Celular, notificações, excesso de informação e multitarefa fragmentam a atenção e dificultam a conexão com o presente; autora de "Ser é a nova revolução" reúne cinco práticas para recuperar a presença no cotidiano
Quantas vezes alguém pega o celular para verificar
uma notificação e, minutos depois, percebe que já está percorrendo as redes
sociais sem sequer lembrar por que abriu o aparelho? Entre mensagens, alertas,
vídeos, notícias e múltiplas tarefas simultâneas, a atenção se tornou um dos
recursos mais disputados da vida contemporânea. Para Lygia Flaiano Nyikos,
empresária, advogada, pesquisadora, professora e autora de “Ser é a
nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer trabalhar,
viver e se conectar com propósito”, publicado pela Editora
Labrador, recuperar a capacidade de estar inteiro em uma atividade pode ser uma
forma de resistência à lógica da hiperconectividade.
Um estudo publicado no Journal of the Association for Consumer Research
acompanhou 520 usuários de smartphones e mostrou que aqueles que deixaram o
aparelho em outra sala tiveram desempenho superior em testes de capacidade
cognitiva em comparação com quem manteve o celular sobre a mesa. O resultado
sugere que a simples presença do aparelho pode consumir parte dos recursos
cognitivos disponíveis, mesmo quando ele não está sendo usado, reforçando a
discussão sobre como a hiperconectividade e os estímulos constantes podem
interferir na nossa capacidade de manter o foco e estar plenamente presentes em
uma atividade.
A autora observa que a fragmentação da atenção não acontece apenas diante das
telas. A rotina acelerada, a autocobrança, o excesso de estímulos e a
necessidade constante de responder às demandas também contribuem para um estado
de presença parcial. É a imagem de quem caminha pela cidade com os olhos fixos
no celular e os fones nos ouvidos, fisicamente presente em um lugar, mas
desconectado do que acontece ao redor.
No livro, Lygia recorre à neurociência para discutir atenção, hábitos, emoções,
estresse e autorregulação. Um dos pontos abordados é o chamado cost of
task switching, ou custo da alternância entre tarefas. Em vez de
executar diversas atividades complexas ao mesmo tempo, o cérebro tende a
alternar rapidamente entre elas, o que fragmenta o foco e exige esforço
cognitivo. A autora também diferencia o Cronos, associado ao tempo medido pelo
relógio, do Kairós, relacionado ao tempo vivido com qualidade e significado.
A proposta não é abandonar produtividade, tecnologia ou vida profissional, mas
questionar o que acontece quando desempenho e conexão permanente passam a
ocupar todo o espaço. Na obra, a presença aparece como um exercício cotidiano
de consciência: perceber os próprios padrões, reconhecer os estímulos que
desviam a atenção e criar espaços para escolhas menos automáticas.
“Estar presente não significa fazer menos ou abandonar a realização. Significa
não desaparecer dentro dela”, explica Lygia. Para ela, pequenas mudanças podem
ajudar a recuperar a relação com o instante e transformar atividades comuns em
experiências mais conscientes. É o que a autora chama de “sacramento do
instante”: interromper o piloto automático para perceber aquilo que normalmente
passa despercebido, como sentir o aroma de um café, observar a luz do dia ou
simplesmente permanecer alguns minutos sem recorrer à tela.
A partir dos conceitos e exercícios apresentados no livro, Lygia reúne cinco
práticas para reduzir a fragmentação da atenção e fortalecer a presença no
cotidiano:
1. Crie momentos de “atenção exclusiva”
Escolha atividades que serão realizadas sem celular ou outras telas, como
tomar café, fazer uma refeição, ler ou conversar. A proposta é exercitar a
capacidade de permanecer em uma única experiência, sem buscar estímulos
paralelos.
2. Faça uma pausa antes de reagir
Diante de uma mensagem, notícia ou situação incômoda, crie um pequeno
intervalo entre o estímulo e a resposta. Três respirações profundas podem ser
suficientes para interromper uma reação automática e permitir uma escolha mais
consciente.
3. Estabeleça contratos com a tecnologia
Em vez de depender apenas de força de vontade, determine limites objetivos:
estabelecer um horário para desligar os dados móveis, retirar notificações desnecessárias
e definir um período máximo diário para as redes sociais. “A pergunta não é
apenas quanto tempo passamos conectados, mas quem está escolhendo esse tempo”,
afirma a autora.
4. Substitua o hábito automático por uma alternativa consciente
Ao perceber o impulso de pegar o celular por tédio, ansiedade ou solidão,
identifique qual recompensa está sendo buscada. Depois, experimente uma
alternativa previamente escolhida, como caminhar, preparar um chá, ler algumas
páginas ou simplesmente permanecer alguns minutos em silêncio.
5. Reserve um período para desacelerar antes de dormir
Criar uma rotina sem telas antes do sono pode funcionar como uma transição
entre o excesso de estímulos do dia e o momento de descanso. A ideia é
estabelecer um ritual que ajude o cérebro a deixar o modo de alerta e favoreça
uma relação menos fragmentada com o próprio tempo.
Para Lygia, a transformação não depende de uma
grande ruptura, mas da repetição de pequenas escolhas. Como resume em seu
livro: “A revolução não acontece numa manhã iluminada: ela acontece numa
terça-feira comum, quando você faz algo diferente do padrão. E faz de novo. E
de novo. E de novo.”

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