Condição que afeta
cerca de 12,3% das mulheres brasileiras ainda é frequentemente confundida com
obesidade e linfedema; diagnóstico precoce e avanços da medicina regenerativa
podem mudar a qualidade de vida das pacientes
Milhares de brasileiras convivem com dores
constantes nas pernas, sensação de peso, hematomas frequentes e aumento
desproporcional do volume dos membros inferiores, sem saber que esses sintomas
podem estar relacionados ao lipedema. Ainda pouco conhecido, o distúrbio
crônico do tecido adiposo permanece subdiagnosticado no Brasil, atrasando o
acesso ao tratamento adequado e comprometendo a qualidade de vida das pacientes.
No Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto, ampliar o conhecimento
sobre a doença é tão importante quanto desenvolver novas alternativas
terapêuticas.
A relevância do tema é evidenciada por um estudo publicado
no Journal of Vascular Brasileiro, que estimou que 12,3% da população feminina
adulta brasileira apresenta sintomas compatíveis com alta probabilidade de
lipedema, reforçando que a doença representa uma importante questão de saúde
pública. O dado foi incorporado ao Consenso Brasileiro de Lipedema, elaborado
pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), que
também destaca a necessidade de ampliar a conscientização entre profissionais
de saúde para reduzir o subdiagnóstico.
Uma doença frequentemente
confundida com obesidade
O lipedema é uma doença crônica caracterizada pelo
acúmulo anormal de gordura, principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos
braços. Diferentemente da obesidade, a gordura acometida pela doença costuma
ser resistente à perda de peso, mesmo com alimentação equilibrada e prática
regular de exercícios. Dor ao toque, sensação constante de peso, inchaço e
facilidade para o aparecimento de hematomas também fazem parte do quadro clínico.
A doença ainda enfrenta demora para ser
diagnosticada no Brasil porque seus sinais são frequentemente confundidos
também com o linfedema, inchaço causado pelo acúmulo de líquidos em
determinadas regiões do corpo que normalmente seriam eliminados pelo organismo
através do sistema linfático, e doenças venosas, além de ainda ser pouco
reconhecida por parte dos profissionais de saúde e da própria população.
Segundo o Consenso
Brasileiro de Lipedema, a sobreposição de sintomas com obesidade, linfedema
e doenças venosas explica parte da dificuldade diagnóstica, fazendo com que
muitas pacientes levem anos até receberem um diagnóstico correto.
Para a Dra. Patricia Lyra, cirurgiã plástica
especialista em lipedema e consultora médica da DMC Group, esse atraso
interfere diretamente na evolução da doença. "O maior desafio hoje não é
apenas tratar o lipedema, mas fazer com que ele seja reconhecido precocemente.
Muitas mulheres passam anos acreditando que o problema está relacionado apenas
ao excesso de peso, quando, na realidade, convivem com uma doença crônica que
exige uma abordagem específica."
Segundo a especialista, o diagnóstico continua
sendo predominantemente clínico, baseado na avaliação médica, na história da
paciente e na exclusão de outras doenças com manifestações semelhantes.
Tratamento evolui e deixa de
focar apenas na estética
O consenso publicado pela SBACV também reforça uma
mudança importante na forma como o lipedema vem sendo tratado. Atualmente, a
recomendação é que o cuidado seja multidisciplinar, envolvendo atividade
física, fisioterapia, acompanhamento nutricional, terapia compressiva e manejo
da inflamação. A cirurgia passa a ser considerada quando existe indicação
clínica, persistência dos sintomas e comprometimento funcional, sempre de forma
individualizada.
Para a especialista, essa mudança representa uma
transformação importante na própria compreensão da doença. "Durante muito
tempo o tratamento foi bastante associado ao aspecto estético. Hoje o
entendimento é de que o principal objetivo é devolver funcionalidade, reduzir
dor, preservar a mobilidade e melhorar a qualidade de vida da paciente. A
aparência é uma consequência desse processo, não seu principal propósito."
Tecnologia e medicina
regenerativa impulsionam nova geração de procedimentos
Se o diagnóstico ainda representa um desafio, o
tratamento tem avançado rapidamente. A incorporação de tecnologias de alta
precisão vem modificando a forma como, em casos selecionados, os procedimentos
cirúrgicos são realizados, permitindo maior preservação dos tecidos, redução do
trauma cirúrgico e recuperação funcional mais rápida.
Esse movimento acompanha um conceito cada vez mais
presente na medicina regenerativa: realizar intervenções que respeitem a
biologia do organismo, minimizando a resposta inflamatória, preservando
estruturas vasculares e linfáticas e favorecendo os processos naturais de
recuperação.
Estudos brasileiros também vêm avaliando
tecnologias aplicadas à lipoaspiração para lipedema. Uma pesquisa
desenvolvida pela equipe do professor de cirurgia plástica da Universidade
Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFSCPRA) e consultor médico da
DMC Group, Dr. Denis Valente, comparou a técnica convencional com um
procedimento assistido pela tecnologia One STEP®, observando redução do tempo
cirúrgico, menor risco de queimaduras e perda sanguínea, diminuição da dor
pós-operatória e retorno mais precoce às atividades em pacientes com lipedema
que precisam passar pelo tratamento cirúrgico.
Segundo a Dra. Patrícia Lyra, essas evoluções
representam uma mudança na própria lógica do tratamento cirúrgico. "Quando
incorporamos tecnologias mais precisas na prática cirúrgica, o procedimento
ganha outra lógica: menos trauma para a paciente e mais segurança para o
cirurgião. Assim proporcionamos uma melhor qualidade de vida e um retorno mais
rápido às atividades cotidianas das pacientes."
Informação ainda é o principal
tratamento
Embora a ciência tenha ampliado significativamente
as possibilidades terapêuticas para o lipedema, especialistas ressaltam que a
inovação só produz impacto quando a doença é reconhecida precocemente. Reduzir
o tempo até o diagnóstico permite que as pacientes tenham acesso mais cedo ao
acompanhamento multidisciplinar e, quando indicado, às tecnologias que tornam
os procedimentos mais seguros e menos invasivos.
O próprio Consenso Brasileiro de Lipedema destaca
que o reconhecimento precoce da doença pode reduzir sua progressão, minimizar
complicações e evitar anos de sofrimento físico e emocional decorrentes do
diagnóstico tardio.
Para Dra. Patrícia, ampliar o debate sobre o
lipedema é um passo fundamental para transformar esse cenário. "Assim como
outras áreas da medicina evoluíram para procedimentos cada vez menos invasivos
e mais precisos, o tratamento do lipedema também caminha nessa direção. A
incorporação de novas tecnologias e protocolos amplia a capacidade de
personalizar as intervenções, reduzir o trauma cirúrgico e acelerar a
recuperação, refletindo uma mudança de paradigma no cuidado dessas pacientes”,
conclui.
https://dmcgroup.com.br/

Nenhum comentário:
Postar um comentário