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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Mais canais, menos eficiência? O paradoxo do omnichannel


Poucas situações são tão frustrantes quanto entrar em contato com uma empresa, explicar um problema, mudar de canal e precisar contar toda a história novamente. Essa experiência, ainda muito comum, revela um dos principais desafios do atendimento moderno: a falsa impressão de que oferecer diversos canais significa, automaticamente, oferecer um bom relacionamento. Quando voz, chat, mensagens e outros pontos de contato não compartilham informações, quem assume o trabalho de conectar a jornada é o próprio cliente – o que apenas gera insatisfação e compromete a percepção sobre a marca.

Por mais que a transformação digital tenha ampliado, significativamente, as possibilidades de comunicação entre empresas e consumidores, muitas organizações ainda abrem novos pontos de contato sem o devido planejamento de como integrá-los, o que prejudica a visibilidade compartilhada entre as equipes e a sensação, para o consumidor, de estar falando com empresas diferentes a cada interação. E, um dos motivos pelos quais ainda se vê tamanha fragmentação, é a base tecnológica corporativa: sistemas legados, muitas vezes adquiridos em momentos diferentes e sem interoperabilidade nativa, dificultam a troca de dados em tempo real entre canais.

A isso, se soma a resistência interna — equipes acostumadas a fluxos de trabalho segmentados podem enxergar a mudança como uma ameaça à rotina já estabelecida. E, não menos importante, há uma preocupação legítima com a segurança e privacidade de dados, já que consolidar informações de clientes em uma base única exige controles robustos de acesso e conformidade com a LGPD. Vencer essas barreiras costuma exigir plataformas em nuvem, processos bem desenhados e suporte técnico qualificado.

Cada vez que um consumidor muda de canal e precisa recontar seu problema, a empresa paga um preço que, nem sempre, aparece na planilha financeira. Do lado operacional, a equipe gasta tempo reconstruindo o contexto do zero, o que aumenta o tempo médio de atendimento e reduz a produtividade dos agentes. Do lado da experiência, a repetição é um dos maiores geradores de frustração e abandono, impactando, diretamente, indicadores como a taxa de resolução no primeiro contato e o Net Promoter Score, além de elevar o risco de churn.

Enquanto isso, quando uma empresa deixa de olhar para seus canais separadamente, e passa a gerenciar a jornada do cliente como um todo (orquestração omnichannel), a lógica operacional se inverte: o histórico de interações passa a acompanhar a pessoa, não o meio em si, carregando consigo todo o contexto já registrado. Isso permite uma personalização real do atendimento, redução do tempo de resolução e libera os atendentes para lidar com casos que exigem mais sensibilidade e complexidade, já que as demandas repetitivas podem ser resolvidas por automações e ferramentas como a IA. O resultado é uma operação mais ágil e uma experiência mais fluida e satisfatória para quem é atendido.

Em um mercado onde a fidelização é cada vez mais disputada, esse desgaste silencioso tem custo direto sobre a receita recorrente e a imagem da marca. Não à toa, segundo o relatório “State of Service 2025”, 80% das organizações passaram a acompanhar a taxa de resolução no primeiro contato, frente a apenas 51% em 2018.

A transição para um atendimento verdadeiramente integrado começa por um diagnóstico honesto: mapear todos os canais em uso, identificar onde estão os dados de cada cliente e localizar os pontos de maior atrito na jornada atual. A partir daí, a centralização das conversas em uma única plataforma, com histórico compartilhado entre os atendentes, costuma ser o primeiro passo estruturante. Também é essencial definir métricas claras desde o início, como tempo médio de atendimento, taxa de resolução no primeiro contato, satisfação (CSAT/NPS) e taxa de abandono, para acompanhar a evolução da estratégia com dados, não apenas percepção.

Esse diagnóstico costuma revelar clientes que já usam um ou dois produtos do portfólio, mas que seguem operando os demais canais fora da plataforma. É aí que mora a maior oportunidade de expansão de receita: não vender um cliente novo, e sim ajudar um atual a completar a jornada que ele já começou. Um processo que envolve automatizar o que é repetitivo, para que chatbots e fluxos inteligentes absorvam boa parte da demanda inicial, direcionando à equipe humana apenas os casos que realmente exigem esse contato.

Tecnologicamente, a IA é uma das soluções que mais vem sendo aplicada nesse sentido, não apenas em chatbots de primeiro nível, mas na análise de comportamento, priorização de atendimentos e monitoramento do sentimento do cliente em tempo real. Uma arquitetura baseada em nuvem também se destaca, com APIs que conectam sistemas diferentes e bases de dados centralizadas, garantindo escalabilidade sem comprometer a segurança.

E, claro, não há como deixar de lado a governança de dados, com controles de acesso, auditoria constante e conformidade regulatória como pilares não negociáveis. Juntos, esses cuidados auxiliam que a capacidade de incorporar novos canais, como assistentes de voz e aplicativos corporativos, se torne ainda mais eficaz, enquanto aquelas que seguem esse caminho sem redesenhar toda a operação, perderão seu potencial competitivo.

Até hoje, muitas empresas ainda tratam a voz, chat e mensagens como frentes separadas no atendimento ao cliente, com contratos, metas e fornecedores diferentes para cada um. Contudo, o consumidor moderno não enxerga canais isolados, mas sim uma relação com a marca. Traduzir essa percepção do consumidor em um modelo comercial assertivo é crucial para que gerem valor com essa estratégia, sempre se lembrando de prezar pela melhor experiência dos clientes ao longo de sua jornada.



Renata Reis - CRO da Pontaltech, empresa especializada em soluções integradas de VoiceBot, SMS, e-mail, chatbot, WhatsApp e RCS.

Pontaltech

 

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