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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

“Marketing enlatado”: uso de inteligência artificial sem direção criativa pode apagar a identidade das marcas

 Textos genéricos e imagens intercambiáveis colocam em discussão os limites da automação; Marcus Mota, fundador da Quartel Design, defende o design autoral como caminho para preservar diferenciação e personalidade na comunicação.

 

Trocar o nome da empresa em uma publicação e perceber que ela serviria para qualquer concorrente é um sinal de alerta. Com ferramentas capazes de gerar textos e imagens em segundos, produzir conteúdo ficou mais acessível. O desafio é evitar que essa facilidade transforme a comunicação em uma sequência de mensagens que preenchem o calendário, mas pouco dizem sobre a marca.

Uma pesquisa publicada em 2024 na revista Science Advances ajuda a contextualizar essa discussão. Em um experimento de escrita de histórias curtas, o acesso a ideias geradas por inteligência artificial melhorou a avaliação individual dos textos, sobretudo entre participantes inicialmente menos criativos. Entretanto, as histórias produzidas com esse apoio ficaram mais semelhantes entre si. O estudo não analisou campanhas publicitárias, mas identificou uma tensão entre ganhos individuais de criação e diversidade do conteúdo produzido.

Para Marcus Mota, fundador e diretor criativo da Quartel Design, o problema começa quando a ferramenta passa a ocupar o lugar da estratégia. Sem clareza sobre posicionamento, público e linguagem, a empresa pode publicar com frequência e, ainda assim, ter dificuldade para construir uma identidade reconhecível.

“Uma peça pode estar visualmente bem resolvida e continuar sem personalidade. Se você troca o logotipo e ela funciona para qualquer empresa, precisamos perguntar o que existe ali daquela marca. A tecnologia acelera a produção, mas alguém precisa decidir o que vale a pena comunicar e por quê”, afirma.


O conteúdo precisa carregar escolhas da marca

O chamado “marketing enlatado”, na avaliação do diretor criativo, aparece na repetição de fórmulas sem conexão com o negócio. São frases de efeito que não expressam uma visão própria, imagens sem relação com a experiência do cliente e publicações que seguem tendências sem considerar se elas fazem sentido para aquela empresa.

A identidade também depende de coerência entre os pontos de contato. Vocabulário, fotografia, composição visual e forma de apresentar produtos precisam conversar entre si. Quando cada publicação nasce de um comando isolado, sem critérios compartilhados, essa continuidade pode se perder.

“O repertório criativo vem da observação, da conversa com o cliente e do entendimento do contexto. Uma boa ideia precisa encontrar uma forma de expressão que faça sentido para a marca. Aceitar a primeira resposta da ferramenta sem questionar é abrir mão dessa escolha”, explica Marcus.


Design autoral também envolve critério e direção

Para o fundador da Quartel, o design autoral está ligado à capacidade de construir soluções a partir de uma intenção. Isso envolve pesquisar, experimentar, selecionar e justificar decisões, inclusive quando recursos de inteligência artificial participam do processo.

A tecnologia pode apoiar explorações e etapas de produção, enquanto a equipe mantém a responsabilidade pela adequação das mensagens, pela verificação das informações e pela consistência do resultado. O ganho de velocidade precisa ser acompanhado por uma avaliação que vá além da aparência.

“Autoria aparece nas decisões: no que você escolhe mostrar, no que deixa de fora e na maneira como traduz a personalidade de um negócio. Usar uma ferramenta não elimina esse trabalho. Quanto mais fácil fica produzir, mais importante se torna ter critério para escolher”, ressalta.

Marcus defende que as empresas revisem seus conteúdos com uma pergunta simples: o público reconheceria aquela comunicação sem olhar o logotipo? “A marca precisa deixar uma impressão própria. Publicar mais pode ampliar a presença, mas é a consistência das escolhas que ajuda a transformar essa presença em reconhecimento”, conclui.

 

Fonte: Marcus Mota — fundador e diretor criativo da Quartel Design.

 

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