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domingo, 28 de junho de 2026

"Encher o pote” pode fazer mal?

Por que e como controlar a quantidade de alimento dos pets 

Médica-veterinária ensina como interpretar a diferença entre fome e hábito em cães e gatos e explica a importância de controlar a alimentação dos pets desde filhotes
 

Com a rotina cada vez mais acelerada, manter o pote de ração sempre cheio virou uma solução comum entre responsáveis por cães e gatos. A praticidade, porém, tem um efeito colateral: dificulta o controle do consumo diário e favorece o excesso alimentar, um dos principais fatores associados ao avanço do sobrepeso e da obesidade entre pets. 

Para a médica-veterinária Mayara Andrade, de GranPlus (MBRF Pet), o ponto de partida é justamente rever esse hábito. 

“Quando o alimento fica disponível o tempo todo, o responsável perde a referência do quanto o animal realmente está consumindo ao longo do dia. Esse excesso, muitas vezes silencioso, contribui diretamente para o ganho de peso e suas complicações”, afirma.
 

Excesso de alimento: um risco silencioso 

O avanço do sobrepeso entre cães e gatos já é uma preocupação recorrente na rotina clínica veterinária. Dados do Banfield Pet Hospital indicam que, desde 2011, o número de cães com excesso de peso no Brasil cresceu 108%. Entre os gatos, o aumento foi ainda maior, de 114%. Em paralelo, estudos conduzidos pela Universidade de São Paulo (USP) mostram que mais de 40% dos cães na capital paulista e região metropolitana apresentam algum grau de sobrepeso ou obesidade. 

Segundo Mayara, na prática, o problema costuma evoluir sem sinais evidentes no início. “O ganho de peso acontece de forma gradual e, muitas vezes, o responsável só percebe quando o animal já está acima do ideal. Esse excesso impacta diretamente a saúde e pode reduzir a expectativa de vida”, explica a médica-veterinária de GranPlus.

A profissional explica que o desequilíbrio começa quando há ingestão maior de calorias do que o necessário. “Esse excedente é armazenado como gordura e, com o tempo, passa a comprometer diferentes funções do organismo”, diz. Entre as consequências mais comuns estão sobrecarga nas articulações, alterações metabólicas e maior risco de doenças cardíacas. 

Além do alimento seco, outros hábitos podem contribuir para esse cenário: “Petiscos frequentes, alimentação fora de hora e até pequenas porções de comida caseira, oferecidas ao longo do dia, entram na conta calórica e dificultam o controle", alerta.
 

Fome ou hábito? Como interpretar o comportamento do pet 

Identificar se o animal está com fome de fato ou apenas repetindo um comportamento aprendido é um dos principais desafios no dia a dia. Segundo Mayara, muitos cães e gatos podem desenvolver comportamentos associados à alimentação conforme a rotina e as interações com os responsáveis. Quando determinadas ações são repetidamente associadas à oferta de comida, o animal tende a reproduzir esse comportamento com mais frequência. 

“Quando o responsável oferece alimento sempre que o animal late, mia ou se aproxima, ele acaba reforçando esse comportamento. Com o tempo, o pedido deixa de estar ligado a fome e passa a ser um hábito”, afirma.

Segundo a profissional, observar o contexto em que o comportamento acontece ajuda a interpretar melhor os sinais do animal. 

Mayara explica que em rotinas menos previsíveis, o ponto de atenção deve ser o padrão de consumo e o comportamento do animal: “Se o animal pede comida várias vezes ao dia, mas não mantém o interesse quando o alimento é oferecido, isso pode indicar mais um comportamento condicionado ou até um problema comportamental associado à ansiedade, expectativa ou busca por atenção do que fome. Por isso, mesmo sem horários rígidos, é importante trabalhar com porções controladas e evitar reposições constantes”, orienta.

“Sempre que possível, estabelecer uma rotina, ainda que flexível, ajuda a regular o consumo e reduzir excessos ao longo do dia", completa a profissional.
 

Rotina alimentar: o que funciona na prática 

“Organizar a alimentação é uma medida simples, mas que exige consistência. O primeiro passo é definir a quantidade diária adequada, com base no porte, idade, nível de atividade e condição corporal do animal. A recomendação da embalagem é um ponto de partida, mas pode, e deve, ser ajustada sempre, principalmente em casos de ganho ou perda de peso”, orienta Mayara.

Na prática, segundo ela, alguns cuidados fazem diferença:

  • Dividir a quantidade diária em duas ou três refeições
  • Evitar deixar o alimento disponível o dia todo
  • Escolher o melhor petisco e incluí-lo nas calorias diárias
  • Usar copos medidores para evitar excesso (para animais "gulosos" ou que comem rápido demais, utilizar comedouros interativos)
  • Manter água fresca sempre acessível


Filhotes exigem atenção redobrada 

A fase de crescimento é determinante para a saúde do animal ao longo da vida. Mayara explica que erros na alimentação nesse período podem trazer consequências permanentes.

“Filhotes obesos têm maior probabilidade de se tornarem adultos obesos. E o contrário também preocupa: uma nutrição insuficiente ou desequilibrada pode comprometer o desenvolvimento”, alerta Mayara.

Segundo a veterinária, o impacto vai além do peso: “Estamos falando de formação óssea, desenvolvimento muscular e sistema locomotor. Desequilíbrios nutricionais podem interferir no fechamento adequado das linhas de crescimento e favorecer problemas ortopédicos no futuro. Por isso, o uso de alimentos específicos para filhotes, com formulação adequada para cada fase, é essencial".
 

Qualidade e controle caminham juntos 

Mayara orienta que, mais do que reduzir a quantidade, o foco deve estar no equilíbrio. Dietas completas e balanceadas garantem que o animal receba todos os nutrientes necessários sem excessos. 

“Controlar a alimentação não significa restringir, mas oferecer o que o pet precisa, na medida certa. Quando há qualidade nutricional e rotina bem definida, conseguimos prevenir uma série de problemas e promover mais saúde ao longo da vida. Na prática, pequenos ajustes no dia a dia, como medir porções, estabelecer horários e evitar recompensas em forma de comida, já são suficientes para fazer diferença no peso e no bem-estar dos animais”, conclui a médica-veterinária de GranPlus.



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