Uma nova modalidade de golpe tem preocupado especialistas em segurança digital e já começa a aparecer com frequência nas redes sociais, aplicativos de mensagens e denúncias recebidas por profissionais da área de cibersegurança.
Utilizando o recurso de fotos de visualização única, criminosos estão explorando o medo, a vergonha e a desinformação para extorquir vítimas, muitas vezes sem sequer terem qualquer informação real sobre elas.
O golpe pode assumir diferentes formas,
mas todas possuem algo em comum: a tentativa de manipular emocionalmente a
vítima para que ela realize pagamentos ou forneça informações pessoais.
Como funciona uma foto de visualização única?
Antes de entender o golpe, é importante compreender a tecnologia utilizada.
As fotos de visualização única foram criadas para aumentar a privacidade das conversas. Quando uma imagem é enviada nesse formato, ela pode ser visualizada apenas uma vez pelo destinatário.
Após a abertura, o aplicativo registra
a visualização e impede que a foto seja aberta novamente. Além disso, a imagem
normalmente não fica armazenada na conversa nem é salva automaticamente na
galeria do aparelho.
Do ponto de vista técnico, o recurso foi desenvolvido para reduzir a permanência da mídia no dispositivo do destinatário, oferecendo mais privacidade ao compartilhamento de informações sensíveis.
Isso não significa que o conteúdo seja
impossível de ser capturado por outros meios, mas sim que a proposta da
funcionalidade é evitar o armazenamento permanente da imagem.
O golpe da curiosidade
Uma das versões mais comuns começa com
mensagens aparentemente inocentes.
A vítima recebe frases como:
* “É você nessa foto?”
* “Olha o que estão falando de você.”
* “Você precisa ver isso urgente.”
* “Recebi isso e achei que deveria te
avisar.”
A mensagem vem acompanhada de uma foto de visualização única.
Ao abrir a imagem, muitas vezes não
existe qualquer conteúdo relevante. Em outros casos, a imagem é genérica ou
completamente desconectada da vítima.
O objetivo não é a foto em si.
O objetivo é confirmar que existe uma pessoa ativa do outro lado e iniciar uma conversa que permita aos criminosos aplicar golpes posteriores.
A nova modalidade: falsas acusações e extorsão
Nos últimos meses, uma nova variação tem chamado a atenção dos especialistas.
Nessa modalidade, os criminosos enviam propositalmente imagens contendo conteúdo sexual explícito ou até mesmo material que aparenta envolver conteúdo sexual criminoso.
Logo após a visualização, a vítima passa a receber mensagens afirmando que foi identificada consumindo aquele tipo de material.
Os golpistas alegam possuir supostos registros de acesso,
monitoramento do aparelho, histórico de navegação ou provas digitais que
demonstrariam que a vítima procura esse tipo de conteúdo na internet.
Em seguida, iniciam as ameaças.
As mensagens costumam afirmar que:
* A vítima cometeu um crime.
* O caso será encaminhado para a
polícia.
* Familiares serão informados.
* O empregador será comunicado.
* O conteúdo será divulgado
publicamente.
* O nome da pessoa será exposto nas
redes sociais.
Para evitar essa suposta denúncia ou exposição, os criminosos
exigem pagamentos imediatos.
O que os criminosos realmente possuem?
Na imensa maioria dos casos, absolutamente nada.
Trata-se de uma técnica clássica de engenharia social baseada em intimidação psicológica.
Os golpistas contam com o desconhecimento técnico da vítima para fazê-la acreditar que a simples abertura de uma imagem enviada por terceiros poderia comprovar algum comportamento criminoso.
Na prática, abrir uma foto recebida por um aplicativo de mensagens não significa que a pessoa procurou, armazenou ou consumiu deliberadamente aquele conteúdo.
Além disso, os criminosos normalmente não possuem acesso ao histórico de navegação, aos arquivos do aparelho ou a qualquer evidência real que sustente as acusações apresentadas.
O golpe funciona porque muitas pessoas entram em pânico antes mesmo de analisar racionalmente a situação.
Abrir a foto significa que meu celular foi invadido?
Não.
Do ponto de vista técnico, a simples visualização de uma foto de
visualização única dentro de um aplicativo legítimo não significa que houve
invasão do aparelho, instalação de malware ou comprometimento dos dados
pessoais.
O verdadeiro ataque acontece no campo emocional.
Os criminosos exploram sentimentos como medo, vergonha, culpa e
urgência para induzir a vítima a tomar decisões precipitadas.
Como se proteger?
Algumas medidas simples ajudam a reduzir significativamente o risco:
* Desconfie de mensagens que geram urgência ou pânico.
* Evite interagir com números
desconhecidos.
* Não forneça informações pessoais.
* Nunca envie documentos ou dados
bancários.
* Não realize pagamentos sob pressão.
* Ative a autenticação em duas etapas
nos aplicativos.
* Mantenha o sistema operacional e os
aplicativos atualizados.
A melhor defesa continua sendo a informação.
O que fazer se começar a ser extorquido?
Caso receba ameaças após abrir uma foto de visualização única:
1. Não faça qualquer pagamento.
2. Não tente negociar com os
criminosos.
3. Preserve todas as evidências da
conversa.
4. Registre capturas de tela, números,
áudios e mensagens.
5. Bloqueie o contato após reunir as
provas.
6. Registre um boletim de ocorrência.
7. Procure orientação jurídica, se necessário.
Caso a imagem recebida contenha conteúdo potencialmente criminoso,
a recomendação é não compartilhar, encaminhar ou armazenar o material além do
estritamente necessário para a comunicação com as autoridades.
A engenharia social continua sendo a principal arma dos criminosos
Embora muitas pessoas associem golpes digitais a invasões sofisticadas e falhas tecnológicas complexas, a realidade é que a maioria das fraudes atuais explora o comportamento humano.
Os criminosos sabem que o medo de uma acusação criminal, de uma exposição pública ou de um constrangimento familiar pode ser mais eficaz do que qualquer técnica avançada de invasão.
Por isso, é fundamental que a população compreenda como esses golpes funcionam.
A simples visualização de uma imagem enviada por terceiros não transforma ninguém em criminoso, não comprova qualquer conduta ilegal e não deve servir como instrumento para que golpistas obtenham vantagem financeira por meio de ameaças.
Quanto maior o conhecimento da sociedade sobre essas práticas,
menor será o espaço para que criminosos utilizem o medo e a desinformação como
ferramentas de extorsão.
Nathalia Carmo - especialista em Cibersegurança, Governança de Identidades e Gestão de Acessos (IAM), COO e Sócia da IAM Brasil, professora e palestrante na área de Segurança da Informação, com mais de 16 anos de experiência em identidade digital, prevenção a fraudes e proteção de ambientes corporativos.
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