João Pedro Brasileiro, professor de IA na Fundação Dom Cabral e na XP Educação, explica por que muitas organizações ainda têm dificuldade em obter resultados consistentes de projetos de inteligência artificial
Apesar do avanço da inteligência artificial nas organizações, transformar iniciativas pontuais em programas estruturados ainda é um desafio para grande parte do mercado. Segundo o relatório global The State of AI 2025, da McKinsey, quase dois terços das empresas ainda não começaram a escalar a inteligência artificial em toda a organização, apesar de já utilizarem a tecnologia em alguma área do negócio.
Para João Pedro Brasileiro, professor de IA na Fundação Dom Cabral, na XP Educação e CEO da Innovation Latam, o desafio atual deixou de ser o acesso à tecnologia e passou a ser a capacidade de implementá-la de forma consistente. “Muitas empresas já entenderam o potencial da IA e iniciaram testes ou projetos piloto. O problema é que boa parte dessas iniciativas permanece isolada e não se transforma em capacidade organizacional”, afirma.
Segundo
o especialista, a IA ainda está em uma fase de maturidade corporativa
em que hipóteses, dados, processos, pessoas e riscos precisam ser trabalhados
simultaneamente. Nesse cenário, falhas em projetos não necessariamente indicam
problemas na tecnologia, mas podem revelar lacunas na forma como a organização
conduz sua jornada de adoção. “O problema não está em projetos
de IA falharem, mas em a empresa não extrair nenhum aprendizado dessas
experiências”, diz.
Nesse
contexto, o especialista destaca cinco erros que
costumam atrapalhar a evolução dos projetos e a escalabilidade da
inteligência artificial.
1. Apostar tudo em um único
projeto - “Existe uma tentação compreensível na implementação de
IA: escolher um grande caso de uso, concentrar energia nele e tentar provar
valor rapidamente”, afirma João Pedro.
Segundo
o especialista, a lógica parece eficiente, mas concentra risco demais em uma
única iniciativa. A qualidade dos dados, a aderência dos processos, a
integração com sistemas, a segurança e o engajamento das equipes são fatores
que influenciam diretamente os resultados.
Empresas
que conseguem avançar mais rapidamente costumam trabalhar com um portfólio de
iniciativas, combinando resultados e aprendizado contínuo.
2. Implementar tecnologia antes de
capacitar as pessoas - Uma das maiores fontes de
fracasso em IA não está na tecnologia, mas na sequência adotada pelas
organizações. Muitas empresas tentam implementar soluções em áreas que
ainda não compreendem o que a tecnologia faz, quais problemas resolve e como
pode transformar a rotina de trabalho. “Quando a capacitação vem antes da
implementação, as áreas enxergam oportunidades, os líderes formulam problemas
melhores e os times deixam de perguntar apenas ‘isso vai me substituir?’ para
perguntar ‘onde isso pode me potencializar?’”, diz.
Segundo o
professor, preparar as pessoas antes de implementar a tecnologia ajuda a
criar demanda qualificada e aumentam as chances de adoção bem-sucedida.
3. Não definir uma liderança para
coordenar a estratégia de IA - “A empresa não
precisa esperar a estrutura perfeita para começar. O importante é criar
condições para organizar a jornada de adoção da IA e conectar as diferentes
áreas envolvidas”, destaca.
De
acordo com João Pedro, muitas organizações ainda não possuem um cargo formal
dedicado ao tema, mas já podem estabelecer uma função responsável por alinhar
prioridades, estruturar iniciativas e criar mecanismos de governança. Sem
essa coordenação, a tendência é que a inteligência artificial permaneça
fragmentada dentro da organização.
4. Escalar sem criar um modelo
operacional - Nos estágios iniciais, é natural que diferentes
áreas testem ferramentas e explorem casos de uso de forma independente. O
problema surge quando a empresa tenta expandir a adoção mantendo
a lógica descentralizada. “Escalar IA exige modelo operacional, não
iniciativas soltas”, afirma João Pedro.
Segundo
ele, a ausência de critérios, processos e definição
de responsabilidades pode gerar redundância, desperdício de recursos e
perda de aprendizado
5. Subestimar o papel
dos quick wins (ganhos rápidos) - Muitas
empresas tratam quick wins como iniciativas menores, voltadas
apenas para demonstrar resultados rápidos. Para João Pedro, essa interpretação
é equivocada. “Quick wins não são atalhos. São a forma mais
eficaz de construir confiança.”
Para o
especialista, iniciativas desse tipo ajudam a organização a aprender mais
rapidamente, identificar oportunidades, validar processos e criar as bases
necessárias para projetos mais complexos. Empresas que desenvolvem diferentes
iniciativas em paralelo costumam gerar mais aprendizado do que aquelas que
apostam todas as fichas em um único projeto.
“Projetos
iniciam a jornada, mas são os programas que sustentam a transformação. É assim
que a IA deixa de ser experimento e passa a gerar impacto real nos
negócios”, conclui.
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