"A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele." Hannah Arendt
Em períodos eleitorais, o país volta sua atenção
para as propostas, as declarações e os confrontos entre os candidatos. Mas
existe outra dimensão desse processo que merece ser observada: o que as
crianças aprendem ao acompanhar não apenas o debate político, mas também a
maneira como os adultos reagem a ele.
Depois de quase meio século dedicado à educação e à
convivência com crianças e adolescentes, aprendi que eles não escutam apenas
aquilo que lhes dizemos. Observam, sobretudo, quem somos quando não estamos
tentando ensiná-los.
Essa constatação não me coloca em uma posição
confortável. Ao contrário, obriga-me a perguntar quantas vezes minhas atitudes
ensinaram algo diferente daquilo que eu pretendia defender com minhas palavras.
A distância entre o discurso e a maneira como agimos não é um problema
exclusivo dos outros. Ela atravessa todos nós.
É fácil reconhecer a intolerância naquele de quem
discordamos. Mais difícil é percebê-la em nosso vocabulário, na impaciência com
que interrompemos alguém, no prazer com que ridicularizamos o adversário ou na
facilidade com que compartilhamos uma informação apenas porque ela confirma
nossas convicções.
As crianças observam essas pequenas escolhas.
Percebem como reagimos no trânsito, como tratamos quem nos atende no mercado,
como nos comportamos diante de uma derrota no futebol e o que fazemos quando
somos contrariados em uma conversa familiar. Também escutam comentários que
julgamos inofensivos e acompanham, muitas vezes em silêncio, nossas reações nas
redes sociais.
Todos somos educadores, ainda que em diferentes
graus de proximidade e influência.
Essa responsabilidade é coletiva, embora não se
distribua igualmente. Quanto maior for a visibilidade, a autoridade ou o
alcance da palavra de um adulto, maior será o impacto do modelo que ele
oferece.
Não educamos apenas quando assumimos formalmente
essa tarefa. Nossos comportamentos passam a compor o mundo com base no qual as
crianças constroem referências sobre como viver com os outros.
Os estudos do psicólogo Albert Bandura mostraram a
importância da aprendizagem por observação. Isso não quer dizer que uma criança
reproduza automaticamente tudo o que testemunha. Significa que as atitudes dos
adultos passam a integrar o repertório com o qual ela interpreta situações,
estabelece relações e faz suas escolhas.
Essa compreensão muda a pergunta que costumamos
fazer. Em vez de pensarmos apenas em como devemos educar as crianças, talvez
precisemos perguntar: quem devemos nos tornar para que elas encontrem em nós
referências que mereçam levar para a vida?
Educar as crianças exige que os adultos continuem
educando a si mesmos.
Adela Cortina nos lembra que o ethos,
o caráter, se forja nas escolhas reiteradas. Não é algo que possuímos de
maneira definitiva, mas uma construção cotidiana. Formamo-nos cada vez que
escolhemos como reagir: contendo um impulso, escutando antes de responder,
reconhecendo um erro ou revendo uma certeza.
Não se trata de aparentar perfeição diante das
crianças. Elas não precisam de adultos infalíveis. Também aprendem quando
presenciam alguém admitindo uma falha, pedindo desculpas e tentando reparar o
dano.
As campanhas eleitorais intensificam divergências,
mobilizam emoções e expõem nossas convicções. Podem estimular a argumentação e
a participação democrática, mas também alimentar rótulos, simplificações e
hostilidades. Nenhum de nós está inteiramente protegido desse risco.
Por isso, as eleições podem representar uma grande
oportunidade de humanização das relações. Não precisamos esconder nossas
posições nem criar diante das crianças uma falsa aparência de unanimidade.
Podemos mostrar que pessoas com ideias diferentes não precisam se transformar
em inimigas e que escutar não significa concordar.
Humanizar o debate, porém, não significa considerar
equivalentes todas as posições. Divergências democráticas não podem ser
confundidas com discursos que atacam direitos, incitam a violência ou negam a
dignidade de determinados grupos.
A tolerância não exige passividade. Ideias devem
ser examinadas, questionadas e, quando necessário, rejeitadas. O desafio está
em confrontá-las sem reproduzir a mesma desumanização que condenamos. É
possível estabelecer limites e defender convicções sem sentir prazer em
humilhar quem está do outro lado.
Essa talvez seja uma das aprendizagens mais
difíceis da democracia.
Se queremos que as novas gerações construam um
mundo mais humano, não basta esperar que sejam melhores do que nós. Precisamos
permitir que a presença delas também nos eduque, revele nossas incoerências e
nos faça reconsiderar a maneira como convivemos.
Este período pode nos conduzir a uma pergunta que
antecede a escolha de qualquer candidato: quem nos tornamos enquanto
escolhemos?
A urna registrará nosso voto. As crianças, porém,
estarão aprendendo com o caminho que fizermos até ela.
Miriã Salles - pedagoga, psicopedagoga e diretora do
Colégio Santo Ivo International School.
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