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sábado, 6 de junho de 2026

Entre gerações e palavras: o que as gírias revelam sobre a língua portuguesa


Poucas situações revelam tão claramente o choque entre gerações quanto a reação de muitos adultos diante das novas gírias utilizadas pelos jovens. Expressões como "cringe", "tankar", "forma aura" e "six seven" costumam provocar estranhamento, críticas e até previsões pessimistas sobre o futuro da língua portuguesa. Pode-se observar que, sempre que uma nova forma de expressão se populariza entre os mais jovens, surgem discursos anunciando o empobrecimento da linguagem e a perda dos padrões considerados corretos. 

A preocupação não é totalmente descabida. Afinal, a escola possui a responsabilidade de ensinar a norma-padrão e de preparar os estudantes para contextos acadêmicos, profissionais e institucionais. Entretanto, vale perguntar: toda mudança linguística representa, de fato, uma ameaça à língua? Ou estaríamos diante de um fenômeno que acompanha a própria história das línguas humanas? 

Segundo a Sociolinguística, campo da Linguística dedicado ao estudo das relações entre língua e sociedade, a variação constitui uma característica natural dos idiomas. Desde os estudos de William Labov e de Uriel Weinreich, sabe-se que as mudanças linguísticas não ocorrem à margem do sistema, mas em seu interior, impulsionadas pelas necessidades comunicativas dos próprios falantes. A língua muda porque a sociedade muda. E talvez seja justamente essa capacidade de adaptação que garanta sua permanência ao longo do tempo.

Quando um jovem utiliza a palavra "cringe" para classificar comportamentos considerados ultrapassados por sua geração ou emprega expressões como "six seven" para compartilhar referências compreendidas por determinado grupo, não se trata apenas da substituição de palavras antigas por palavras novas. Trata-se da construção de identidade, pertencimento e reconhecimento social. A linguagem, nesse contexto, funciona como um espaço de encontro entre indivíduos que compartilham experiências semelhantes. 

Pode-se observar, ainda, que a resistência às gírias não é um fenômeno recente. A história da língua portuguesa parece sugerir exatamente o contrário do que afirmam os discursos alarmistas. Muitas palavras hoje plenamente incorporadas ao vocabulário comum também despertaram desconfiança em outros períodos históricos. O que muda são as expressões; a preocupação permanece praticamente a mesma. 

Não se trata de abandonar a norma-padrão ou de defender que qualquer forma de expressão seja adequada para todos os contextos. Trata-se de compreender que diversidade linguística e ensino formal não são realidades incompatíveis. Talvez o verdadeiro desafio não seja combater as gírias, mas ensinar os falantes a transitarem conscientemente entre diferentes registros da língua. 

Afinal, uma língua viva não se caracteriza pela ausência de mudanças, mas pela capacidade de se renovar sem perder sua identidade. E, sob essa perspectiva, as gírias dizem menos sobre a decadência da língua portuguesa e mais sobre sua permanente vitalidade.


Midian Rebeca Justino de Araújo - professora de Linguística no Ensino Fundamental e Médio do Colégio Presbiteriano Mackenzie Agnes, no Recife. Mestranda em Educação Clássica e licenciada em Letras, dedica-se à formação linguística e ao desenvolvimento humano por meio da educação.


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