Neurologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz destaca a importância da reabilitação, da prevenção de novos episódios e do acompanhamento funcional para preservar a autonomia dos pacientes
O
Acidente Vascular Cerebral (AVC) motivou cerca de 292 mil atendimentos no
Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025, segundo dados divulgados pelo Ministério
da Saúde3. Considerada a segunda principal causa de morte e
incapacidade no mundo pela Organização Mundial da Saúde (OMS)4, a
doença pode deixar consequências que se estendem por meses ou anos.
No
Dia Mundial de Combate ao AVC, celebrado em 29 de outubro, o Hospital Alemão
Oswaldo Cruz chama a atenção para os desafios que permanecem após a emergência,
desde a prevenção de novos episódios até a recuperação da independência e da
qualidade de vida.
Popularmente
conhecido como derrame, o AVC acontece quando o fornecimento de sangue a uma
região do cérebro é interrompido ou quando um vaso sanguíneo se rompe. No tipo
isquêmico, responsável por aproximadamente 85% dos casos, segundo o Ministério
da Saúde1, a obstrução de uma artéria impede a chegada de oxigênio
às células cerebrais. Já o hemorrágico ocorre quando há rompimento de um vaso,
provocando sangramento dentro do cérebro ou em suas proximidades. Embora menos
frequente, essa forma da doença costuma apresentar maior risco de morte.
A
diferença entre os dois tipos determina a escolha do tratamento. Em
determinados casos de AVC isquêmico, é possível administrar medicamentos para
dissolver o coágulo ou realizar procedimentos para retirá-lo por meio de
cateteres.
Já
diante de uma hemorragia, as medidas podem incluir controle da pressão
arterial, cuidados intensivos e, em algumas situações, intervenção cirúrgica4.
Exames de imagem, como a tomografia, são fundamentais para identificar a
natureza da lesão e orientar a conduta médica.
“O
cérebro é extremamente sensível à falta de oxigênio, por isso cada minuto
importa. Mas o prognóstico não depende apenas da rapidez do atendimento. A
extensão da lesão, a região afetada e as condições de saúde de cada pessoa
também influenciam as chances de recuperação. Há situações em que conseguimos
limitar consideravelmente os danos e outras em que, mesmo com o tratamento
adequado, podem permanecer sequelas importantes”, explica o neurologista Dr.
Diogo Haddad, head do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão
Oswaldo Cruz.
O que determina a recuperação após um AVC?
As
consequências de um episódio podem ir além das dificuldades para caminhar ou
movimentar um dos lados do corpo. Dependendo da área cerebral comprometida,
também podem surgir alterações na fala, memória, atenção, comportamento e
deglutição. Algumas limitações são percebidas imediatamente, enquanto outras se
tornam mais evidentes quando a pessoa tenta retomar suas atividades cotidianas.
Os
primeiros meses costumam representar um período importante para a evolução
funcional, embora os avanços possam continuar por mais tempo. O ritmo varia de
acordo com a gravidade do quadro, as condições anteriores de saúde e as
necessidades de cada indivíduo. Em alguns casos, é possível recuperar grande
parte das habilidades comprometidas; em outros, será necessário adaptar a
rotina e conviver com limitações permanentes.
A
assistência nessa etapa pode envolver neurologistas, fisioterapeutas,
fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais. Mais do que
recuperar movimentos, a abordagem multidisciplinar busca identificar
complicações e oferecer condições para uma retomada segura das atividades. Uma
dificuldade para engolir, por exemplo, pode favorecer a aspiração de alimentos
e provocar pneumonia, enquanto alterações cognitivas podem comprometer o
retorno ao trabalho e a participação social.
Resultados do tratamento também são avaliados após a alta
No
Hospital Alemão Oswaldo Cruz, os desfechos clínicos são utilizados para
compreender os resultados da assistência para além da internação. Segundo os
indicadores institucionais referentes a 2025, 94% dos pacientes avaliados após
AVC isquêmico apresentaram nenhuma ou leve incapacidade funcional 90 dias
depois da alta hospitalar, conforme a Escala Modificada de Rankin, instrumento
que mede o grau de independência para realizar atividades do cotidiano.
O
levantamento também registrou 100% de satisfação ou muita satisfação com os
resultados do tratamento entre os participantes avaliados nesse indicador. As
informações integram um programa institucional iniciado recentemente, que reúne
avaliações clínicas e a percepção dos próprios pacientes sobre sua evolução. O
objetivo é compreender como o cuidado recebido se reflete na qualidade de vida
e identificar oportunidades de aprimoramento da assistência.
“Sobreviver
ao AVC é o primeiro objetivo, mas é igualmente importante compreender em quais
condições a pessoa consegue retomar sua rotina. Dois pacientes podem apresentar
lesões semelhantes e evoluir de maneiras muito diferentes. Por isso, avaliar a
capacidade funcional e identificar dificuldades que permanecem após a
internação é fundamental para orientar as próximas etapas do cuidado”, destaca
Haddad.
Como reconhecer os sinais e prevenir novos episódios?
O
controle dos fatores de risco continua sendo uma das principais formas de
prevenção. Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo e
sedentarismo aumentam a probabilidade de ocorrência da doença. Alterações
cardíacas, como a fibrilação atrial, também merecem atenção, pois podem
favorecer a formação de coágulos capazes de atingir o cérebro. Para quem já
sofreu um AVC, investigar sua causa e seguir o tratamento prescrito são medidas
essenciais para reduzir o risco de recorrência.
O
Ministério da Saúde orienta atenção a sintomas que surgem repentinamente, como
perda de força ou sensibilidade em um lado do corpo, boca torta, dificuldade
para falar ou compreender palavras, alterações da visão e perda de equilíbrio.
Dor de cabeça muito intensa e de início súbito também pode representar um sinal
de alerta1.
Uma
forma simples de reconhecer possíveis alterações é pedir que a pessoa sorria,
levante os dois braços e repita uma frase. Caso apresente assimetria facial,
dificuldade para sustentar um dos braços ou mudanças na fala, é necessário
procurar atendimento imediatamente. A ausência desses sinais, entretanto, não
descarta a possibilidade da doença.
Diante
de qualquer suspeita, a recomendação é buscar atendimento médico de emergência
imediatamente, informando o horário em que os sintomas começaram. Não se deve
esperar que os sinais desapareçam, administrar medicamentos por conta própria
ou oferecer alimentos e bebidas. Mesmo quando há melhora espontânea, é necessária
uma avaliação urgente, pois pode se tratar de um ataque isquêmico transitório,
condição que também exige investigação médica.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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