Nelson Rodrigues, um dos maiores observadores da
alma humana, escreveu que, no futebol, “o pior cego é o que só vê a bola”. Essa
frase encerra uma lição pedagógica profunda: a realidade nunca é um ponto
isolado, mas um campo vasto de interações, que acontecem em múltiplas
dimensões. Na educação, o desafio contemporâneo é justamente este: formar
cidadãos que não fiquem apenas hipnotizados pela “bola” dos fatos imediatos e
do conteúdo técnico, mas que consigam enxergar a complexidade de todo o “campo”
ao redor.
Um exemplo atual que exige essa visão sistêmica são
as questões que envolvem a participação do Irã na Copa do Mundo de 2026,
sediada pelos Estados Unidos, México e Canadá. Para quem “só vê a bola”,
trata-se apenas de um evento esportivo em que se enfrentarão seleções de
diferentes países. Entretanto, para quem foi ensinado a estabelecer conexões, o
jogo é o ponto de encontro de uma rede de tensões globais que demanda uma
análise que contemple múltiplas camadas.
Sob as lentes histórica, política e econômica, a
possibilidade da presença iraniana em solo norte-americano traz à luz uma
história marcada por disputas geopolíticas no Oriente Médio que colocam em
confronto, há décadas, diferentes perspectivas e, consequentemente, modos
antagônicos de ser e estar no mundo. A análise escolar não deve buscar um
veredicto sobre qual lado está certo, mas apresentar como esses contextos e
suas consequências moldam os movimentos do presente.
Para além do olhar “isto ou aquilo”, para o país A
ou para o país B, uma análise sistêmica real considera um terceiro elemento
fundamental: o sujeito e a sua subjetividade.
O foco na subjetividade humana é o que impede a
desumanização do conhecimento. Por trás das bandeiras e das decisões, existe o
indivíduo: o atleta que treinou uma vida inteira, o torcedor que vê no esporte
sua identidade cultural e o cidadão comum, atravessado pela violência dos
conflitos que não escolheu. A escola cumpre seu papel ao mostrar que, além dos
dados estatísticos, existe a experiência humana — um elemento que traz nuances
e contradições que nenhuma fórmula simplista consegue explicar.
O papel da educação, portanto, é garantir que o
estudante não sofra da “cegueira” a que alude a máxima de Nelson Rodrigues.
Ensinar a enxergar apenas a “bola” pode ser suficiente para acompanhar o jogo;
ensinar a compreender o “campo” em sua totalidade é mostrar que futebol,
política e economia são fios de um mesmo tecido social. Ao abordar o cenário
entre Irã e EUA sem juízos de valor, mas com foco na complexidade e na
subjetividade dos sujeitos, a escola ajuda o estudante a compreender que nada
acontece de forma isolada.
Em tempos de leituras rápidas e posicionamentos
imediatos, educar para a complexidade não é apenas uma escolha pedagógica; é
uma necessidade. Precisamos ensinar nossos jovens a olhar para além da bola e a
compreender a imensidão do campo — e das pessoas que nos cercam.
Miriã Salles - diretora do
Colégio Santo Ivo.
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