André Naves alerta
sobre os desafios no enfrentamento da violência contra a mulher e a urgência do
fortalecimento de redes de apoio
Para o defensor público federal, o
combate à violência doméstica exige políticas públicas transversais, autonomia
econômica para as vítimas e ampliação do acesso à justiça.
Neste mês de agosto, o Brasil celebra a Campanha
Agosto Lilás e atinge o marco histórico de 20 anos da
promulgação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Reconhecida
internacionalmente como uma das legislações mais avançadas do mundo na
prevenção e no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher, a data
convida não apenas à celebração dos avanços, mas também a uma reflexão profunda
sobre os gargalos estruturais que ainda impedem a proteção integral das
brasileiras.
Apesar de duas décadas de avanços legislativos e
conceituais, os indicadores sociais revelam uma realidade alarmante. Dados
recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontam que o
país registra recordes no número de feminicídios e de denúncias de violência
doméstica, além de um crescimento expressivo na concessão de medidas protetivas
de urgência. O cenário reforça que a violência contra a mulher permanece como
uma das mais graves violações de direitos humanos no Brasil.
Recortes e vulnerabilidades
A violência doméstica atinge as mulheres de forma
desigual, sendo agravada por fatores raciais, socioeconômicos e de
acessibilidade. Estudos mostram que mulheres negras representam a maioria
esmagadora das vítimas de feminicídio no país. Além disso, mulheres com
deficiência e idosas enfrentam barreiras invisibilizadas e adicionais para
denunciar seus agressores, muitas vezes devido à dependência financeira, física
ou à falta de acessibilidade nos canais tradicionais de atendimento.
Para o defensor público federal André Naves,
especialista em Direitos Humanos, Economia Política e Inclusão Social, o
enfrentamento à violência não pode se limitar à resposta penal.
"A Lei Maria da Penha foi um marco civilizatório
inquestionável. No entanto, o direito de viver sem violência não se garante
apenas com a punição do agressor após o fato consumado. Precisamos atuar na
prevenção primária e na criação de condições reais para que a mulher consiga
romper o ciclo da violência. Isso passa, fundamentalmente, por autonomia
econômica, moradia segura, rede de apoio psicológico e acesso pleno à
Justiça", destaca Naves.
O defensor ressalta ainda que a dependência
financeira e o isolamento social são as principais cadeias invisíveis que
mantêm as vítimas sob o domínio dos agressores: "Quando olhamos sob a
ótica da economia política, a desigualdade de renda e a falta de oportunidades
no mercado de trabalho aprisionam a mulher em ambientes hostis. A verdadeira
emancipação exige que o Estado e a sociedade civil ofereçam caminhos para a
autossuficiência. Inclusão social e combate à violência são pautas
absolutamente indissociáveis."
Desafios e perspectivas
Diante da consolidação dos 20 anos da legislação, o
especialista aponta caminhos fundamentais para que a rede de proteção ganhe
eficácia em todo o território nacional:
- Interiorização dos serviços
especializados: expansão de Delegacias da Mulher
(DELEGs), Defensorias Públicas especializadas e Casas da Mulher Brasileira
fora dos grandes centros urbanos.
- Acessibilidade estrutural: garantia de atendimentos adaptados para mulheres com
deficiência e em situação de vulnerabilidade extrema.
- Educação e transformação cultural: implementação continuada de debates sobre equidade de gênero
e prevenção à violência nas escolas e no ambiente corporativo.
- Fortalecimento econômico: programas de capacitação profissional e prioridade de renda
para mulheres em situação de violência doméstica.
Defensor Público Federal André Naves
andrenaves.com
@andrenaves.def.
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