações nas quais a necessidade constante dos óculos pode se tornar um incômodo.

Para muitas pessoas, reduzir essa dependência representa mais do que melhorar os resultados dos exames oftalmológicos. Significa recuperar a praticidade e a autonomia em atividades cotidianas.

“Nosso objetivo vai além de corrigir o grau. Queremos proporcionar máxima liberdade visual, permitindo que o paciente realize suas atividades com a menor dependência possível dos óculos, preservando a qualidade da visão. Afinal, enxergar bem em todas as distâncias é parte importante da autonomia e da qualidade de vida”, conclui Dr. Arthur van den Berg.

Embora o envelhecimento do cristalino seja inevitável, os avanços no planejamento cirúrgico e nas lentes intraoculares ampliaram as alternativas de tratamento para pacientes selecionados, permitindo considerar a independência dos óculos mesmo antes do aparecimento da catarata. 



Dr. Arthur van den Berg - CRM-PR 31365 | RQE 19497 - médico oftalmologista, especialista em cirurgia de catarata e troca do cristalino, com mais de 20 mil cirurgias realizadas. Possui formação pela Santa Casa de São Paulo, atuação acadêmica na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), aperfeiçoamento em segmento anterior no Storm Eye Institute, da Medical University of South Carolina (MUSC), nos Estados Unidos, e pós-graduação em Surgical Leadership pela Harvard Medical School. É criador do PROTOCOLO VDB®, voltado ao planejamento personalizado para independência dos óculos.
Site | Instagram | LinkedIn


Posts mais acessados