Dra. Aline Marques, ginecologista e obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana
Menstruar
ainda é, para milhões de brasileiras, uma experiência atravessada por privação.
No consultório, a queixa costuma chegar como cólica, irregularidade do ciclo,
fluxo intenso. Mas, por trás do relato clínico, existe um tema que permanece
pouco dito e que merece ser tratado com a centralidade que exige: a
possibilidade de atravessar o período menstrual com o mínimo de dignidade. A
chamada pobreza menstrual não se resume à falta de absorventes. Ela inclui a
ausência de água encanada, de banheiros seguros e de informação capaz de
reduzir medo, vergonha e desinformação, especialmente entre meninas.
O
impacto dessa realidade aparece primeiro no corpo. Sem produtos de higiene
adequados e sem condições básicas de limpeza, aumentam os riscos de infecções
urogenitais, irritações e complicações que poderiam ser evitadas. Mas a
consequência não é apenas física, ela atravessa o bem-estar emocional e social.
A literatura científica tem apontado de forma consistente o peso psicossocial
da falta de infraestrutura: a insegurança para trocar um absorvente, o
constrangimento de manchar a roupa, a sensação de estar “suja” ou inadequada
por algo absolutamente fisiológico. Estudos publicados em periódicos como PLOS
Medicine e The Lancet associam a precariedade das condições menstruais a
estresse, ansiedade e perda de bem-estar, sobretudo em contextos de
vulnerabilidade.
O
resultado é uma exclusão que costuma passar despercebida. Meninas faltam à
escola; mulheres faltam ao trabalho. No Brasil, essa interrupção não é pontual:
ela reforça um ciclo de desigualdade que começa cedo e se prolonga na vida
adulta. Em cenários extremos, ainda se encontram improvisos como pano, papel e
outros materiais inadequados, não como escolha, mas como falta de alternativa.
Além de colocar a saúde em risco, isso corrói a autoestima e aprofunda a ideia
de que menstruar é algo que deve ser escondido, suportado em silêncio.
Nos
últimos anos, o país deu passos importantes ao iniciar políticas de
distribuição gratuita de absorventes para pessoas em situação de
vulnerabilidade, reconhecendo que o acesso a itens de higiene menstrual é uma
questão de saúde pública. Ainda assim, a efetividade dessas políticas depende
de continuidade, logística eficiente e alcance real em comunidades vulneráveis.
A própria literatura médica, incluindo definições e análises reunidas no BMJ
Global Health, é clara ao afirmar que o problema não se resolve apenas com
o produto. Dignidade menstrual exige um pacote mais amplo: educação em saúde
para que a primeira menstruação não seja um trauma, mas parte do processo de
crescer, saneamento básico, porque água e sanitários são elementos elementares
de saúde, e combate direto ao estigma que transforma a menstruação em sinônimo
de sujeira.
Há
um fio que liga a saúde menstrual à autonomia. Assim como o Brasil discute o
acesso e a qualidade do pré-natal e da assistência obstétrica, temas
frequentemente analisados na saúde pública, a construção desse cuidado começa
muito antes: na adolescência, quando a menina aprende a reconhecer seu corpo,
compreender seus ciclos e desenvolver segurança para buscar orientação e
direitos. Se o país falha em proteger a menina que menstrua hoje, falha com a
mulher que precisa estudar, trabalhar e decidir sobre sua vida amanhã.
Enfrentar
a pobreza menstrual, portanto, é mais do que um gesto de assistência, é
política de redução de desigualdades. A integração entre atenção básica e
assistência social pode ser decisiva para evitar que famílias precisem escolher
entre comer e comprar um pacote de absorventes. E, como sociedade, é preciso
encarar o óbvio: garantir dignidade menstrual é fortalecer a saúde física e
mental da população e remover uma barreira silenciosa que ainda limita
educação, produtividade e cidadania no Brasil. Superar esse desafio é dar às
meninas e mulheres a base mínima para viver com saúde, segurança e pleno
pertencimento social.
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