Um estudo publicado
em 21 de outubro no JAMA Cardiology encontrou associação entre o uso diário de
cigarros eletrônicos com nicotina e redução da função vascular e da aptidão
cardiorrespiratória em adultos jovens que nunca haviam fumado cigarro
convencional
A pesquisa avaliou 58
adultos jovens, com média de 26 anos e sem doença cardiovascular conhecida ou
fatores de risco importantes. Entre eles, 17 utilizavam exclusivamente vape com
nicotina, 19 fumavam cigarros convencionais e 22 não utilizavam nenhum dos
dois. Para o cirurgião vascular Dr. Caio Focássio, o dado chama atenção
principalmente por mostrar alterações em uma população que, pela pouca idade,
muitas vezes não se enxerga como vulnerável a problemas circulatórios.
“Existe uma percepção de que doença vascular é algo que só deve
preocupar depois dos 50 ou 60 anos. Mas nossos vasos respondem aos hábitos que
mantemos desde cedo. O jovem pode não sentir absolutamente nada e, ainda assim,
já apresentar alterações no funcionamento vascular”, explica.
O que o vape pode fazer com a saúde vascular
Um dos parâmetros avaliados pelos pesquisadores foi a dilatação
mediada pelo fluxo, exame que ajuda a observar a capacidade do vaso sanguíneo
de se dilatar adequadamente diante do aumento do fluxo de sangue.
Entre os participantes que nunca haviam usado cigarro ou vape, a
dilatação média foi de 8,3%. Entre os usuários exclusivos de vape, caiu para
5,5%. Nos fumantes de cigarro convencional, foi de 4,4%.
Os pesquisadores também encontraram menor reatividade da artéria
carótida nos usuários de vape e nos fumantes convencionais em comparação com o
grupo não exposto.
“Uma artéria saudável precisa conseguir responder às necessidades
do organismo, contraindo e dilatando adequadamente. Quando observamos prejuízo
nessa resposta, estamos olhando para uma alteração funcional do sistema
vascular”, explica.
A nicotina também pode provocar aumento da frequência cardíaca e
da pressão arterial e está relacionada a efeitos sobre os vasos. Além disso, o
aerossol dos cigarros eletrônicos pode conter outras substâncias potencialmente
tóxicas. A Anvisa alerta que esses produtos podem conter compostos como
formaldeído, diacetil e metais pesados.
O fôlego também chamou atenção
O estudo não encontrou diferenças significativas na espirometria
entre os grupos, mas os testes de exercício revelaram outro dado: o consumo
máximo de oxigênio (VO₂ pico) foi menor
entre os usuários de vape em comparação com aqueles que nunca utilizaram
cigarros ou dispositivos eletrônicos.
Também foram observados valores menores de ventilação e débito
cardíaco durante o exercício nos grupos que utilizavam vape ou cigarro
convencional.
“Isso ajuda a mostrar por que não devemos pensar no vape apenas
como uma questão pulmonar. Estamos falando de uma exposição que pode repercutir
no sistema cardiovascular e na capacidade do organismo de responder ao
esforço”, afirma o cirurgião vascular.
O próprio estudo encontrou alterações vasculares nos usuários de
vape semelhantes, em alguns parâmetros, às observadas entre fumantes de cigarro
convencional. Os autores, entretanto, ressaltam que a pesquisa não foi
desenhada para estabelecer equivalência de risco entre os dois produtos.
“Não devemos transformar a discussão em escolher qual forma de
fumar faz menos mal. Para um jovem que nunca fumou, a pergunta deveria ser
outra: por que começar a expor seus vasos à nicotina e a outras substâncias
potencialmente nocivas?”, questiona o médico.
No Brasil, a fabricação, importação, comercialização,
distribuição, armazenamento, transporte e propaganda de dispositivos
eletrônicos para fumar permanecem proibidos pela Anvisa.
O problema pode começar antes de qualquer sintoma
Para o cirurgião vascular, essa talvez seja a principal mensagem
do novo estudo.
Uma pessoa jovem não precisa sentir dor nas pernas, falta de ar ou
qualquer outro sintoma para começar a apresentar alterações vasculares.
“O organismo jovem tem uma enorme capacidade de adaptação. E isso
pode criar uma falsa sensação de segurança: ‘uso vape e não sinto nada, então
não está fazendo mal’. O fato de você não perceber uma alteração não significa
que ela não esteja acontecendo”, explica Dr. Caio.
O especialista ressalta que o estudo ainda tem limitações
importantes. Trata-se de uma pesquisa transversal, realizada em um único centro
e com apenas 58 participantes. Portanto, os resultados mostram associação e não
permitem afirmar que o vape foi a causa direta das alterações, nem determinar
quais serão as consequências clínicas após décadas de uso. Os próprios
pesquisadores defendem estudos longitudinais para responder a essas questões.
“Talvez a mensagem mais importante para o jovem seja justamente não esperar o corpo dar um sinal para começar a se preocupar com a circulação. A saúde dos vasos é construída ao longo da vida — e aquilo que fazemos aos 20 anos também conta”, conclui.
FONTE: Dr. Caio Focássio - Cirurgião vascular formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. Pós graduado em Cirurgia Endovascular pelo Hospiten – Tenrife (Espanha). Médico assistente da Cirurgia Vascular da Santa Casa de São Paulo.
www.drcaio.com.br
Instagram: @drcaiofocassiovascular
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