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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Quando a bola rola, a violência também sobe: o que os dados mostram sobre Copa do Mundo e violência doméstica

Término antecipado do expediente. Reunião de amigos. Churrasco e cerveja. Emoção à flor da pele. Gritos, barulhos de móveis arrastados, e algumas lágrimas. 

Gol do Brasil? Ou mais uma mulher agredida? 

Os números demonstram o que não gostaríamos de ver: para milhares de mulheres brasileiras, dia de jogo da seleção é sinônimo de medo dentro de casa. 

E a vitória, igualmente, não acompanha o sentimento de alívio. O receio é o mesmo, e não se confunde sequer com o uso de álcool que, sabemos, costuma ser quase que um ingrediente indispensável em noites de jogos da seleção. 

A aglomeração; a cultura que naturaliza a agressividade masculina como parte da “torcida”; a teoria de frustração-agressão que normaliza brigas de torcida após a derrota; os valores sociais que associam “ser homem” a dominar e vencer são tentativas de explicações psicológicas e sociológicas desse fenômeno. 

Como advogadas, não temos como ignorar as razões, tampouco deixar de buscar compreender o que faz com que gritos de gol se confundam com gritos de socorro, mas precisamos entender, também, como os Estados lidam com os números alarmantes. 

Restringindo-se ao Brasil, o Ligue 180 registrou, apenas no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 23% do número de denúncias em relação ao mesmo período de 2025, sendo que a violência tende a crescer quase 26% em dias de jogo do Brasil, conforme pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 

Ainda estamos na fase de grupos, os jogos difíceis sequer começaram a ser disputados. Mas as tardes de bebida, as madrugadas de bar depois da bola rolar, já registram seus efeitos decorrentes. 

Não adianta “aguardar o momento decisivo” para, como diz o Ancelotti, trazer o reforço que a seleção brasileira precisa. É necessário analisar a crescente e materializar mecanismos de proteção já existentes. 

Apenas a título de exemplo, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) iniciaram um projeto voltado a enfrentar a violência contra mulheres durante a Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027, que terá jogos em Belo Horizonte. 

A proposta prevê uma série de ações concretas: plantão jurídico nos dias de jogos com poder para conceder medidas protetivas da Lei Maria da Penha, prevenção e enfrentamento à violência contra mulheres e meninas dentro dos próprios estádios, atendimento humanizado e multidisciplinar às vítimas e integração entre o Judiciário e as redes locais de proteção. A iniciativa também busca contribuir com dados e relatórios para a formulação de políticas públicas nacionais sobre o tema. 

Não dá para aguardar um jogo frustrante para alterar o time titular e a estratégia de jogo. 

É necessário reagir ao problema antes que ele se torne estatísticas alarmantes. A proteção das mulheres precisa ser parte da própria logística do evento esportivo. 

Que os gritos de gol se tornem apenas comemorações. Que os móveis arrastados decorram apenas de abraços de comemoração. Que as lágrimas sejam de emoção, alegria, ou até frustração, mas nunca de medo ou em decorrência de agressões.
 

EM CASO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

📞 180 – Central de Atendimento à Mulher (24h, ligação gratuita)

🚨 190 – Emergência policial

🏠 Delegacias da Mulher também recebem denúncias presencialmente, incluindo a possibilidade de atendimento multidisciplinar e por telefone junto à Casa da Mulher Brasileira em São Paulo (SP0

🚏Postos Avançados localizados em metrôs e terminais de ônibus, com atendimento de segunda à sexta, das 08h00 às 17h00


Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Universidade de Lancaster, Universidade de Warwick, Agência Brasil, Senado Federal (DataSenado/OMV), Secretaria da Mulher do DF

 

Gabriela Camargo Corrêa e Marília Ancona de Faria

 

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