Término antecipado do expediente. Reunião de amigos. Churrasco e cerveja. Emoção à flor da pele. Gritos, barulhos de móveis arrastados, e algumas lágrimas.
Gol
do Brasil? Ou mais uma mulher agredida?
Os
números demonstram o que não gostaríamos de ver: para milhares de mulheres
brasileiras, dia de jogo da seleção é sinônimo de medo dentro de casa.
E
a vitória, igualmente, não acompanha o sentimento de alívio. O receio é o
mesmo, e não se confunde sequer com o uso de álcool que, sabemos, costuma ser
quase que um ingrediente indispensável em noites de jogos da seleção.
A
aglomeração; a cultura que naturaliza a agressividade masculina como parte da
“torcida”; a teoria de frustração-agressão que normaliza brigas de torcida após
a derrota; os valores sociais que associam “ser homem” a dominar e vencer são
tentativas de explicações psicológicas e sociológicas desse fenômeno.
Como
advogadas, não temos como ignorar as razões, tampouco deixar de buscar
compreender o que faz com que gritos de gol se confundam com gritos de socorro,
mas precisamos entender, também, como os Estados lidam com os números
alarmantes.
Restringindo-se
ao Brasil, o Ligue 180 registrou, apenas no primeiro trimestre de 2026, um
aumento de 23% do número de denúncias em relação ao mesmo período de 2025,
sendo que a violência tende a crescer quase 26% em dias de jogo do Brasil,
conforme pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Ainda
estamos na fase de grupos, os jogos difíceis sequer começaram a ser disputados.
Mas as tardes de bebida, as madrugadas de bar depois da bola rolar, já
registram seus efeitos decorrentes.
Não
adianta “aguardar o momento decisivo” para, como diz o Ancelotti, trazer o
reforço que a seleção brasileira precisa. É necessário analisar a crescente e materializar
mecanismos de proteção já existentes.
Apenas
a título de exemplo, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e o Tribunal
de Justiça de Minas Gerais (TJMG) iniciaram um projeto voltado a enfrentar a
violência contra mulheres durante a Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027, que
terá jogos em Belo Horizonte.
A
proposta prevê uma série de ações concretas: plantão jurídico nos dias de jogos
com poder para conceder medidas protetivas da Lei Maria da Penha, prevenção e
enfrentamento à violência contra mulheres e meninas dentro dos próprios
estádios, atendimento humanizado e multidisciplinar às vítimas e integração
entre o Judiciário e as redes locais de proteção. A iniciativa também busca
contribuir com dados e relatórios para a formulação de políticas públicas
nacionais sobre o tema.
Não
dá para aguardar um jogo frustrante para alterar o time titular e a estratégia
de jogo.
É
necessário reagir ao problema antes que ele se torne estatísticas alarmantes. A
proteção das mulheres precisa ser parte da própria logística do evento
esportivo.
Que
os gritos de gol se tornem apenas comemorações. Que os móveis arrastados
decorram apenas de abraços de comemoração. Que as lágrimas sejam de emoção,
alegria, ou até frustração, mas nunca de medo ou em decorrência de agressões.
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Gabriela Camargo Corrêa e Marília Ancona de Faria
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