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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Vape pode envelhecer os vasos antes do tempo, diz estudo. Vascular comenta.

Um estudo publicado em 21 de outubro no JAMA Cardiology encontrou associação entre o uso diário de cigarros eletrônicos com nicotina e redução da função vascular e da aptidão cardiorrespiratória em adultos jovens que nunca haviam fumado cigarro convencional
 

A pesquisa avaliou 58 adultos jovens, com média de 26 anos e sem doença cardiovascular conhecida ou fatores de risco importantes. Entre eles, 17 utilizavam exclusivamente vape com nicotina, 19 fumavam cigarros convencionais e 22 não utilizavam nenhum dos dois. Para o cirurgião vascular Dr. Caio Focássio, o dado chama atenção principalmente por mostrar alterações em uma população que, pela pouca idade, muitas vezes não se enxerga como vulnerável a problemas circulatórios.

“Existe uma percepção de que doença vascular é algo que só deve preocupar depois dos 50 ou 60 anos. Mas nossos vasos respondem aos hábitos que mantemos desde cedo. O jovem pode não sentir absolutamente nada e, ainda assim, já apresentar alterações no funcionamento vascular”, explica.
 

O que o vape pode fazer com a saúde vascular

Um dos parâmetros avaliados pelos pesquisadores foi a dilatação mediada pelo fluxo, exame que ajuda a observar a capacidade do vaso sanguíneo de se dilatar adequadamente diante do aumento do fluxo de sangue.

Entre os participantes que nunca haviam usado cigarro ou vape, a dilatação média foi de 8,3%. Entre os usuários exclusivos de vape, caiu para 5,5%. Nos fumantes de cigarro convencional, foi de 4,4%.

Os pesquisadores também encontraram menor reatividade da artéria carótida nos usuários de vape e nos fumantes convencionais em comparação com o grupo não exposto.

“Uma artéria saudável precisa conseguir responder às necessidades do organismo, contraindo e dilatando adequadamente. Quando observamos prejuízo nessa resposta, estamos olhando para uma alteração funcional do sistema vascular”, explica.

A nicotina também pode provocar aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial e está relacionada a efeitos sobre os vasos. Além disso, o aerossol dos cigarros eletrônicos pode conter outras substâncias potencialmente tóxicas. A Anvisa alerta que esses produtos podem conter compostos como formaldeído, diacetil e metais pesados.
 

O fôlego também chamou atenção

O estudo não encontrou diferenças significativas na espirometria entre os grupos, mas os testes de exercício revelaram outro dado: o consumo máximo de oxigênio (VO₂ pico) foi menor entre os usuários de vape em comparação com aqueles que nunca utilizaram cigarros ou dispositivos eletrônicos.

Também foram observados valores menores de ventilação e débito cardíaco durante o exercício nos grupos que utilizavam vape ou cigarro convencional.

“Isso ajuda a mostrar por que não devemos pensar no vape apenas como uma questão pulmonar. Estamos falando de uma exposição que pode repercutir no sistema cardiovascular e na capacidade do organismo de responder ao esforço”, afirma o cirurgião vascular.

O próprio estudo encontrou alterações vasculares nos usuários de vape semelhantes, em alguns parâmetros, às observadas entre fumantes de cigarro convencional. Os autores, entretanto, ressaltam que a pesquisa não foi desenhada para estabelecer equivalência de risco entre os dois produtos.

“Não devemos transformar a discussão em escolher qual forma de fumar faz menos mal. Para um jovem que nunca fumou, a pergunta deveria ser outra: por que começar a expor seus vasos à nicotina e a outras substâncias potencialmente nocivas?”, questiona o médico.

No Brasil, a fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar permanecem proibidos pela Anvisa.
 

O problema pode começar antes de qualquer sintoma

Para o cirurgião vascular, essa talvez seja a principal mensagem do novo estudo.

Uma pessoa jovem não precisa sentir dor nas pernas, falta de ar ou qualquer outro sintoma para começar a apresentar alterações vasculares.

“O organismo jovem tem uma enorme capacidade de adaptação. E isso pode criar uma falsa sensação de segurança: ‘uso vape e não sinto nada, então não está fazendo mal’. O fato de você não perceber uma alteração não significa que ela não esteja acontecendo”, explica Dr. Caio.

O especialista ressalta que o estudo ainda tem limitações importantes. Trata-se de uma pesquisa transversal, realizada em um único centro e com apenas 58 participantes. Portanto, os resultados mostram associação e não permitem afirmar que o vape foi a causa direta das alterações, nem determinar quais serão as consequências clínicas após décadas de uso. Os próprios pesquisadores defendem estudos longitudinais para responder a essas questões.

“Talvez a mensagem mais importante para o jovem seja justamente não esperar o corpo dar um sinal para começar a se preocupar com a circulação. A saúde dos vasos é construída ao longo da vida — e aquilo que fazemos aos 20 anos também conta”, conclui.




FONTE: Dr. Caio Focássio - Cirurgião vascular formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. Pós graduado em Cirurgia Endovascular pelo Hospiten – Tenrife (Espanha). Médico assistente da Cirurgia Vascular da Santa Casa de São Paulo.
www.drcaio.com.br
Instagram: @drcaiofocassiovascular


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